A utilização de Inteligência Artificial em Portugal está a crescer de forma acelerada, mas esse avanço não se traduz, para já, em ganhos relevantes de produtividade. Esta é a leitura estrutural que emerge dos dados mais recentes divulgados pela Boston Consulting Group, e que ganha especial pertinência no início de 2026, quando muitas organizações avaliam prioridades e investimentos para o novo ciclo.
Segundo o inquérito nacional que acompanha o estudo internacional da BCG, cerca de dois terços dos portugueses já recorrem a ferramentas de IA pelo menos uma vez por mês. Entre os mais jovens, a adoção é quase generalizada. No entanto, o impacto no trabalho permanece limitado: apenas uma minoria significativa afirma poupar várias horas semanais, enquanto a maioria sente ganhos marginais ou inexistentes.
Adoção não é transformação
É nesta discrepância que se concentra o principal alerta deixado por Pedro Pereira, managing director e senior partner da BCG em Lisboa. Para o responsável, a aceleração do uso da IA não garante, por si só, transformação organizacional nem criação de valor mensurável. O problema já não está no acesso à tecnologia, mas na capacidade das empresas a integrarem de forma consistente nos seus processos diários.
A leitura é clara: muitas organizações estão numa fase de experimentação dispersa, marcada por curiosidade e iniciativas individuais, mas sem enquadramento estratégico. O resultado é uma sensação de avanço tecnológico que não se reflete em eficiência, qualidade ou reorganização do trabalho.
Formação como bloqueio estrutural
O dado mais revelador do estudo não é a taxa de utilização, mas o facto de 61% dos inquiridos considerar imprescindível receber formação específica para conseguir usar a IA de forma regular no contexto profissional. Apenas uma minoria refere ter tido acesso a formação estruturada, o que ajuda a explicar porque razão o impacto percebido continua reduzido.
Na leitura da BCG, sem investimento em competências práticas, as ferramentas de IA tendem a ser usadas de forma superficial, episódica ou redundante, limitando o seu potencial. Este défice formativo torna-se, assim, um bloqueio estrutural à produtividade, mais do que uma limitação tecnológica.
Liderança e prioridades em 2026
O estudo aponta ainda para um fator menos tangível, mas decisivo: o papel da liderança. Quando a adoção da IA não é acompanhada por orientação clara, definição de prioridades e critérios de uso, a tecnologia fragmenta-se em múltiplas iniciativas isoladas, com risco acrescido de ineficiência e de problemas de segurança.
Neste sentido, o debate que se abre para 2026 é menos sobre novas ferramentas e mais sobre governação interna da tecnologia. A questão central deixa de ser quem já usa IA e passa a ser quem consegue transformar uso em impacto real.
A popularização da Inteligência Artificial em Portugal é, hoje, um dado adquirido. A sua capacidade de alterar o trabalho, a produtividade e a competitividade das empresas continua, porém, em aberto. É nesse desfasamento que se joga a próxima fase da adoção tecnológica.