João Cerqueira, Area Vice President da ServiceNow para a América Latina, defende que a inteligência artificial pode melhorar a tomada de decisão executiva, desde que não substitua o julgamento humano. Em entrevista de Bruno Perin, para o Empreendedor, João Cerqueira explica como líderes C-level podem usar a IA para ampliar a análise estratégica sem perder a intuição que distingue as decisões realmente transformadoras.
Com formação em Engenharia Eletrónica, Marketing de Serviços e Administração de Empresas,
João Cerqueira construiu uma carreira em liderança de pré-vendas e soluções empresariais, com passagem pela Hewlett-Packard antes de integrar a
ServiceNow. Atualmente lidera iniciativas de transformação digital em diversos sectores da economia latino-americana, incluindo Finanças, Telecomunicações, Manufatura e Retalho.
Inteligência artificial na tomada de decisão: apoio ou substituição do líder?
Para João Cerqueira, qualquer decisão estratégica deve assentar num princípio simples: equilíbrio entre três dimensões fundamentais.
“É a mistura dos três. Tem que estar alinhado à estratégia e essa estratégia tem que se transformar em objetivos muito bem definidos, metas bem alinhadas a isso. O cliente precisa estar nesse viés para a decisão. Os seres humanos num sentido mais amplo.”
Na prática, explica, muitas organizações falham porque analisam apenas uma destas dimensões. Algumas focam-se exclusivamente nos indicadores financeiros; outras respondem apenas à pressão do mercado ou da concorrência. A decisão estratégica consistente, defende, surge quando estratégia, cliente e pessoas são avaliados em simultâneo.
Este filtro permite evitar decisões taticamente corretas, mas estrategicamente frágeis. Ao garantir alinhamento entre objetivos empresariais, impacto no cliente e capacidade humana de execução, a liderança cria condições para resultados sustentáveis.
Experiência e consulta: decidir sem cair no isolamento
Num ambiente empresarial marcado pela velocidade das decisões, João Cerqueira destaca outro princípio que considera essencial: recorrer a múltiplas perspetivas.
“Os quilómetros percorridos, não é a idade, é a experiência no assunto. Para evitar ruídos consulto muitas pessoas. Mesmo que seja urgente, em toda a minha carreira nunca vi algo em que não pudesse conversar com alguém para ter um olhar mais amplo.”
Para o executivo, a ideia de que um líder deve decidir sozinho continua demasiado presente nas organizações. Na realidade, explica, a consulta a diferentes pontos de vista permite reduzir pontos cegos e melhorar a qualidade das decisões, mesmo em contextos de pressão temporal.
“Toda a verdade tem vários pontos de vista.”
A experiência acumulada ajuda a interpretar rapidamente esses contributos e a filtrar informação relevante. O resultado não é uma decisão mais lenta, mas uma decisão mais sólida.
IA como amplificador da capacidade analítica
É neste contexto que a Inteligência Artificial entra no processo decisório. Para João Cerqueira, a tecnologia deve ser utilizada sobretudo como ferramenta de análise e validação.
“É na parte analítica. Uso a IA para expandir a minha inteligência.”
Recorda um caso concreto em que precisava de justificar uma mudança estratégica junto de um cliente. A decisão exigia demonstrar retorno financeiro.
“Um cliente precisava de uma mudança e eu precisava de um ROI. Com a IA pude varrer e encontrar mais clientes que viveram situações similares, para validar e montar um business plan… e entrou em roadmap.”
Ao analisar rapidamente experiências comparáveis e identificar padrões de mercado, a IA acelera processos que antes exigiriam semanas de pesquisa.
Contudo, Cerqueira deixa um alerta importante.
“Qual é o grande risco? A IA não sabe dizer não, se não souber fazer as perguntas.”
Em outras palavras, a tecnologia amplifica a capacidade analítica, mas não substitui o julgamento humano. A qualidade das respostas depende da qualidade das perguntas formuladas — uma competência que os executivos terão de desenvolver cada vez mais.
Adaptabilidade como nova competência executiva
A integração da IA na gestão estratégica está também a acelerar os ciclos de decisão empresarial. Planos que antes se desenhavam para uma década são hoje revistos em horizontes muito mais curtos.
“Adaptabilidade. A estratégia de dez anos passou para três, e agora de um ano e até meses.”
Segundo João Cerqueira, esta compressão dos ciclos estratégicos exige uma mudança profunda na postura dos líderes.
“Tudo é muito rápido. O executivo que não é super adaptável rapidamente fica para trás. Não podemos ser os donos das verdades.”
Mais do que dominar ferramentas tecnológicas, os executivos precisam de cultivar flexibilidade intelectual e abertura a novas perspetivas. Num contexto em que dados, mercados e tecnologias evoluem rapidamente, a capacidade de rever decisões torna-se tão importante quanto a capacidade de as tomar.
Decidir melhor, não apenas mais depressa
A transformação impulsionada pela Inteligência Artificial não se resume à adoção de novas ferramentas. O verdadeiro desafio está em integrá-las nos processos de decisão sem perder a dimensão estratégica humana.
Empresas tecnológicas globais como Microsoft, Google ou Amazon demonstram que a vantagem competitiva surge quando dados, tecnologia e visão estratégica se reforçam mutuamente.
Nesse contexto, João Cerqueira deixa uma reflexão final dirigida aos líderes empresariais: a questão central não é se a IA deve ser usada, mas como.
A pergunta decisiva, sugere, é simples, e cada executivo terá de lhe responder no seu próprio processo de liderança: está a utilizar a Inteligência Artificial apenas para decidir mais depressa, ou para decidir melhor?