O data streaming nas empresas deixou de ser um tema restrito às equipas técnicas e passou a expor decisões de liderança, prioridades de investimento e capacidade de governação organizacional. À medida que os dados em tempo real se tornam centrais para a experiência do cliente, para a eficiência operacional e para os projetos de inteligência artificial, cresce também a pressão sobre os gestores para garantirem coerência, controlo e retorno estratégico.
Um estudo promovido pela Conduktor, com base num inquérito a 200 executivos sénior de IT e dados em grandes organizações dos Estados Unidos e da Europa, mostra que o investimento em data streaming já gera valor mensurável, mas revela igualmente fragilidades estruturais que não podem ser resolvidas apenas com mais tecnologia.
Do ponto de vista da gestão, os benefícios mais valorizados são claros: melhoria da experiência do cliente através de serviços mais rápidos e personalizados, decisões mais ágeis baseadas em dados em tempo real e maior capacidade de deteção de fraude e riscos de segurança. Estes resultados indicam que o data streaming passou a influenciar diretamente indicadores de desempenho, satisfação do cliente e resiliência operacional.
No entanto, os mesmos dados expõem um paradoxo relevante para a liderança. A maioria das organizações admite dificuldades sérias de integração entre múltiplas plataformas de data streaming, enquanto quase a totalidade dos executivos manifesta receios quanto à perda de dados críticos em processos de consolidação tecnológica. Este cenário sugere que muitas decisões foram tomadas de forma incremental, sem uma visão de arquitetura alinhada com a estratégia do negócio.
Esta fragmentação não é apenas um problema técnico. Ela traduz-se em maior complexidade operacional, custos difíceis de controlar e perda de visibilidade sobre fluxos de informação essenciais para a gestão. O data streaming tornou-se uma infraestrutura transversal ‑ uma espécie de sistema circulatório digital ‑ que, quando mal governado, compromete a capacidade de coordenação e de resposta das organizações.
Segundo Nicolas Orban, CEO da Conduktor, a proliferação descontrolada de plataformas obriga muitas empresas a repensar as suas decisões passadas e a avançar para processos de consolidação, não apenas para reduzir custos, mas para recuperar governação, desempenho e segurança. A mensagem subjacente é que o crescimento tecnológico sem disciplina cria riscos estratégicos.
A ligação entre data streaming e inteligência artificial reforça ainda mais esta exigência de liderança. Muitos projetos de IA dependem de dados operacionais em tempo real para gerar valor, mas continuam a falhar na fase de escala devido à ausência de regras claras de qualidade do dado, observabilidade e responsabilidade organizacional. Nestes casos, o bloqueio não está nos modelos, mas nas decisões de governação.
Este contexto ajuda a explicar porque o debate sobre data streaming está a migrar do domínio técnico para a esfera da gestão de topo. A questão já não é se a tecnologia funciona, mas se a organização está preparada para a gerir de forma integrada, com papéis definidos, métricas claras e alinhamento entre equipas técnicas e liderança executiva.
Num mercado em rápida expansão — impulsionado pela procura de dados em tempo real, IA e automação — o desafio passa a ser menos tecnológico e mais organizacional. A criação de valor sustentado depende da capacidade das lideranças para simplificar arquiteturas, resistir à acumulação acrítica de ferramentas e tratar o dado como um ativo estratégico, e não apenas como um subproduto da inovação.
Em última análise, o data streaming nas empresas tornou-se um teste silencioso à maturidade da liderança. As organizações que conseguirem alinhar tecnologia, governação e estratégia estarão melhor posicionadas para transformar dados em vantagem competitiva. As restantes arriscam-se a ficar presas a sistemas complexos, caros e difíceis de controlar, mesmo tendo investido nas tecnologias certas.