Escassez de talento técnico na IA ameaça crescimento económico e agrava desigualdades no mercado de trabalho.
A inteligência artificial (IA) tem sido apresentada como uma força capaz de substituir funções e redefinir o emprego. No entanto, os dados disponíveis apontam noutra direção. Em vez de eliminar trabalho, a IA está a aumentar a procura por competências técnicas especializadas, num ritmo que os mercados não conseguem acompanhar.
De acordo com o estudo
“Escassez de talento: o papel da IA na promoção da equidade”, da Randstad, a procura por funções técnicas cresce atualmente três vezes mais rápido do que por funções administrativas. Esta evolução resulta da necessidade de criar, implementar e sustentar sistemas cada vez mais exigentes.
A base material da economia digital
A expansão da IA exige mais do que software. Depende de infraestruturas físicas complexas, como centros de dados, redes elétricas e sistemas de arrefecimento.
Segundo a análise da Randstad, desde o final de 2022, a procura por técnicos de robótica aumentou 107%. As vagas para engenheiros de AVAC, fundamentais para o funcionamento de centros de dados, cresceram 67%. Estes dados mostram que a economia digital assenta numa base industrial que requer competências técnicas específicas e contínuas.
Sander van ‘t Noordende, CEO global da Randstad, sublinha esta realidade ao afirmar que “o verdadeiro obstáculo ao crescimento global é a escassez de talento especializado nos ofícios técnicos”, referindo-se aos profissionais responsáveis pela construção e manutenção das infraestruturas que suportam a IA.
Escassez torna-se fator económico
A dificuldade em encontrar profissionais qualificados já se reflete nos indicadores do mercado de trabalho. O tempo médio de contratação de perfis técnicos atingiu os 56 dias, superando o dos profissionais de serviços.
Este sinal é reforçado por dados do Tech Talent Outlook da Experis, que apontam para uma forte intenção de contratação no setor tecnológico em Portugal, com projeções de crescimento líquido do emprego superiores a 50%. A inteligência artificial surge como a competência mais difícil de recrutar.
Ao mesmo tempo, empresas de diferentes setores aceleram a adoção de IA. Algumas conseguem reduzir tempos de resposta ou desenvolvimento de forma significativa. Ainda assim, a disponibilidade de talento não acompanha este ritmo, criando um desajuste entre capacidade tecnológica e execução.
Desigualdade limita resposta ao problema
A escassez de talento técnico não é apenas uma questão de volume. A distribuição das competências revela desequilíbrios relevantes.
Segundo a Randstad, 71% dos homens afirmam ter competências em IA, enquanto apenas 29% das mulheres indicam o mesmo. As diferenças também são visíveis entre gerações, com níveis mais baixos de utilização e formação entre profissionais mais velhos.
Raul Neto, CEO da Randstad Portugal, afirma que “a solução para a escassez de talento passa obrigatoriamente por democratizar o acesso à formação tecnológica”, acrescentando que a inclusão de mulheres e profissionais seniores constitui “um imperativo de sobrevivência e crescimento económico para o tecido empresarial nacional”.
Portugal entre pressão e oportunidade
Portugal enfrenta este desafio num contexto marcado pelo envelhecimento da população ativa e por limitações estruturais na formação técnica. Ao mesmo tempo, a adoção de tecnologias digitais continua a crescer, o que aumenta a pressão sobre o mercado de trabalho.
A integração da IA em setores tradicionais alarga a procura por competências especializadas. Indústrias que antes não competiam diretamente por talento técnico passam a disputar os mesmos perfis, intensificando a escassez.
Sem uma estratégia consistente de qualificação e requalificação, o risco é a economia avançar na adoção tecnológica sem capacidade para a sustentar.
Ofícios técnicos ganham centralidade
A transformação em curso está a alterar a forma como os ofícios técnicos são valorizados. Funções ligadas à operação, manutenção e suporte de infraestruturas digitais tornam-se determinantes para o funcionamento da economia.
Estas profissões exigem conhecimento especializado, capacidade de adaptação e aprendizagem contínua. O seu papel deixa de ser periférico e passa a estar no centro da cadeia de valor da IA.
Formação como fator de competitividade
A resposta à escassez de talento depende da capacidade de formar e requalificar trabalhadores de forma eficaz. Os dados disponíveis indicam que os modelos atuais não estão a alcançar todos os grupos de forma equilibrada.
A participação reduzida de mulheres e profissionais mais velhos em programas de formação tecnológica evidencia a necessidade de abordagens mais direcionadas. Ao mesmo tempo, a retenção de talento assume um papel crítico. Indicadores recentes mostram níveis relevantes de insatisfação e insegurança financeira entre trabalhadores, o que pode afetar a estabilidade das equipas.
Neste contexto, a formação deve ser encarada como um instrumento estratégico para garantir capacidade produtiva e crescimento sustentável.
Crescimento condicionado pela capacidade humana
A inteligência artificial está a acelerar a transformação económica, mas essa evolução depende da disponibilidade de pessoas com competências adequadas.
O desenvolvimento tecnológico, por si só, não garante crescimento. A capacidade de implementar, operar e manter sistemas complexos continua a depender do fator humano. A escassez de talento técnico surge assim como um dos principais limites à expansão da IA e à sua tradução em valor económico.