Empreendedor.com EditorRelatório da Eurostat mostra que habitação na Europa enfrenta forte pressão de preços, com Portugal entre os países com maiores subidas.
A habitação na Europa voltou ao centro do debate económico, num contexto de pressão sobre a oferta e subida acentuada dos preços em vários mercados. Segundo o relatório “Housing in Europe – 2025 edition”, publicado pela Eurostat em novembro de 2025, Portugal surge entre os países com maior crescimento anual dos preços da habitação, reforçando sinais de tensão estrutural no mercado.
Entre o terceiro trimestre de 2024 e o terceiro trimestre de 2025, os preços das casas aumentaram 21,1% na Hungria, 17,7% em Portugal e 15,4% na Bulgária. No mesmo período, a média da União Europeia registou uma subida de 5,5%. A divergência sugere que alguns mercados enfrentam pressões significativamente superiores à média comunitária.

O relatório indica que cerca de 68% da população da União Europeia vive em casa própria. Países da Europa Central e de Leste lideram em taxas de propriedade, com Roménia (94%), Eslováquia (93%), Hungria (92%) e Croácia (91%) no topo da tabela.
Este padrão, contudo, não elimina riscos de acessibilidade. Mercados historicamente dominados pela propriedade estão agora entre os que registam maiores subidas de preços, o que pode dificultar a entrada de novas gerações no mercado imobiliário.
Portugal, com forte cultura de propriedade e procura sustentada, enfrenta uma equação semelhante: preços em aceleração num contexto de rendimentos que não acompanham o mesmo ritmo.

A análise europeia mostra também diferenças relevantes na intensidade de construção. Países como Malta apresentam níveis elevados de licenciamento residencial per capita, enquanto outros registam ritmos mais baixos de aprovação de novas habitações.
A Comissão Europeia e o Parlamento Europeu têm vindo a sinalizar a necessidade de acelerar processos de licenciamento e reforçar a construção para mitigar a crise habitacional. A discussão passou de conjuntural a estrutural: a escassez de oferta é hoje entendida como fator persistente de pressão sobre preços e rendas.

O relatório da Eurostat evidencia igualmente diferenças na tipologia de habitação. Em países como Irlanda, Países Baixos e Bélgica predominam moradias, refletindo padrões de urbanização mais dispersos. Já Espanha apresenta uma maior concentração em apartamentos, associada a densidade urbana e modelos de planeamento mais compactos.
Estas diferenças estruturais influenciam o comportamento dos preços. Mercados com maior limitação de solo urbano tendem a apresentar valores mais elevados por metro quadrado, independentemente do preço médio por imóvel.

A habitação na Europa deixou de ser apenas uma questão social. Tornou-se variável económica crítica. A mobilidade do talento, a atratividade de centros urbanos e a sustentabilidade das empresas dependem cada vez mais da acessibilidade residencial.
No caso português, a subida de 17,7% num ano coloca o país entre os mercados mais pressionados da União Europeia. A trajetória futura dependerá da capacidade de aumentar a oferta, acelerar licenciamento e equilibrar procura externa com necessidades internas.
Num cenário de crescimento moderado e margens empresariais contidas, a evolução do mercado habitacional poderá influenciar não apenas o setor imobiliário, mas também a competitividade estrutural da economia.