Empreendedor.com EditorIA nas equipas comerciais pode mitigar a crise de produtividade, mas maturidade estratégica continua a ser decisiva.
A IA nas equipas comerciais está a ganhar centralidade num momento em que a produtividade empresarial em Portugal mostra sinais de fragilidade. Em 2025, apesar do aumento dos contratos sem termo, a produtividade recuou, segundo dados analisados pelo Empreendedor. Ao mesmo tempo, a adoção de inteligência artificial acelerou de forma expressiva nas empresas portuguesas. A questão deixa de ser tecnológica e passa a ser estratégica: poderá a IA resolver um problema estrutural de eficiência?
Um dos dados mais reveladores do recente State of Sales Report, divulgado pela Salesforce, indica que os profissionais de vendas em Portugal dedicam apenas 43% do seu tempo efetivamente a vender. O restante é absorvido por tarefas administrativas, introdução manual de dados e atividades de suporte.
Este número ganha relevância quando cruzado com o contexto nacional. O aumento da estabilidade contratual não foi acompanhado por um crescimento proporcional da eficiência agregada. A pressão para gerar mais receita com estruturas semelhantes intensifica-se.
Neste cenário, os agentes de IA surgem como promessa de libertação de tempo. Segundo o estudo, as equipas comerciais portuguesas estimam que estes sistemas possam reduzir em 31% o tempo de pesquisa de potenciais clientes e em 35% o tempo de redação de e-mails. A automatização não é apresentada como substituição, mas como amplificação da capacidade comercial.

A aceleração da adoção de IA é transversal. Num dos artigos recentes do Empreendedor, foi evidenciado que em 2024 a utilização de IA generativa nas empresas quadruplicou em apenas um ano. Em 2025, verificou-se um crescimento de 282% na adoção, ainda que a confiança continue a travar o ritmo.
Portugal ocupa atualmente a 20.ª posição europeia na adoção de inteligência artificial, um sinal de progresso, mas também de distância face às economias mais avançadas.
Contudo, como afirmou Eduardo Bicacro, Managing Director e Partner do escritório de Lisboa da BCG, em declarações ao Empreendedor sobre a criação de valor com IA, a principal falha das empresas não está na tecnologia, mas na ausência de integração estratégica. Implementar ferramentas sem rever processos ou indicadores pode significar apenas automatizar ineficiências.
O próprio estudo da Salesforce, agora divulgado, aponta nessa direção: 37% dos líderes comerciais que utilizam IA referem que sistemas desconectados estão a atrasar iniciativas. A maioria das equipas de alto desempenho prioriza a higienização de dados como condição essencial para extrair valor.

Noutra análise publicada pelo Empreendedor, Nuno Ferro, Brand Leader da Experis, descreveu o fenómeno como “confiança elevada, literacia baixa”. A adoção rápida não significa necessariamente compreensão profunda.
Se nas vendas os agentes prometem aumentar produtividade, a questão passa a ser: que tipo de supervisão existe? Que métricas estão a ser revistas? Que formação está a ser dada às equipas mais jovens, já pressionadas por menor tempo efetivo de venda e menor acesso a mentoria?
Acresce ainda o alerta feito pela psiquiatra Hannah Nearney, diretora médica da Flow Neuroscience no Reino Unido, citada pelo Empreendedor, sobre o risco de sobrecarga e crise de saúde mental num contexto de adoção acelerada de IA: “as pessoas não estão apenas a aprender uma nova ferramenta, estão a viver num estado de adaptação permanente”. A promessa de eficiência pode, paradoxalmente, intensificar expectativas de desempenho.

A transformação da função comercial pode estar a tornar-se o laboratório mais visível da integração de IA nas empresas portuguesas. A prospeção automática, a personalização de mensagens e a análise preditiva já não são futurismo, mas prática corrente em muitas organizações.
A dúvida estratégica mantém-se: a IA nas equipas comerciais está a criar verdadeira vantagem competitiva ou apenas a acompanhar uma tendência global inevitável?
Se a tecnologia libertar 30% do tempo operacional, o que farão as empresas com essa margem? Investirão em relacionamento, diferenciação e conhecimento de mercado? Ou transformarão o ganho de eficiência em mera compressão de custos?
Num contexto em que Portugal investe menos em IA do que a média europeia, apesar do otimismo dos executivos, a resposta a estas perguntas pode definir não apenas a evolução das equipas comerciais, mas a competitividade estrutural das empresas nacionais.