Coworking, comunidade e flexibilidade: Diogo Fabiana explica como o IDEA Spaces quer crescer fora de Lisboa e reforçar o foco nas pessoas.
Diogo Fabiana, CEO do IDEA Spaces, falou ao Empreendedor sobre o coworking como comunidade empresarial, a flexibilidade como resposta à incerteza e os planos de expansão para 2026, com o Porto no radar.O coworking começou por ser visto como uma alternativa ao escritório tradicional. Hoje, para
Diogo Fabiana, CEO do IDEA Spaces, o desafio é outro: transformar espaços de trabalho em comunidades capazes de criar relações, apoiar empresas e contribuir para a retenção de talento.
Em entrevista ao Empreendedor, o responsável explica que o
IDEA Spaces gere, no plano de negócio, metros quadrados. Mas é a camada de valor acrescentado que coloca sobre esses espaços que define a proposta da empresa. “Na realidade, nós, a nível de plano de negócios, estamos a gerir metros quadrados. Contudo, as layers que colocamos por cima de todos esses metros quadrados é aquilo que nos define e nos diferencia”, afirma.
Essa diferenciação assenta numa ideia central: promover relações pessoais, sociais e profissionais, com o bem-estar e a felicidade como base da experiência. Para Diogo Fabiana, o coworking já não pode ser reduzido a secretárias, salas de reunião ou contratos flexíveis. Tem de responder também às novas expectativas de empresas e profissionais, num mercado de trabalho marcado pela volatilidade, pelo trabalho híbrido e pela dificuldade em atrair e reter talento.
Mais do que networking
A palavra “networking” poderia parecer inevitável numa conversa sobre coworking. No IDEA Spaces, porém, Diogo Fabiana prefere afastar-se dessa lógica. “Nós há muito tempo que abolimos essa palavra do nosso glossário”, afirma, por considerar que o termo ficou associado a uma abordagem demasiado transacional, próxima do “speed dating” e da troca de cartões-de-visita.
A aposta, explica, está antes na criação de relações genuínas. Essas relações podem nascer em workshops, eventos, iniciativas de desporto, momentos de convívio ou encontros informais entre empresas. O objetivo é gerar pertença, conhecimento e oportunidades, sem transformar a comunidade numa simples agenda de contactos.
O IDEA Spaces procura alimentar essa dinâmica através de diferentes iniciativas internas. Entre elas estão as comunidades de padel, futebol e corrida, os eventos de conhecimento, as Community Hours e programas como o Get A Room, pensado para aproximar empresas com necessidades, competências ou oportunidades complementares.
Segundo Diogo Fabiana, estas interações podem traduzir-se em partilha de conhecimento, novas oportunidades comerciais ou mesmo crescimento financeiro para as empresas. O responsável dá o exemplo de empresas que procuram soluções de inteligência artificial e encontram, dentro da própria comunidade, outras empresas com capacidade para responder a essa necessidade.
A construção da comunidade não depende apenas de intuição. Diogo Fabiana refere que o IDEA Spaces realizou, em 2025, um
barómetro sobre felicidade no local de trabalho, identificando variáveis relevantes na escolha do próximo emprego ou espaço de trabalho, como localização, remuneração e experiência. Essa base, explica, foi usada para desenhar a experiência oferecida aos membros e para formar a equipa.
Também a criação da cerveja Clink, em parceria com a Musa, surge neste contexto. Para o CEO do IDEA Spaces, a iniciativa não é apenas uma acção de aniversário, mas um símbolo de pertença. A ideia nasceu das Community Hours, momentos em que os membros se juntam para conversar e brindar. “Queremos ser mais um motivo para as pessoas brindarem e brindarem com algo nosso”, afirma. E sublinha que “nosso” significa da comunidade, não apenas da marca.
Flexibilidade como resposta à incerteza
Para as empresas, a principal vantagem competitiva do coworking está na flexibilidade. Diogo Fabiana associa esta procura ao contexto de volatilidade dos mercados, instabilidade geopolítica e dificuldade em prever o crescimento a médio e longo prazo.
“Quanto mais flexibilidade contratual nós lhes damos, mais confortáveis essas empresas estão”, afirma. Essa flexibilidade, acrescenta, não serve apenas para crescer. Também permite reduzir ou ajustar a dimensão da operação quando o mercado muda ou quando a empresa atravessa uma fase menos favorável.
A comparação com o arrendamento tradicional é direta. Num escritório próprio, as empresas assumem custos, contratos, serviços, manutenção, receção, segurança e gestão operacional. No IDEA Spaces, diz Diogo Fabiana, a proposta é “chave na mão”, com serviços e dinâmicas incluídos na membership.
A comunidade é hoje heterogénea. Inclui pequenas, médias e grandes empresas, equipas em crescimento, multinacionais e organizações com presença prolongada nos espaços. Diogo Fabiana refere exemplos como TikTok, Betclic, Algo Marketing e Extia, além de empresas que começaram com uma secretária e hoje ocupam gabinetes para mais de dez pessoas.
O perfil dos membros também está a mudar. Embora existam nómadas digitais e expatriados, essa fatia ainda é reduzida. O foco principal continua a estar nas empresas. Ainda assim, a nova geração de profissionais e líderes está a alterar a forma como o espaço de trabalho é pensado.
Para Diogo Fabiana, o pós-Covid consolidou uma visão híbrida do trabalho. Já não faz sentido, defende, imaginar o local de trabalho apenas como um espaço fixo, usado de segunda a sexta-feira, das nove às seis. A experiência passou a contar. No IDEA Spaces, isso traduz-se em diferentes ambientes dentro do mesmo edifício, desde salas de reunião e zonas comuns até terraços, espaços de convívio e zonas de lazer.
O salário emocional do trabalho híbrido
O tema ganha particular força quando Diogo Fabiana liga o coworking ao combate à solidão profissional. A frase que mais ouve de quem chega à comunidade, diz, é simples: “Já estão fartas de estar sozinhas em casa.”
Para o CEO do IDEA Spaces, esta procura revela uma necessidade social que o teletrabalho nem sempre consegue satisfazer. As pessoas querem partilhar almoços, participar em happy hours, jogar pingue-pongue, assistir a eventos ou simplesmente estar acompanhadas enquanto trabalham.
É neste ponto que surge a ideia de “salário emocional”. Diogo Fabiana aceita a expressão e reforça que o IDEA Spaces trabalha sobretudo essa dimensão. “Aquilo que nós oferecemos às nossas empresas-membro é toda essa layer de empatia, essa layer emocional, que faz com que as empresas tenham uma relação completamente distinta com os seus colaboradores”, afirma.
O reconhecimento como Great Place to Work surge, neste contexto, como argumento de coerência. Para Diogo Fabiana, a distinção valida não apenas a cultura interna do IDEA Spaces, mas também os princípios que a empresa procura promover junto das organizações instaladas nos seus espaços.
A ambição, diz, não é “mudar o mundo”, mas ser uma referência e uma inspiração para alterar algumas variáveis do mercado de trabalho português. Entre elas, refere a inclusão, a igualdade salarial, o respeito e a valorização das pessoas.
Essa visão liga-se também ao bem-estar. O IDEA Spaces tem desenvolvido iniciativas como massagens, semanas dedicadas ao bem-estar, yoga, actividades desportivas e momentos de convívio. A intenção é reforçar a experiência dos colaboradores dentro das empresas-membro e contribuir para ambientes de trabalho mais saudáveis.
A comunidade também quer crescer fora de Lisboa
O IDEA Spaces conta atualmente com 31 mil metros quadrados, 4 mil membros e 400 empresas. Depois de consolidar a presença em Lisboa, a empresa prepara uma nova fase de crescimento.
Diogo Fabiana confirma que 2026 deverá marcar um plano de expansão “mais agressivo” do que o atual, embora acompanhado de prudência. A instabilidade política e económica obriga, diz, a estudar bem cada decisão.
A empresa pretende abrir mais uma localização fora de Lisboa e está a começar a procurar oportunidades no mercado do Porto. O plano pode seguir dois formatos: uma localização tradicional, com mais de 1.500 metros quadrados, ou uma tipologia de menor dimensão, adaptada a outros contextos urbanos.
Lisboa, considera Diogo Fabiana, ainda não está saturada, mas caminha para um nível elevado de maturidade. O crescimento do sector e a entrada de novos operadores, incluindo players internacionais, deverão provocar uma reestruturação do mercado. Por isso, defende, é necessário olhar para Portugal como um todo, com atenção ao Porto, Coimbra, Aveiro e Braga.
O FlexConnect surge como uma peça importante dessa estratégia. A modalidade foi pensada para estudantes, freelancers e empresas, mas tem uma ambição mais ampla: reduzir a dependência do espaço físico e criar uma comunidade em torno da app do IDEA Spaces.
No caso dos estudantes, a proposta inclui acesso a infraestrutura para estudar, desenvolver teses, receber mentoria e aproximar-se de empresas que estão a recrutar ou a crescer dentro da comunidade. Para Diogo Fabiana, essa proximidade pode facilitar a entrada no mercado de trabalho.
A dimensão digital do FlexConnect também abre outra possibilidade: levar a comunidade para além de Portugal. O objetivo é criar uma rede que possa expandir-se para outros países, sem depender exclusivamente da abertura de novos espaços físicos.
No final da conversa, Diogo Fabiana regressa à componente humana. A inteligência artificial, reconhece, será uma ferramenta importante para otimizar processos, aumentar eficiência e melhorar a eficácia das organizações. Mas a mudança mais necessária no mercado de trabalho português, defende, está noutro plano.
“Temos que trabalhar muito mais a componente humana através da empatia e da inteligência emocional”, afirma. Para o CEO do IDEA Spaces, as empresas investem cada vez mais em bem-estar e work-life balance, mas ainda investem pouco em compreender as emoções que os profissionais levam para o local de trabalho.
É essa, no fundo, a ambição que atravessa toda a visão de Diogo Fabiana: fazer do coworking uma resposta empresarial, mas também humana, aos desafios do trabalho contemporâneo.