Europa tem capital, mas falha na coordenação do investimento

Investidores alertam que a coordenação do investimento europeu, e não a falta de capital, é o principal desafio à competitividade e à escala das empresas.

Foto de Davos Angels

A Europa não enfrenta um problema de escassez de capital para financiar inovação e crescimento empresarial. O verdadeiro obstáculo está na incapacidade de coordenar esse capital à escala continental, agir com rapidez e transformar potencial em execução. Esta é a principal conclusão retirada de um encontro restrito de business angels europeus, promovido pela Davos Angels à margem do World Economic Forum, em Davos.

Segundo os investidores presentes, o debate sobre a falta de financiamento deixou de ser central. A discussão deslocou-se para um plano mais operacional e estratégico: como alinhar capital, acelerar decisões e permitir que as empresas europeias escalem dentro do próprio continente, em vez de procurarem precocemente mercados externos.

Fragmentação como falha estrutural do ecossistema europeu

Durante as discussões, emergiu um consenso claro de que a fragmentação do investimento entre países continua a ser o principal fator que impede a Europa de reter e escalar as suas empresas mais promissoras. De acordo com as respostas recolhidas junto dos business angels presentes, 47% identificaram o capital descoordenado entre fronteiras como a principal razão pela qual muitas startups europeias perdem tração demasiado cedo.

Andreas Grape, cofundador da Davos Angels, sublinhou que a ideia de uma “EU Inc.”, funcionando como um mercado único e escalável, é vista de forma positiva pelos investidores, embora com prudência. “O sentimento em relação à Europa como um mercado integrado é amplamente favorável, mas existe consciência de que persiste um défice relevante entre ambição e execução”, afirmou.

Esta fragmentação tem consequências que ultrapassam o plano financeiro. Mais de 40% dos participantes alertaram para o risco crescente de dependência tecnológica da Europa face a plataformas e infraestruturas não europeias, caso a dispersão do capital e a lentidão na tomada de decisão se mantenham.

Foto de Marketlan em Freepik

Coordenação e velocidade como vantagens competitivas

O encontro apontou também para aquilo que os próprios investidores consideram ser a alavanca mais eficaz para inverter esta tendência. Para 53% dos business angels envolvidos, a coordenação do capital entre países é o fator com maior potencial de impacto, superando a complexidade regulatória ou a criação de novos instrumentos financeiros.

A velocidade surge como variável crítica neste processo. A maioria dos participantes defendeu que agir mais rapidamente, mesmo sem alinhamento perfeito, é preferível a adiar decisões em nome de consensos difíceis de alcançar num ecossistema fragmentado. A necessidade de mecanismos mais estruturados de sindicação transfronteiriça foi igualmente destacada, com 41% a apontar esta lacuna como um entrave concreto à escala europeia.

Esta leitura reforça a ideia de que o desafio europeu não está tanto na definição de estratégias, mas na sua operacionalização, num contexto em que outros blocos económicos conseguem alinhar capital, mercado e execução com maior agilidade.

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Imagem de Leewarrior por Pixabay

O papel dos ecossistemas nacionais na competitividade europeia

A dimensão institucional esteve também presente na discussão. Jan Larsson, CEO da Business Sweden, destacou o modelo sueco como exemplo de articulação eficaz entre capital, empresas e ecossistemas de inovação. “A colaboração e o alinhamento entre investidores, empresas e estruturas de apoio são determinantes para transformar inovação em crescimento escalável”, afirmou, sublinhando o papel das agências nacionais na ligação entre oportunidades locais e capital internacional.

Esta perspetiva sugere que a competitividade europeia não dependerá da criação de mais capital, mas da capacidade de integrar esforços nacionais numa lógica verdadeiramente continental, reduzindo barreiras informais e acelerando a tomada de decisão.

Num contexto global cada vez mais competitivo, a mensagem deixada pelos investidores em Davos é inequívoca: a Europa já dispõe dos recursos financeiros necessários. O desafio está, agora, em coordená-los, agir mais depressa e garantir que os seus vencedores conseguem crescer e permanecer no espaço europeu.

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