Startups deep tech em saúde enfrentam em Portugal barreiras ligadas ao risco, regulação, financiamento e falta de escala.
O Meet Up LISPOLIS “Startups Deep Tech em Saúde” evidenciou as dificuldades de transformar conhecimento científico em empresas escaláveis. Apesar da qualidade técnica dos projetos portugueses, o setor continua condicionado por ciclos longos de desenvolvimento, validação regulatória, aversão ao risco e falta de infraestruturas para testar soluções em fases mais avançadas.
A criação de startups deep tech na área da saúde continua a enfrentar em Portugal um conjunto de obstáculos que vão além da qualidade da investigação científica. A passagem do laboratório para o mercado exige tempo, capital, validação regulatória, capacidade industrial e uma articulação nem sempre fácil entre investigadores, empreendedores e investidores.
O tema esteve em debate no Meet Up LISPOLIS “Startups Deep Tech em Saúde”, realizado no dia 28 de maio, na LISPOLIS. A sessão reuniu empresas, empreendedores, investigadores e agentes do ecossistema de inovação numa mesa-redonda moderada por Pedro Rebordão, da LISPOLIS, com a participação de Frederico Ferreira, do Instituto Superior Técnico, Carlos Fontes, da NZYTech, e Vítor Crespo, da Health Tech Lisboa.
Um dos pontos centrais do debate foi a tensão entre a lógica científica e a lógica empresarial. Carlos Fontes chamou a atenção para a dificuldade de transformar conhecimento acumulado, muitas vezes resultante do trabalho de várias equipas e investigadores, num projeto empresarial com liderança clara, orientação para o mercado e capacidade de execução. Na sua análise, uma boa ideia científica não basta para criar uma empresa. É necessário definir o produto, perceber quem o vai comprar e construir um modelo económico sustentável.
Esta diferença de prioridades torna-se mais evidente em áreas como a saúde e a biotecnologia, onde a investigação tem ciclos longos e nem sempre coincide com a urgência dos investidores ou com a pressão por resultados comerciais. Frederico Ferreira enquadrou esta tensão a partir da própria natureza da investigação científica, frequentemente orientada por vocação, autonomia académica e tempos de maturação mais prolongados. Para o investigador, uma startup deep tech em saúde não pode ser avaliada segundo os mesmos prazos de outros projetos tecnológicos, porque exige mais investigação, mais validação e maior tolerância ao tempo necessário para chegar ao mercado.
A questão do risco foi outro dos temas dominantes. Vítor Crespo sublinhou a qualidade técnica dos projetos e dos profissionais portugueses, mas identificou a falta de predisposição para assumir risco como uma limitação do ecossistema. Frederico Ferreira apontou no mesmo sentido, ao defender que a aversão ao risco não depende apenas dos investigadores ou empreendedores, mas também do contexto em que estes projetos se desenvolvem. No debate, foi referido que parte do capital de risco nacional tende a olhar com maior abertura para startups estrangeiras do que para projetos portugueses.
Na health tech, o problema é agravado pelo tempo necessário até que uma solução possa gerar retorno. Vítor Crespo assinalou que uma startup desta área pode precisar de seis a oito anos até criar receitas relevantes, sendo uma parte significativa desse período absorvida por processos de validação e aprovação regulatória. A regulação surge, assim, como uma etapa indispensável à segurança e credibilidade das soluções, mas também como um travão à velocidade de desenvolvimento das empresas.
A falta de infraestruturas de teste em Portugal foi apontada como outro bloqueio relevante. Carlos Fontes alertou para a insuficiência dos laboratórios universitários quando os projetos precisam de avançar para fases de teste mais próximas da escala semi-industrial. Sem meios próprios para suportar esse investimento, muitas startups de biotecnologia acabam por procurar essas condições no estrangeiro, com o risco de não regressarem ao país.
O debate deixou claro que Portugal dispõe de conhecimento científico e talento técnico na área da saúde, mas continua a ter fragilidades na transformação dessa capacidade em empresas deep tech competitivas. Sem financiamento paciente, maior apetência pelo risco, infraestruturas de validação e uma articulação mais eficaz entre ciência, negócio e regulação, parte da inovação gerada no país poderá continuar a encontrar melhores condições de crescimento fora de Portugal.