A pressão sobre as redes de telecomunicações está a acelerar. A generalização da inteligência artificial, a expansão da computação em cloud e o crescimento contínuo do streaming estão a empurrar a infraestrutura digital global para limites físicos e energéticos cada vez mais evidentes. A partir de 2026, operadores, hyperscalers e grandes consumidores empresariais enfrentam um dilema estrutural: como aumentar capacidade sem multiplicar custos, consumo energético e complexidade operacional.
É neste contexto que surgem os primeiros testes em ambiente real de Fibra Multi-Core, uma tecnologia que promete ampliar significativamente a capacidade das redes existentes sem recorrer à instalação massiva de novos cabos. A recente experiência conduzida pela Colt Technology Services em Londres ilustra um movimento mais amplo da indústria: preparar a próxima geração de redes antes de o atual modelo se tornar um estrangulamento económico.
A infraestrutura por detrás da economia da IA
Durante décadas, a fibra monomodo sustentou o crescimento da Internet, dos data centers e das redes empresariais. No entanto, o aumento exponencial do tráfego associado a modelos de IA generativa, pipelines de dados em tempo real e arquiteturas cloud distribuídas está a expor um problema central: expandir capacidade já não é apenas uma questão técnica, mas também financeira e ambiental.
A Fibra Multi-Core responde a este desafio ao permitir a transmissão paralela de dados através de vários núcleos numa única fibra. Na prática, trata-se de multiplicar a largura de banda sem duplicar infraestrutura física. Para operadores e grandes organizações, isto traduz-se numa equação estratégica mais favorável: maior capacidade, menor ocupação de condutas e menor consumo energético por bit transportado.
No ensaio realizado na rede metropolitana de Londres, a Colt validou esta abordagem em distâncias urbanas reais, atingindo velocidades de 800 Gbps e demonstrando compatibilidade com serviços empresariais já existentes. Mais do que um feito técnico isolado, o teste sinaliza uma possível transição gradual das redes óticas para um modelo mais eficiente e escalável.

Sustentabilidade e custo: o novo critério das redes
A discussão sobre redes deixou de ser neutra do ponto de vista ambiental. À medida que o tráfego de IA cresce, cresce também a pegada energética das infraestruturas digitais. Expandir redes apenas adicionando cabos, equipamentos e consumo elétrico tornou-se um modelo difícil de sustentar, sobretudo em mercados urbanos densos e regulados.
Ao expandir a capacidade da infraestrutura já instalada, a Fibra Multi-Core surge como uma resposta alinhada com os objetivos de eficiência energética e de redução de emissões. Este fator ganha particular relevância para empresas sujeitas a metas ESG, operadores com redes maduras e cidades onde o espaço físico para novas condutas é limitado ou dispendioso.
Segundo Buddy Bayer, Chief Operating Officer da Colt Technology Services, “à medida que a procura por capacidade de rede aumenta, os clientes precisam de mais largura de banda sem comprometer a segurança, o desempenho ou a sustentabilidade”. A afirmação reflete uma mudança de prioridades: já não basta escalar, é necessário fazê-lo com impacto controlado.

Um ecossistema a preparar a transição
O teste contou com a colaboração de parceiros tecnológicos como Nokia, Ciena e Sterlite Technologies Limited, revelando que a transição para novas arquiteturas óticas exige um ecossistema integrado de fibra, equipamentos e software.
Esta coordenação é um sinal de maturidade do setor. Ao contrário de inovações confinadas ao laboratório, a Fibra Multi-Core começa a ser testada em condições operacionais, com métricas de fiabilidade, latência e interoperabilidade semelhantes às exigidas pelos clientes empresariais e institucionais.

O que muda para as empresas
Para as organizações que dependem intensivamente de dados estas evoluções não são meramente técnicas. A capacidade e a resiliência das redes tornam-se um fator competitivo direto, influenciando custos operacionais, tempo de resposta e capacidade de inovação.
A médio prazo, tecnologias como a Fibra Multi-Core poderão determinar quais os operadores e mercados mais bem posicionados para absorver a próxima vaga de crescimento digital. Mais do que “mais velocidade”, está em causa a capacidade de sustentar modelos de negócio baseados em IA, automação e dados em escala.

Uma transição silenciosa, mas estrutural
Tal como aconteceu noutras fases da história da Internet, a próxima grande transformação das redes está a ocorrer longe do olhar do consumidor final. No entanto, os seus efeitos serão sentidos em toda a economia digital. A aposta em tecnologias que prolongam a vida útil da infraestrutura existente pode revelar-se decisiva num período em que crescer deixou de significar simplesmente construir mais.
Se a IA é o motor visível da próxima década, a fibra e a forma como é reinventada, continuará a ser o sistema circulatório invisível que a torna possível.







