Empreendedorismo colaborativo – o fim do herói solitário?

Nas últimas décadas assistimos a um acentuar do individualismo. Aprendemos a não confiar em estranhos, a não incomodar os vizinhos. Vivemos apenas com a família nuclear. Valorizámos a independência e as realizações individuais. Abstivemo-nos de votar e evitámos ter qualquer envolvimento nos problemas dos outros. Habituámo-nos a tirar selfies e a postar status no facebook e gastámos nas redes sociais o tempo que poderíamos ter passado com amigos.

Ironicamente, as tecnologias que nos afastaram da comunidade são também aquelas que nos trouxeram um novo sentido de colectivo. Hoje, para além do contacto físico, temos à nossa disposição uma multiplicidade de formas de comunicar. Em vez de conversar com os vizinhos, estamos a trocar ideias com desconhecidos do outro lado do planeta, a comentar o que um autor escreveu a 1000 quilómetros de distância, a encetar uma conversa a propósito do de um perfil de LinkedIn. Online, surgem os mais diversos grupos onde quem tem um interesse comum, pode participar.

Não se trata portanto apenas de estarmos focados em nós próprios; parecemos antes estar a dar novos contornos à nossa conceção de comunidade. Como se tantas horas de solidão auto-infligida nos tivessem feito ver as potencialidades do que está para além da nossa casa, do nosso bairro, e da nossa maneira de pensar. De uma forma algo estranha e retorcida, o culto do individualismo parece estar a contribuir para potenciar novas formas de interacção, de comunicação, de participação, de partilha e de colaboração. Para as empresas e para os empreendedores, este processo de mudança já começou a dar frutos. Senão, vejamos alguns exemplos:

Círculos colaborativosnSe é verdade que muitos empreendedores sentem solidão, falta de apoio e receio de que os seus projectos não sejam suficientemente relevantes, também é verdade que quando a tecnologia permite a colaboração e o apoio aos empreendedores, tudo muda. No modelo do círculo colaborativo propõe-se que o empreendedor procure formar um círculo que inclua 4 ou 5 pessoas/empresas que tenham interesse no mesmo mercado e objectivos comuns. Cada membro do círculo beneficia das ideias dos outros quanto a estratégias para avançar com o seu projecto. O resultado é que os empreendedores baixam a guarda e começam a partilhar experiências, a espalhar a mensagem uns dos outros e a perceber o que podem aprender uns com os outros. Por fim, a energia que surge através desta colaboração faz com que os empreendedores comecem naturalmente a perguntar ‘o que posso fazer por ti?’. Ter a oportunidade de fazer parte de um círculo colaborativo é um passo importante para quem quer crescer e empreender com mais qualidade e atingir resultados mais rápidos do que se estivesse sozinho.

n(círculos colaborativos explicados a partir do minuto 11:30)
nRedes de ApoionBasta procurar na net para encontrar redes de apoio que colocam em contacto, fornecem mentoria, aconselham e ajudam a angariar financiamento, divulgam projectos, oferecem feedack e inspiram empreendedores de todo o mundo. A Ashoka Changemakers e a Schwab Foundation são bons exemplos de comunidades que põem em rede os diversos empreendedores, as suas ideias e recursos, para potenciar a colaboração em áreas sociais relacionadas, entre outras, com desenvolvimento e prosperidade, ambiente e sustentabilidade, saúde e bem-estar, direitos humanos e igualdade, participação pública, negócio e empresa social, e ainda paz e relações harmoniosas. Aqui é possível ver projetos em desenvolvimento e inscrever o seu próprio projeto, bem como ter acesso a ferramentas e oportunidades interessantes. Também em Portugal, projectos como o Woman Win Win estao a trabalhar o conceito de colaboração, nomeadamente através da W-Share, que permite às empreendedoras partilharem os recursos que têm a mais e aproveitarem oportunidades.

Plataformas colaborativasnComeçam a surgir também algumas plataformas colaborativas, como por exemplo o Startacus.net, o Collaborizm.com, ou a WePinch que permitem colocar em contacto pessoas e projectos em ambiente online, criando verdadeiras comunidades nas quais os membros, todos empreendedores, podem interagir e colaborar entre si. Estranhamente, quando estas plataformas oferecem a possibilidade de pedir ajuda com alguma parte do projecto – como é o caso da secção ‘this is what I need help with’ da Startacus.net – os usuários tendem a não preencher o campo em causa. Os empreendedores parecem recear pedir ajuda, expor as suas vulnerabilidades online. Será esta uma das principais barreiras do empreendedorismo colaborativo?

Ambientes colaborativosnPor todo o mundo, e também em Portugal, o coworking está a aproximar pessoas e projectos, potenciando a partilha de experiências e recursos, bem como o estabelecimento de parcerias. Mas alguns coworks estão a evoluir para algo ainda mais colaborativo, verdadeiros ‘ecossistemas’, nos quais projectos complementares partilham não apenas um espaço, mas a mesma ideologia e muito do negócio. Um excelente exemplo é a brasileira Goma, que pretende ser um verdadeiro laboratório de fomento ao empreendedorismo em rede, onde a gestão do espaço é horizontal.

cowork IdeiahubnO ambiente colaborativo da Goma.

CrowdsourcingnO crowdsourcing já não é novidade para ninguém. O Linux ou a Wikipédia talvez sejam os exemplos mais citados de sistemas abertos em que virtualmente toda a gente pode colaborar para a criação de algo maior. Hoje, a lógica do crowdsourcing, para além de angariar ideias e conteúdos, está a ser utilizada por empreendedores que pretendem obter feedback sobre as suas criações (veja o exemplo do Pitchbox.com.br) ou para lançar desafios concretos de inovação que qualquer um, desde que tenha a capacidade de o fazer, pode resolver (como o Innocentive.net). Este tipo de ‘inovação aberta’ permite que as empresas obtenham input de inúmeros indivíduos, abrindo as suas equipas à participação exterior.

Liderança colaborativanEmpurradas pelos desafios da economia, as próprias empresas, e não apenas as microempresas que os empreendedores de hoje estão a criar, estão a começar a transformar a liderança tradicional num tipo de liderança mais horizontal, ou democrática. Esta abordagem colaborativa da liderança, em que cada membro da equipa é chamado a contribuir até para as decisões mais importantes, dá maior poder de intervenção aos trabalhadores e esbate as linhas entre ‘patrão’ e ‘empregado’. Com mais autonomia e satisfação dos funcionários, soluções mais participadas e criativas, mais espaço para inovar, o envolvimento na experiência da empresa é maior, bem como o contributo para o seu sucesso.

CrowdfundingnAté o financiamento passa hoje muitas vezes pela colaboração. O mundo está repleto de exemplos de iniciativas para as quais a ‘multidão’ é chamada a contribuir. Seja um grande investimento ou um donativo de 5 euros, a criação de sites como o PPL, o Massivemov ou o Kickstart permite que toda a gente contribua para uma causa social, um projecto no qual se acredita, ou algo que quer ver investigado. Para os empreendedores, isto significa poder angariar fundos para dar o pontapé de saída dos seus projectos, diminuir riscos e obter independência dos sistemas bancários.

Estes são apenas alguns exemplos que reforçam a ideia de que a colaboração está por todo o lado. Hoje, a jornada do empreendedor não tem de ser a do herói solitário, embora ainda pareçam haver importantes barreiras à colaboração. Sozinhos, alguns empreendedores podem ir longe, mas com muito mais esforço e gasto de tempo. Então, porque continuamos a ter, na prática, tenta dificuldade em implementar o hábito de colaborar nas nossas relações? Este é sem dúvida um dos grandes desafios que se colocam para 2015.

Conhece outros exemplos relevantes de colaboração no empreendedorismo? Tem ideias sobre como fomentar a colaboração? Deixe-nos o seu comentário no campo abaixo.

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