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Incubadoras precisam de gestão mais profissional

José Mendes
José Mendes
Empreendedorismo
12 Jun 2026

Vítor Ferreira defende que as incubadoras em Portugal precisam de mais profissionalização, sustentabilidade e impacto regional.
Vítor Ferreira, CEO da Startup Leiria, defende que Portugal construiu uma rede relevante de incubadoras, mas precisa agora de reforçar a profissionalização, a sustentabilidade financeira e a medição de impacto destas estruturas.

Portugal conta atualmente com 146 incubadoras acreditadas, um número que, para Vítor Ferreira, CEO da Startup Leiria, mostra a evolução positiva da rede nacional de apoio ao empreendedorismo. No entanto, o responsável considera que o país está a entrar numa nova fase, em que já não basta criar espaços, dinamizar ecossistemas locais ou dar uma primeira resposta aos empreendedores.
Na sua leitura, o desafio está agora na capacidade de as incubadoras responderem a startups mais exigentes e a territórios que precisam de instrumentos mais eficazes de desenvolvimento económico. “Precisamos de saber se temos incubadoras suficientemente fortes e profissionalizadas para responder aos desafios atuais das startups e das regiões”, afirma.

Durante vários anos, o foco da incubação esteve na criação de infraestruturas, na ocupação física, na animação do ecossistema e no apoio inicial aos empreendedores. Hoje, porém, as startups procuram respostas mais sofisticadas. Precisam de acesso a mercado, ligação a investidores, apoio na definição de modelos de negócio, acompanhamento estratégico, contactos com a indústria, internacionalização e capacidade de medir resultados.

Para Vítor Ferreira, esta mudança exige equipas preparadas e modelos de gestão mais profissionais. Muitas incubadoras nasceram de dinâmicas locais, autárquicas, associativas ou académicas, com equipas pequenas e forte dependência do conhecimento acumulado por uma ou duas pessoas. Há dedicação, reconhece, mas nem sempre existem processos, indicadores, sistemas de acompanhamento ou modelos operacionais suficientemente estruturados.



A sustentabilidade como ponto crítico

A sustentabilidade financeira é outro dos desafios centrais. Vítor Ferreira alerta para a dependência excessiva de financiamento público ou de projetos cofinanciados, uma realidade que limita a capacidade de planeamento e de investimento das incubadoras.

“Uma incubadora que vive apenas de ciclos de financiamento dificilmente consegue planear a médio prazo, reter talento na sua equipa ou investir em serviços mais especializados para as startups”, sublinha.

É neste contexto que surge o programa nacional de capacitação para gestores de incubadoras, promovido pela Startup Portugal e conduzido pela Startup Leiria. A iniciativa procura responder a lacunas concretas nas áreas de operações, gestão financeira, dealflow, desenho de programas, sustentabilidade e inclusão.

Para o CEO da Startup Leiria, a principal lacuna é a profissionalização da gestão. Muitas estruturas têm bons espaços, relações institucionais relevantes e presença nos seus territórios, mas nem sempre dispõem de uma estratégia clara, de um modelo financeiro sustentável ou de metodologias consistentes para acompanhar startups.

A formação procura, por isso, trabalhar dimensões práticas. Na gestão financeira, o objetivo é ajudar as incubadoras a compreender melhor custos, fontes de receita, riscos e possibilidades de diversificação. Nas operações, pretende-se reforçar processos, rotinas, indicadores e ferramentas de gestão. Já no dealflow, a prioridade é capacitar as incubadoras para captar, selecionar, qualificar e acompanhar empreendedores com potencial.

Vítor Ferreira destaca ainda a passagem de uma lógica de eventos para uma lógica de programas. Para o responsável, uma incubadora madura não deve limitar-se a organizar atividades avulsas. Deve estruturar programas de incubação, aceleração ou capacitação com objetivos claros, critérios de entrada e saída, mentoria organizada e mecanismos de avaliação.

A inclusão surge também como dimensão estratégica. Na sua perspetiva, uma incubadora moderna deve questionar que tipo de empreendedorismo promove, que públicos alcança e que impacto pretende gerar. “Se uma incubadora apenas apoia quem já tem capital social, rede e capacidade técnica, então está a reproduzir desigualdades”, afirma.



A inovação fora dos grandes centros

O papel das incubadoras fora dos grandes centros urbanos ocupa um lugar central na análise de Vítor Ferreira. Para o CEO da Startup Leiria, estas estruturas não são apenas espaços de apoio a startups. São instrumentos de desenvolvimento regional.

Em muitos territórios, explica, as incubadoras são uma das poucas estruturas capazes de ligar conhecimento, empresas, autarquias, instituições de ensino superior, jovens qualificados e oportunidades de mercado. Esse papel é particularmente relevante num país onde muitos jovens formados em universidades e politécnicos acabam por procurar oportunidades em Lisboa, no Porto ou no estrangeiro.

Uma incubadora regional bem gerida pode ajudar a alterar parte dessa dinâmica. Não resolve todos os problemas de retenção de talento, mas cria um ponto de ancoragem. Dá aos empreendedores um lugar onde podem testar ideias, encontrar mentores, conhecer outros fundadores, contactar empresas, aceder a programas e falar com investidores.
“O empreendedorismo é difícil em qualquer lugar, mas é muito mais difícil quando se está sozinho”, afirma Vítor Ferreira.

No caso de Leiria, o responsável defende que o desenvolvimento económico regional não se faz copiando Lisboa ou Porto. Faz-se a partir dos ativos próprios do território. A região tem uma base industrial forte, uma cultura empresarial marcada pela capacidade de fazer, proximidade entre cadeias de valor e tradição no desenvolvimento de produto.

Essa realidade permite trabalhar a inovação de forma mais ligada à indústria, à tecnologia aplicada, aos materiais, à engenharia, ao design, à produção e à resolução de problemas concretos. Para Vítor Ferreira, é neste ponto que as incubadoras regionais podem ganhar relevância: quando deixam de ser apenas espaços de acolhimento e passam a funcionar como plataformas de transformação económica.
“A inovação não pode ser uma realidade apenas metropolitana”, defende.



Planos estratégicos para gerar impacto

Uma das dimensões centrais do programa é o desenvolvimento de um plano estratégico por cada participante. O objetivo, segundo Vítor Ferreira, é garantir que a capacitação não se limita a sessões de formação, mas se traduz em decisões, prioridades e mudanças concretas dentro das organizações.

A expectativa é que cada incubadora saia do programa com uma leitura mais clara da sua situação atual e com um caminho definido para os próximos anos. Isso implica identificar o seu posicionamento, perceber que tipo de startups pretende atrair, que serviços deve prestar, que parcerias precisa de reforçar, que indicadores deve acompanhar e que modelo de sustentabilidade financeira pode desenvolver.

Na prática, o CEO da Startup Leiria espera ver incubadoras com processos mais estruturados, maior capacidade de acompanhamento das startups, programas mais bem desenhados e relações mais ativas com investidores, empresas, instituições de ensino superior e entidades públicas.

Outra mudança esperada é a passagem de uma lógica reativa para uma lógica estratégica. Muitas incubadoras respondem ao que surge: um projeto que aparece, uma candidatura que abre ou um evento que é possível organizar. Essa dimensão continuará a existir, mas, para Vítor Ferreira, não pode ser a única base de funcionamento.

Uma incubadora madura deve saber onde quer estar, que papel pretende desempenhar no território e que tipo de valor quer criar. Se o patamar médio da rede nacional subir, o impacto poderá sentir-se em várias frentes: startups mais bem acompanhadas, investidores com acesso a projetos mais preparados, empresas com melhores parceiros de inovação e regiões com instrumentos mais eficazes de desenvolvimento económico.

José Mendes
José Mendes
Jornalista e formador. Sou um entusiasta das relações humanas e interesso-me particularmente por questões de liderança e problemáticas organizacionais.
Eu não falhei. Apenas encontrei 10.000 maneiras que não funcionam
Thomas Edison
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