O Engineers Hub nasce com uma ambição clara: transformar projetos de engenharia em empresas escaláveis. Para Gil Azevedo, diretor executivo da Unicorn Factory Lisboa, este novo polo não replica o modelo dos restantes hubs da rede. Introduz uma variável diferente: a ligação direta a uma ordem profissional, e procura resolver uma lacuna estrutural no ecossistema nacional: a dificuldade em converter conhecimento técnico em crescimento empresarial.
“O polo de engenharia tem um papel um pouco diferente dos outros”, explica. Enquanto os restantes hubs são organizados por verticais como inteligência artificial, sustentabilidade, saúde ou videojogos, este nasce da parceria com a Ordem dos Engenheiros – Região Sul. “Permite ter este duplo ângulo: por um lado, o apoio técnico que a Ordem dos Engenheiros consegue dar e, em segundo lugar, um apoio de negócio e de inovação que nós, Unicorn Factory, podemos dar.”
Se tivesse de o classificar como vertical, Gil Azevedo escolheria a expressão inglesa: “Deep Tech”. “É esta tecnologia… com maior know-how, com maior investigação e desenvolvimento.”
A lacuna entre técnica e negócio
A criação do Engineers Hub assenta numa constatação. Segundo Gil Azevedo, existe uma fragilidade estrutural na transição entre engenharia e mercado. “A engenharia está muito virada para o ensino, para a componente técnica, e a componente de desenvolvimento de negócio e de crescimento de inovação acaba por estar num segundo plano.”
O resultado é conhecido: “Temos muitos engenheiros que têm ideias e têm visões com bastante valor, mas que depois têm dificuldade em traduzir essas ideias num negócio.”
Há ainda uma segunda lacuna, do lado das grandes empresas. “Temos também um conjunto de empresas, como a Cimpor ou a Quadrante, que têm dificuldade de acesso a estas comunidades de inovação.” O hub surge, assim, como mecanismo de agregação. “Permite agregar e aproximar todos os diferentes intervenientes, desde investidores a empresas e startups.”
A diferença face a outros polos da Unicorn Factory está na natureza do parceiro institucional. “Aqui é, de facto, uma ordem profissional que tem conhecimento técnico e pode apoiar estes projetos.” Essa base técnica poderá gerar sinergias entre áreas distintas. “Trazer a inteligência artificial ao âmbito da engenharia, trazer a engenharia ao âmbito da sustentabilidade e permitir criar muito mais oportunidades com esta rede.”
Dez startups e uma dupla mentoria
O Engineers Hub arranca com dez startups, todas com uma forte componente de engenharia. O critério é claro: “São startups ou empresas que têm um componente de engenharia especialmente forte e querem beneficiar desta dupla mentoria. A mentoria técnica com a mentoria de desenvolvimento de negócio.”
Algumas já integravam programas da Unicorn Factory. Outras candidataram-se especificamente ao novo espaço. “Levantaram o braço e disseram ‘queremos ir para lá, porque vemos valor em ter esta mentoria dupla’.”
Para integrar o espaço físico, pelo menos um dos fundadores tem de ser membro da Ordem dos Engenheiros. A comunidade alargada, porém, pode incluir pessoas que não cumpram esse requisito formal.
Em termos setoriais, não existe uma priorização rígida. O denominador comum é a intensidade de investigação e desenvolvimento. “Procuramos startups que possuam um componente de investigação e desenvolvimento na área de engenharia forte.” Naturalmente, algumas áreas tendem a destacar-se. “O setor da construção, a área da energia, a área da defesa e da segurança.”
A dimensão tecnológica é condição necessária, mas não suficiente. “É de negócios, é de criar e desenvolver um negócio. Mas com um componente tecnológico. Se não houver investigação tecnológica, acaba fazendo menos sentido.”
Escala, internacionalização e indicadores de impacto
O modelo inclui a possibilidade de adesão virtual, permitindo integrar projetos fora de Lisboa ou mesmo fora de Portugal. “A nível internacional, sem dúvida, é uma forma de dar visibilidade a setores que estão em alta transformação e em alto crescimento e atrair talentos e startups internacionais.”
A nível interno, o argumento é outro: escala. “Portugal é um país pequeno e, portanto, se não formos capazes de colaborar e agregar esforços, vamos ficar sempre numa dimensão mais pequena.”
A avaliação do impacto será feita com base em quatro indicadores. “O primeiro é o canal de entrada, quantas startups e quantos membros estão a juntar-se a esta comunidade.” Seguem-se três métricas clássicas de crescimento: “levantamento de fundos”, “emprego gerado” e “número de parcerias e oportunidades.”
Para Gil Azevedo, o verdadeiro valor do hub está precisamente nessa interligação. “A grande vantagem do Hub é trazer as diferentes organizações, as diferentes startups, os diferentes investidores em conjunto e com isto criar novas oportunidades de negócio.”
Novos hubs no horizonte
O Engineers Hub é o sexto hub temático da Unicorn Factory Lisboa. A expansão continuará a depender de três fatores: parceiros empresariais, massa crítica de startups e relevância internacional do setor. “Há três ingredientes que olhamos quando montamos um hub: empresas que queiram juntar-se a nós; startups já nesta área; e que sejam áreas em transformação a nível internacional.”
A cibersegurança e defesa surge como exemplo de oportunidade estratégica. “É uma área que se torna relevante no contexto atual e que vai atrair muito investimento.” Gil Azevedo recorda o caso da Tekever como referência nacional nesse domínio.
Outros setores, como o alimentar, poderão igualmente justificar novas comunidades de inovação. “Há vários exemplos de áreas que ainda são oportunidades, agora é preciso que possamos juntar esforços para desenvolver a inovação de uma forma colaborativa.”
O Engineers Hub nasce, assim, como um laboratório de convergência entre técnica e mercado. A aposta não é apenas na engenharia enquanto competência, mas na engenharia enquanto motor empresarial, capaz de transformar investigação em escala e conhecimento em crescimento económico.