Cerca de 26,5% dos agregados familiares em Portugal apresentam poupança negativa, segundo um estudo da Nova SBE, Fundação “la Caixa” e BPI, que mostra também que até 80% das despesas das famílias são destinadas a bens essenciais.
Mais de um quarto das famílias em Portugal gasta mais do que recebe, segundo o relatório
“Portugal, Balanço Social: Perspetivas – Quanto sobra ao final do mês?”, desenvolvido por investigadores da Nova SBE no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE.
De acordo com o estudo, 26,5% dos agregados familiares apresentam poupança negativa, ou seja, as despesas totais ultrapassam os rendimentos disponíveis. A situação é particularmente crítica entre os agregados com menores rendimentos: cerca de 60% das famílias mais pobres gasta mais do que recebe, enquanto entre as famílias com rendimentos mais elevados essa proporção desce para 8%.
Os dados mostram ainda que entre 60% e 80% das despesas das famílias em Portugal correspondem a bens considerados essenciais, como habitação, alimentação, transportes ou energia. Este peso reduz significativamente a margem financeira disponível para poupança ou para enfrentar despesas inesperadas.
O relatório baseia-se no Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023 do Instituto Nacional de Estatística (INE), complementado por um inquérito adicional realizado em 2024. A análise procura medir o chamado rendimento discricionário, isto é, o montante que sobra aos agregados familiares depois de pagas as despesas essenciais.
Segundo os investigadores Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, Miguel Fonseca e Pedro Lopes, o rendimento discricionário médio em Portugal situava-se, em 2022, entre 10.402 euros e 13.379 euros por ano. Apesar de ter aumentado entre 2015 e 2022 — com um crescimento estimado entre 24% e 40% — a distribuição desse rendimento permanece profundamente desigual.
Entre os agregados com menores rendimentos, o rendimento discricionário médio varia entre 1.485 euros e 2.393 euros anuais, enquanto entre as famílias mais ricas atinge valores entre 24.973 euros e 30.004 euros. Em média, os agregados com maiores rendimentos dispõem assim de um rendimento discricionário entre 12 e 17 vezes superior ao das famílias mais pobres.
A vulnerabilidade financeira torna-se particularmente evidente na capacidade de responder a imprevistos. Apenas 64,3% dos inquiridos afirmam conseguir suportar uma despesa inesperada de 632 euros sem recorrer a crédito, proporção que sobe para cerca de 90% entre os agregados mais ricos, mas que desce para 23,6% entre os mais pobres. Perante uma despesa inesperada de 1.000 euros, cerca de 34% das famílias de menores rendimentos afirmam não saber como reagiriam.
O estudo identifica ainda diferenças regionais relevantes. Lisboa apresenta o rendimento discricionário médio mais elevado, enquanto Açores e Madeira registam os valores mais baixos. Já a incidência de poupança negativa é mais elevada no Algarve (29,1%), seguido do Norte (28,9%) e da Madeira (26,1%), ao passo que os Açores apresentam a menor proporção de agregados com poupança negativa (18,8%).
Segundo os investigadores, estes resultados evidenciam que, apesar da melhoria média do rendimento disponível nos últimos anos, uma parte significativa das famílias continua a enfrentar fragilidades financeiras, com uma margem reduzida para poupança ou para acomodar aumentos inesperados de despesa.