O acordo entre a União Europeia e o Mercosul abre uma nova etapa no comércio transatlântico, mas o seu verdadeiro impacto será decidido fora dos parlamentos: nos conselhos de administração, nas cadeias de abastecimento e nas estratégias de investimento das empresas. Para além do debate político, o tratado cria um novo mapa de oportunidades e de exigências, para quem opera entre a Europa e a América do Sul.
Segundo o relatório “Entre a abertura e a competitividade: perspetivas comerciais do Acordo UE–Mercosul”, elaborado pela LLYC, o acordo abrange um mercado de cerca de 780 milhões de pessoas, representando aproximadamente 25% do PIB mundial, criando uma das maiores áreas económicas integradas do planeta. Hoje, o comércio de bens entre os dois blocos já ultrapassa os 110 mil milhões de euros por ano, mas o acordo deverá acelerar de forma significativa esta dinâmica.

Uma liberalização sem precedentes
O núcleo económico do acordo assenta na eliminação ou redução de mais de 90% das tarifas bilaterais. Para as empresas europeias, isso traduz-se numa poupança potencial de até quatro mil milhões de euros por ano em direitos aduaneiros. Sectores como o automóvel, maquinaria, produtos químicos e farmacêuticos estão entre os mais beneficiados, ganhando acesso preferencial a um mercado que até agora permanecia protegido por barreiras tarifárias elevadas.
Do lado do Mercosul, o acesso privilegiado da sua agroindústria, recursos minerais e cadeias ligadas à transição energética ao mercado europeu reduz uma desvantagem competitiva histórica face a países que já dispõem de acordos com a UE. O efeito líquido esperado é um aumento significativo do comércio birregional, com projeções que apontam para um crescimento próximo de 40% a médio prazo.
Investimento: a variável estratégica
Mais do que as exportações, o verdadeiro motor de transformação poderá ser o investimento direto. A União Europeia já é o principal investidor estrangeiro no Mercosul, com um stock acumulado próximo de 390 mil milhões de euros. O acordo cria um quadro mais previsível em matéria de propriedade intelectual, compras públicas, regras aduaneiras e investimento, reduzindo riscos jurídicos e regulatórios.
Segundo a LLYC, em alguns países do bloco, os investimentos europeus poderão mais do que duplicar numa década, com crescimentos projetados até 177%, sobretudo em infraestruturas, energia, serviços digitais e indústria. Para empresas europeias ‑ incluindo portuguesas ‑, isto abre uma janela de reposicionamento estratégico em mercados em transformação.

Compras públicas e serviços: o novo campo de batalha
Um dos capítulos mais relevantes do acordo diz respeito às compras governamentais. Na União Europeia, este mercado equivale a cerca de 14% do PIB, mais de 1,9 biliões de euros por ano, com peso elevado em energia, transportes, tecnologia e saúde. O Mercosul, por seu lado, enfrenta uma enorme agenda de investimento em infraestruturas, estimada em mais de 3% do PIB anual.
O acesso não discriminatório a concursos públicos nos países do Mercosul pode tornar-se um dos maiores vetores de crescimento para empresas europeias, desde que consigam navegar os requisitos técnicos, jurídicos e reputacionais que esses mercados impõem.
O preço da oportunidade: compliance e adaptação
O acordo não é uma liberalização simples. Para as empresas do Mercosul, o maior desafio será cumprir os exigentes padrões europeus em matéria de ambiente, rastreabilidade, direitos dos trabalhadores e segurança sanitária. Isso exigirá investimentos em tecnologia, auditorias, sistemas de dados e certificação.
Para as empresas europeias, o desafio é outro: operar em mercados com fiscalidade subnacional complexa, volatilidade cambial, sistemas administrativos fragmentados e regras de origem rigorosas. O acesso preferencial só será aproveitado por quem dominar estas camadas técnicas.

Uma agenda empresarial, não apenas política
O relatório da LLYC é claro numa mensagem central:
“O sucesso do acordo não será definido apenas nos Parlamentos, mas na resposta estratégica dos agentes económicos para converter esta abertura em investimento e inovação.”
Para as empresas europeias e portuguesas, o acordo UE–Mercosul não é apenas uma redução de tarifas. É um convite ‑ exigente ‑ à reconfiguração das cadeias de valor, à internacionalização produtiva e à integração em mercados altamente regulados e competitivos.
Num mundo cada vez mais fragmentado, quem conseguir transformar esta abertura comercial em capacidade operacional, reputação e presença local estará em posição de ganhar. Quem não o fizer, poderá descobrir que a liberalização também cria novos perdedores.







