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IA redefine relevância no mercado de trabalho

Philipp Reisinger
Philipp Reisinger
Apr 9, 2026

IA redefine relevância no mercado de trabalho, deslocando o valor da execução para a decisão e uso estratégico da tecnologia.
A inteligência artificial está a deslocar o foco da execução para a capacidade de decisão e contexto, redefinindo o que torna um profissional relevante, escreve Philipp Reisinger.

O avanço da inteligência artificial trouxe de volta uma discussão recorrente no mercado de trabalho. Em ciclos anteriores de transformação tecnológica, a pergunta central centrava-se em quais empregos deixariam de existir. Hoje, essa leitura revela-se limitada. A IA não apenas automatiza tarefas, como altera a forma como o trabalho é estruturado e avaliado, deslocando o debate da substituição para uma questão mais objetiva: o que define um profissional relevante num contexto em que o acesso à tecnologia se torna praticamente universal.

Os dados ajudam a compreender esta mudança. Segundo a pesquisa Hopes and Fears 2025, da PwC, 71% dos profissionais brasileiros já utilizaram inteligência artificial no trabalho no último ano, com impacto direto na qualidade das entregas e na produtividade. Este movimento não é isolado. Em Portugal, a adoção também avança de forma consistente, impulsionada por políticas de digitalização e pelo crescimento do ecossistema tecnológico local, especialmente em hubs como Lisboa e Porto. Em ambos os mercados, a tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser infraestrutura.

  • A inteligência artificial nivela o acesso à execução, mas amplia a diferença na capacidade de decisão


Este ponto é central. Quando uma tecnologia se torna base do trabalho, o critério de diferenciação muda. Historicamente, o mercado valorizou a capacidade de execução, associada à consistência e ao domínio técnico. A IA reduz o custo dessa execução, permitindo que tarefas antes complexas sejam realizadas com maior rapidez e menor esforço. O resultado não é a eliminação do trabalho, mas a compressão do valor da execução isolada.

Com isso, a relevância desloca-se para outro nível. Passa a importar menos o quanto alguém produz e mais como orienta essa produção. A capacidade de interpretar o contexto, tomar decisões e utilizar a tecnologia de forma estratégica torna-se o principal diferencial. Este movimento cria uma divisão mais clara no mercado: profissionais que ampliam a sua atuação com o uso da IA e aqueles que permanecem no mesmo nível de execução, agora competindo com ferramentas mais eficientes.



Quando apenas a adoção não é suficiente

Esta diferença já se reflete nos indicadores. Projeções do Fórum Económico Mundial apontam para uma transformação significativa das funções até ao final da década, com a criação de novos papéis que exigem competências distintas das atuais. Ao mesmo tempo, empresas que integram inteligência artificial de forma mais estruturada apresentam ganhos consistentes de produtividade e eficiência. Em mercados como o português, onde existe maior integração com o ecossistema europeu e incentivo à inovação, esta transição tende a ocorrer de forma mais organizada. No Brasil, o avanço é mais acelerado, porém menos uniforme, o que amplia a necessidade de adaptação individual.

Para as empresas, isto significa que adotar IA não é suficiente. É necessário rever processos e desenvolver equipas capazes de operar num nível mais analítico e decisório. A tecnologia, por si só, não gera vantagem competitiva sustentável. O diferencial reside na forma como é aplicada dentro da organização.

Para os profissionais, a implicação é direta. A inteligência artificial nivela o acesso à execução, mas amplia a diferença na capacidade de utilização. Num cenário em que as ferramentas são as mesmas, a vantagem competitiva passa a estar na forma de pensar, interpretar e decidir. O uso da IA como suporte operacional é apenas o primeiro nível. O impacto real está na capacidade de a utilizar para aprofundar análises e melhorar decisões.



No final, a discussão sobre inteligência artificial no trabalho deixa de ser sobre substituição e passa a ser sobre posicionamento. A tecnologia não elimina, por si só, o profissional, mas redefine o que significa ser relevante. Em mercados com ritmos distintos, como Brasil e Portugal, esta transformação ocorre de formas diferentes, mas com o mesmo resultado: o espaço cresce para quem evolui com a tecnologia e diminui para quem permanece no mesmo nível de atuação.

A inteligência artificial não determina quem permanece, mas acelera a diferença entre quem se adapta e quem fica para trás. E, no cenário atual, essa diferença já começa a tornar-se decisiva.

Philipp Reisinger
Philipp Reisinger
Philipp Reisinger é Colunista na àrea de Competências e Futuro do Trabalho. fundador e CEO da FIND HR, especialista em Executive Search e Transformação Digital, com mais de 15 anos de experiência a ajudar empresas a atrair, desenvolver e reter líderes capazes de gerar impacto real na era digital. Criou soluções pioneiras em recrutamento executivo 2.0, combinando tecnologia, dados e inteligência humana para conectar executivos digitais a organizações em crescimento. Com formação em instituições como o MIT, University of La Verne e FIA-USP, atua também como investidor e mentor de empreendedores. A sua missão é apoiar líderes e empresas a escalarem equipas, abraçarem a mudança e construírem culturas de alto desempenho.
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