A indústria dos videojogos está a entrar numa nova fase de crescimento, depois de um período de ajustamento pós-pandemia que ficou conhecido como o “inverno dos videojogos”. Mais do que um simples ciclo de recuperação, os sinais apontam para uma transformação estrutural do setor, impulsionada pela convergência entre plataformas, pela maturação do cloud gaming e pela crescente centralidade dos conteúdos gerados por utilizadores. É esta leitura que emerge do mais recente relatório da Boston Consulting Group, que projeta um crescimento médio anual de 6% até 2030, ano em que a indústria deverá atingir cerca de 350 mil milhões de dólares em receitas globais.
O interesse destes dados ultrapassa largamente o perímetro do gaming. A indústria dos videojogos funciona hoje como um verdadeiro laboratório para compreender a evolução das plataformas digitais, dos modelos de monetização e das dinâmicas de engagement num contexto de elevada concorrência e saturação de oferta.

Do produto ao ecossistema: quando as plataformas colidem
Um dos sinais mais claros da mudança em curso é o esbatimento das fronteiras tradicionais entre consola, PC, mobile e cloud. A experiência de jogo torna-se progressivamente independente do hardware, aproximando-se de um modelo de acesso contínuo e omniplataforma. Esta convergência altera a lógica de captura de valor e coloca novos desafios às empresas, desde a gestão de infraestruturas até à relação direta com o utilizador final.
Neste contexto, o cloud gaming ganha relevo não apenas como tecnologia, mas como modelo de negócio. O facto de uma maioria significativa dos jogadores já ter experimentado este tipo de soluções, com níveis elevados de satisfação, indica que a resistência inicial está a diminuir. Para os operadores, isto abre caminho a estratégias baseadas em subscrições, acesso flexível e maior previsibilidade de receitas, num mercado onde o preço continua a ser um fator decisivo para mais de três quartos dos consumidores.

Inteligência artificial e economia dos criadores como motores de escala
A integração da inteligência artificial generativa no desenvolvimento de jogos é outro vetor central desta transformação. A sua utilização crescente permite reduzir custos, acelerar ciclos de produção e introduzir novas formas de interação, com experiências mais personalizadas e adaptativas. Na prática, a IA contribui para aumentar a diversidade da oferta num mercado já saturado, elevando a fasquia da diferenciação.
Em paralelo, a economia dos criadores está a redefinir o papel dos utilizadores, que deixam de ser apenas consumidores para se tornarem cocriadores de valor. Plataformas que integram conteúdos gerados por utilizadores transformam-se em ecossistemas sociais e económicos, onde a fidelidade se constrói em torno de comunidades e não apenas de títulos específicos. Este fenómeno tem implicações diretas para a descoberta de conteúdos, para o marketing e para a própria longevidade dos produtos, aproximando o gaming de lógicas já observadas noutras plataformas digitais.

Monetização, pressão de preços e competição por atenção
Apesar das oportunidades, o relatório alerta para um ambiente competitivo mais exigente. A pressão do custo de vida torna os consumidores mais sensíveis ao preço e mais propensos a adiar compras ou a procurar descontos. Neste cenário, a monetização deixa de depender apenas da venda inicial e passa a assentar em estratégias mais sofisticadas, como subscrições em múltiplos níveis, publicidade integrada e gestão do ciclo de vida dos conteúdos.
A indústria dos videojogos enfrenta, assim, um paradoxo comum a muitos setores digitais: mais conteúdos, mais concorrência e expectativas mais elevadas por parte dos utilizadores. O sucesso dependerá da capacidade de combinar tecnologia, modelos de negócio e gestão de comunidades, num equilíbrio delicado entre escala e engagement.
No horizonte até 2030, o gaming deverá tornar-se ainda mais intergeracional, omnipresente e desmaterializado. Para lá dos videojogos, as dinâmicas observadas neste setor oferecem pistas relevantes sobre o futuro das plataformas digitais, onde a convergência tecnológica e a economia da atenção serão determinantes para quem ambiciona crescer de forma sustentável.







