A logística portuguesa perante 2026: tecnologia, talento e um setor em tensão

O futuro da logística em Portugal passa por tecnologia, talento e organização do trabalho. Uma análise prospetiva ao setor com base nos dados mais recentes.

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O setor da logística e dos transportes entra em 2026 confrontado com uma combinação exigente de fatores estruturais: digitalização acelerada, pressão geopolítica, escassez persistente de talento e transformação profunda do trabalho operacional. Mais do que uma mudança conjuntural, trata-se de uma transição de fundo que coloca em causa o modelo tradicional de organização do setor e a sua capacidade de se manter competitivo.

Uma parte significativa deste diagnóstico emerge do estudo Desafios de Talento em Logística e Transportes, desenvolvido pelo ManpowerGroup em parceria com a APLOG e apresentado no 27.º Congresso da APLOG, realizado em outubro de 2025. Embora os dados não constituam novidade imediata, a sua leitura agregada permite antecipar tendências críticas para o futuro próximo do setor em Portugal.

Um setor cada vez mais estratégico — e mais exposto

A logística deixou de ser apenas uma função de suporte. A volatilidade das cadeias de abastecimento, o crescimento do comércio eletrónico, a pressão dos clientes por rapidez e fiabilidade e o impacto direto de eventos geopolíticos tornaram o setor estrutural para a economia. Não é por acaso que a digitalização, a automação e a gestão do talento surgem como prioridades quase unânimes entre os empregadores.

Segundo os dados apresentados, a transformação digital é encarada como decisiva por uma larga maioria das empresas, acompanhada pela procura de eficiências operacionais e pela necessidade de maior agilidade e flexibilidade. Esta combinação revela um setor permanentemente sob pressão para fazer mais, mais depressa e com menos margem para erro.

No entanto, este reforço do papel estratégico da logística tem um custo: maior exposição a riscos externos e uma dependência crescente de competências que o setor tem dificuldade em atrair e reter.

Foto de Freepik

A IA chega ao trabalho operacional

Um dos sinais mais claros de mudança estrutural é o impacto esperado da inteligência artificial e das novas tecnologias no emprego. A larga maioria dos empregadores antecipa que a IA não destruirá postos de trabalho, mas transformará profundamente os perfis profissionais, exigindo novas competências em áreas como data analytics, business intelligence, automação e cibersegurança.

Esta evolução é particularmente relevante porque afeta funções tradicionalmente operacionais. A logística surge, assim, como um dos primeiros setores a viver uma hibridização real entre trabalho físico, dados e sistemas inteligentes. Armazéns, transporte e planeamento passam a depender cada vez mais de infraestruturas digitais robustas e de capacidade analítica.

O desafio, contudo, não está apenas na adoção tecnológica. Está na velocidade a que as pessoas conseguem acompanhar essa transformação.

Foto de Linde Material Handling

Escassez de talento: o problema estrutural que persiste

Apesar do investimento em tecnologia, a escassez de talento continua a ser o principal bloqueio ao desenvolvimento do setor. Portugal surge entre os países com maior dificuldade em atrair talento qualificado, e o setor da logística e transportes é um dos que mais agravamento registou face ao ano anterior .

As causas são conhecidas e persistentes. As condições de trabalho continuam a ser o fator mais referido, seguidas da necessidade de mobilidade geográfica e da imagem pouco atrativa do setor. A estas juntam-se lacunas de formação especializada e falta de experiência, num contexto em que as exigências técnicas e digitais aumentam rapidamente.

Este quadro revela uma tensão central: o setor acelera na adoção tecnológica, mas não consegue alinhar essa modernização com uma proposta de valor suficientemente atrativa para as pessoas que dela dependem.

Foto de Mercadona

Crescimento do emprego, mas com que modelo?

Um dado particularmente revelador é a intenção de crescimento do emprego. Mais de metade das empresas do setor planeia aumentar as suas equipas, o que aponta para uma criação líquida de emprego significativa. No entanto, esta ambição convive com dificuldades reais de recrutamento e com uma forte competição por perfis técnicos e intermédios.

As estratégias mais referidas passam pelo aumento salarial, pela aposta em upskilling e reskilling e por maior recurso à automação. São respostas racionais, mas que levantam uma questão de fundo: estarão estas medidas a transformar estruturalmente o trabalho ou apenas a mitigar sintomas?

Existe o risco de a automação ser utilizada sobretudo como resposta à escassez de pessoas, e não como instrumento de valorização do trabalho. Quando isso acontece, a tecnologia resolve problemas de curto prazo, mas não melhora a atratividade nem a sustentabilidade do setor a médio prazo.

Centro logístico (foto de Lidl)

Um teste decisivo para a próxima década

A leitura prospetiva dos dados apresentados no Congresso da APLOG sugere que a logística portuguesa está perante um teste decisivo. A tecnologia está disponível, o investimento está em curso e a procura de serviços continuará a crescer. O fator crítico será a capacidade de alinhar inovação tecnológica com uma estratégia coerente de pessoas, carreiras e organização do trabalho.

O futuro da logística em Portugal não dependerá apenas de algoritmos, sensores ou plataformas digitais. Dependerá da forma como o setor responde a um desafio mais profundo: tornar o trabalho logístico compatível com as expectativas de uma economia cada vez mais digital, exigente e humana.

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