Empregabilidade inclusiva e gestão de talento: um desafio estrutural para as empresas

A empregabilidade inclusiva nas empresas é um desafio estrutural da gestão de talento, com impacto na competitividade e na maturidade organizacional.

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A empregabilidade inclusiva tem vindo a ganhar visibilidade no discurso público e empresarial, mas continua longe de ser uma realidade plenamente integrada nas práticas de gestão de talento. Em Portugal, a distância entre intenção e execução permanece significativa, sobretudo no que respeita à integração profissional de pessoas com deficiência. É neste contexto que surge a campanha Todos Incluídos, promovida pela Nova SBE através do Inclusive Community Forum, que procura mobilizar empresas e candidatos em torno de uma plataforma dedicada ao recrutamento inclusivo.

Mais do que uma iniciativa de sensibilização, o projeto expõe um problema estrutural do mercado de trabalho português: a dificuldade persistente em transformar compromissos públicos com a diversidade em processos de recrutamento e integração efetivos.

Um fosso que persiste no mercado de trabalho

Os dados disponíveis confirmam que o desafio está longe de ser residual. De acordo com o Relatório Pessoas com Deficiência em Portugal – Indicadores de Direitos Humanos 2024, do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, a taxa de emprego das pessoas com deficiência situa-se nos 65%, face a 79,7% na população sem deficiência, traduzindo uma diferença de quase 15 pontos percentuais. No desemprego, a assimetria mantém-se: 14,7% entre pessoas com deficiência, contra 9,1% na população em geral.

Estes números revelam que, apesar de avanços pontuais, a inclusão no mercado de trabalho continua a depender de iniciativas específicas e não de práticas generalizadas. Para as empresas, isto significa que a empregabilidade inclusiva não é apenas um tema social, mas um indicador da maturidade dos seus modelos de gestão de pessoas.

Deficiência e Inclusão no Mercado de Trabalho
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Da intenção à prática empresarial

A campanha Todos Incluídos assenta numa plataforma digital que agrega parceiros de recrutamento inclusivo, entidades especializadas e organizações sociais, funcionando como intermediário entre empresas e candidatos. O objetivo é reduzir uma das barreiras mais frequentes apontadas pelos empregadores: a falta de conhecimento interno e de recursos especializados para conduzir processos de recrutamento verdadeiramente inclusivos.

Mafalda Correia de Sá, project manager do Inclusive Community Forum, sublinha que a iniciativa pretende “mostrar que o recrutamento inclusivo pode ser, e em muitos casos já é, uma realidade”, acrescentando que o projeto procura aproximar talento e mercado através de uma rede estruturada. A afirmação é relevante porque desloca o debate da esfera da sensibilização para a da operacionalização, um ponto crítico para os decisores empresariais.

Inclusão como tema de gestão e competitividade

Num mercado de trabalho marcado por escassez de talento e envelhecimento demográfico, a exclusão sistemática de determinados grupos representa também uma perda económica. A empregabilidade inclusiva começa a ser encarada, em vários setores, como parte de uma estratégia mais ampla de diversificação de competências, inovação organizacional e sustentabilidade social.

Para os gestores, o desafio reside menos na adesão ao princípio da inclusão e mais na adaptação de processos internos — desde o recrutamento até à integração e progressão profissional. A experiência do Inclusive Community Forum, que acompanha atualmente dezenas de empresas em compromissos formais de inclusão, sugere que a continuidade e o acompanhamento são fatores determinantes para evitar que estas iniciativas se limitem a ações pontuais ou simbólicas.

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Um caminho que exige consistência

A principal leitura que emerge deste enquadramento é clara: a empregabilidade inclusiva não se resolve com campanhas isoladas, mas com políticas empresariais consistentes e mensuráveis. Projetos como o Todos Incluídos têm valor enquanto catalisadores e exemplos práticos, mas o seu impacto dependerá da capacidade das empresas em integrar a inclusão na sua estratégia de gestão de talento, e não apenas na comunicação institucional.

Para o decisor empresarial, a questão central deixa de ser se a inclusão é desejável, passando a ser como incorporá-la de forma sustentável nos processos organizacionais, transformando um desafio social num fator de maturidade e competitividade empresarial.