Atração de talento exige nova proposta de valor, com salário, progressão e equilíbrio vida-trabalho no centro da retenção.
O Randstad Employer Brand Research 2026 mostra que a atração de talento deixou de depender apenas da reputação das empresas. Salário, equilíbrio vida-trabalho e progressão tornaram-se fatores inegociáveis para os profissionais portugueses.
A atração de talento já não se resolve apenas com uma marca reconhecida, uma promessa de estabilidade ou um discurso genérico sobre cultura empresarial. O Randstad Employer Brand Research 2026 mostra que
os profissionais portugueses estão a avaliar os empregadores a partir de critérios cada vez mais concretos: remuneração, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, progressão na carreira, ambiente de trabalho e segurança no emprego.
A leitura principal é clara. As empresas continuam a ser valorizadas por fatores como segurança, reputação e ambiente de trabalho, mas falham precisamente onde os trabalhadores colocam maior exigência: salário, benefícios e oportunidades de crescimento. Esta diferença entre promessa e experiência quotidiana tornou-se um dos maiores desafios da gestão de pessoas.
O salário continua a ser o ponto de partida
Durante vários anos, o debate sobre talento foi deslocando o centro da discussão para propósito, flexibilidade, cultura, autonomia ou bem-estar. Todos esses fatores contam. Mas o estudo da Randstad confirma que nenhum deles substitui a base económica da relação laboral.
Salário e benefícios competitivos são o fator mais valorizado pelos profissionais portugueses na escolha de um empregador. Não se trata apenas de remuneração mensal. Trata-se também de segurança financeira, previsibilidade e reconhecimento objetivo do valor entregue pelo trabalhador.
Este ponto é particularmente relevante num contexto de inflação acumulada, pressão sobre o custo de vida e maior exigência na gestão do rendimento das famílias. Para muitos profissionais, o salário deixou de ser apenas uma condição contratual e passou a ser um indicador de respeito, justiça interna e capacidade da empresa para competir pelo talento.
O problema está no desfasamento. O relatório mostra que salário e benefícios surgem no topo do perfil de empregador ideal, mas aparecem no último lugar quando os profissionais avaliam os seus atuais empregadores. Esta lacuna é demasiado relevante para ser tratada como uma questão apenas de recursos humanos. É um problema de competitividade empresarial.
A experiência de trabalho pesa mais na retenção
A remuneração é o ponto de partida, mas não esgota a proposta de valor. O equilíbrio entre vida profissional e pessoal surge praticamente ao mesmo nível do salário na avaliação dos trabalhadores. Isto mostra que a retenção já não depende apenas de quanto se paga, mas também de como se trabalha.
O estudo identifica fatores muito concretos para esse equilíbrio: bom ambiente de trabalho, tempo de descanso e recuperação, modelos de trabalho flexíveis e carga de trabalho gerível. A mensagem é importante para as empresas. O bem-estar não se constrói apenas com iniciativas pontuais, eventos internos ou benefícios acessórios. Constrói-se na organização diária do trabalho.
Há aqui uma diferença essencial. Muitas empresas continuam a comunicar cultura, propósito ou flexibilidade como atributos de marca. Mas os profissionais avaliam esses atributos a partir da sua experiência real: horários, pressão, autonomia, qualidade da liderança, clareza das expectativas e possibilidade de conciliar trabalho com vida pessoal.
Quando essa experiência falha, a retenção fica fragilizada. Segundo o relatório, a remuneração demasiado baixa é o principal motivo para deixar o empregador atual, seguida da falta de oportunidades de crescimento e dos desafios no equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Progressão tornou-se condição de permanência
A progressão na carreira surge como o terceiro grande fator na escolha de um empregador. Isto confirma uma mudança importante: os profissionais não procuram apenas estabilidade, procuram trajetória.
A segurança no emprego continua relevante, sobretudo para gerações mais velhas, mas a ideia de segurança está a mudar. Para os profissionais mais jovens, segurança também significa aprendizagem, desenvolvimento, empregabilidade e comunicação transparente. Ou seja, já não basta garantir um posto de trabalho. É necessário mostrar que esse posto permite crescer.
Este ponto é especialmente importante para empresas que competem por talento qualificado. A ausência de percursos claros, feedback consistente, formação útil e mobilidade interna pode tornar-se tão penalizadora como uma proposta salarial pouco competitiva.
A retenção começa, por isso, muito antes de uma contraproposta. Começa na forma como a empresa desenha funções, reconhece desempenho, prepara lideranças intermédias e cria condições para que as pessoas vejam futuro dentro da organização.
Diferenças geracionais e de género exigem respostas mais finas
O relatório também mostra que não existe uma proposta de valor única para todos os profissionais. Há prioridades comuns, mas a intensidade varia por geração, género e tipo de talento.
Os profissionais mais velhos valorizam mais salário, benefícios, estabilidade, reforma e segurança financeira. Os mais jovens tendem a associar segurança a aprendizagem, empregabilidade e comunicação transparente. As mulheres atribuem maior importância ao equilíbrio vida-trabalho, à igualdade de oportunidades e a um ambiente de trabalho agradável. Já os homens valorizam relativamente mais a tecnologia de ponta.
Estas diferenças obrigam as empresas a abandonar abordagens indiferenciadas. Uma proposta de valor eficaz deve combinar uma base comum forte, assente em remuneração justa, progressão e qualidade da experiência de trabalho, com respostas ajustadas a diferentes fases de vida, funções e expectativas profissionais.
A flexibilidade é um bom exemplo. O trabalho remoto continua longe de ser universal, até porque muitas funções não o permitem. Mas a discussão sobre flexibilidade não se limita ao local de trabalho. Inclui horários, autonomia, gestão de carga, previsibilidade e capacidade de acomodar necessidades pessoais sem comprometer objetivos empresariais.
A marca empregadora tem de ser comprovada no quotidiano
A grande conclusão do Randstad Employer Brand Research 2026 é que a marca empregadora deixou de ser apenas uma questão de reputação externa. Passou a depender da coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que os profissionais experimentam.
Reputação, segurança e ambiente continuam a contar. Mas já não chegam. Se a remuneração fica aquém, se a progressão é pouco clara e se o equilíbrio vida-trabalho depende apenas da resistência individual de cada trabalhador, a proposta de valor perde credibilidade.
Para os empregadores, o desafio é estratégico. Atração de talento exige nova proposta de valor porque o mercado de trabalho está menos disposto a aceitar promessas abstratas. Os profissionais querem condições concretas, percursos visíveis e uma experiência de trabalho compatível com as suas expectativas económicas, profissionais e pessoais.
As empresas que compreenderem esta mudança terão vantagem. Não apenas porque conseguirão recrutar melhor, mas porque serão capazes de reter conhecimento, reduzir rotatividade e construir equipas mais comprometidas. Num mercado em que o talento continua a ser fator crítico de competitividade, a diferença estará cada vez menos no discurso e cada vez mais na capacidade de cumprir o que se promete.