Menos balcões, salários mais altos no setor financeiro é o retrato traçado pela mais recente análise da
Randstad Research, referente a novembro de 2025. A remuneração média nas atividades financeiras atinge 3.250 euros, um valor 70% superior à média nacional de 1.877 euros, confirmando a posição das finanças no topo da hierarquia salarial em Portugal.
Este diferencial ocorre num contexto de profunda transformação estrutural. Entre 2012 e 2024, o número de agências bancárias e caixas económicas caiu de 5.571 para 2.751 estabelecimentos, uma redução superior a metade da rede física. A digitalização acelerada e a reorganização operacional redefiniram o modelo tradicional da banca, substituindo presença territorial por eficiência tecnológica e maior exigência técnica.
Mais qualificação, maior especialização
A evolução do setor não se traduziu numa retração do emprego. Pelo contrário, no terceiro trimestre de 2025, as atividades de serviços financeiros — essencialmente banca — atingiram um recorde histórico de 79,7 mil empregados, superando largamente os mínimos registados no período pós-Troika. Já o setor segurador estabilizou nos 19,8 mil profissionais.
O perfil profissional tornou-se, contudo, mais especializado. Especialistas das atividades intelectuais e científicas representam hoje 42,9% do total de trabalhadores, enquanto técnicos de nível intermédio correspondem a 28,8%. A qualificação tornou-se o principal ativo competitivo.
Apesar do nível salarial elevado, o crescimento das remunerações no setor foi de 24% na última década, significativamente abaixo dos 53% registados no conjunto da economia portuguesa no mesmo período. No último ano, o aumento foi de 2,6%, com uma variação mensal de 1,3%, refletindo alguma volatilidade.
Feminização e desemprego residual
O setor financeiro apresenta ainda uma estrutura laboral mais feminizada do que a média nacional. No terceiro trimestre de 2025, as mulheres representavam quase 54% da força de trabalho, cerca de 61 mil profissionais, enquanto os homens correspondiam a 46%, num total aproximado de 52 mil trabalhadores.
Em matéria de desemprego, os números mantêm-se residuais: apenas 2.022 inscritos nos Centros de Emprego, equivalentes a 0,8% do desemprego total em Portugal. A concentração geográfica acompanha a lógica económica do país, com Lisboa a liderar (911 inscritos), seguida da região Norte (735).
Joana Gonçalves, Senior Manager de Finance, Banking & Financial Services da Randstad Portugal, sublinha que “o setor financeiro continua a ser um dos pilares de emprego de qualidade em Portugal, oferecendo remunerações significativamente acima da média e atraindo talento altamente qualificado”. A responsável acrescenta, contudo, que “a forte contração da rede física de balcões e a volatilidade sazonal dos salários mostram que estamos perante um setor em plena mutação”.
Um setor mais compacto e mais exigente
O setor financeiro paga 70% acima da média nacional, mas fá-lo num modelo menos dependente da presença física e mais assente em competências técnicas, digitais e científicas. A redução da rede de balcões não significou declínio estrutural; traduziu-se numa reorganização orientada para eficiência, especialização e digitalização.
A banca portuguesa surge, assim, como um setor simultaneamente mais compacto e mais exigente, onde a remuneração elevada reflete não apenas a dimensão económica da atividade, mas a crescente complexidade das funções desempenhadas.