Música ao vivo gerou 25 milhões de euros na economia local em 2025, segundo estudo do IPAM Porto.
Estudo do IPAM Porto estima que os concertos de Pedro Abrunhosa em Portugal geraram 25 milhões de euros de impacto económico direto em 2025, mas revela margem para as cidades captarem mais valor turístico.
A música ao vivo pode ter um impacto económico direto muito superior ao valor dos bilhetes vendidos. Um estudo do IPAM Porto que mediu a digressão de Pedro Abrunhosa em Portugal, estimou que os concertos do artista realizados ao longo de 2025 geraram cerca de 25 milhões de euros para as economias locais, através de despesas em alimentação, deslocação, alojamento, compras e atividades de lazer.
A investigação, desenvolvida por Ana Ramires e Isabel Machado, investigadoras do IPAM Porto, analisou 933 respostas válidas de espectadores e procurou medir o efeito direto destes eventos nas cidades onde decorreram os espetáculos. Segundo o estudo, os concertos ao ar livre concentraram o maior impacto económico, com uma estimativa de 20,1 milhões de euros, associada a cerca de 435 mil espectadores. Já os espetáculos em recinto fechado representaram 4,9 milhões de euros, num universo estimado de 65.483 espectadores.
Concertos atraem visitantes e consumo local
Mais do que medir a dimensão económica de uma digressão, o estudo aponta para o papel da cultura como instrumento de dinamização territorial. Mais de metade dos espectadores inquiridos não residia na cidade onde decorreu o concerto, e 95% dos não residentes afirmou ter-se deslocado especificamente para assistir ao espetáculo. Este dado reforça a capacidade da música ao vivo para atrair visitantes e gerar consumo adicional nas cidades anfitriãs.
O impacto distribui-se por vários setores. Entre os espectadores não residentes, a despesa média estimada foi de 24,1 euros em deslocação e 22,5 euros em alimentação. Entre os que pernoitaram, o alojamento representou uma despesa média de 62,6 euros por noite. O estudo identifica ainda gastos complementares em compras e em atividades culturais ou de lazer, embora estes comportamentos ainda estejam longe de ser generalizados.
Cidades ainda têm valor por captar
É precisamente aqui que surge a principal oportunidade para os municípios e agentes económicos locais. Apesar da capacidade de atração dos concertos, 82,6% dos espectadores não residentes não pernoitaram na cidade e 56,2% não realizou qualquer atividade complementar. Ou seja, os eventos geram circulação e consumo, mas muitas cidades ainda não estão a transformar essa afluência em estadias mais longas, maior despesa turística e experiências integradas.
Para as autoras do estudo, os concertos podem funcionar como ponto de partida para estratégias mais amplas de dinamização local. “Os resultados ajudam a perceber que os concertos podem ter um papel estratégico na afirmação dos territórios. Quando existe capacidade para transformar o espetáculo numa experiência mais alargada, as cidades conseguem aumentar tempo de permanência, consumo e ligação emocional dos visitantes ao destino”, afirmam Ana Ramires e Isabel Machado.
As recomendações do estudo apontam para soluções práticas, como parcerias com hotéis, restauração e operadores turísticos, criação de menus especiais, pacotes de estadia associados aos concertos e programação complementar antes ou depois dos espetáculos. No caso dos concertos ao ar livre, as investigadoras defendem que o fluxo de visitantes não residentes justifica uma articulação mais direta com o setor hoteleiro, para converter o impacto cultural em receita adicional para os municípios.
O estudo sublinha também a importância dos canais digitais na mobilização do público. Quase metade dos espectadores inquiridos afirmou ter tomado conhecimento dos concertos através das redes sociais, acima da publicidade local, das recomendações de amigos e familiares ou de outros meios tradicionais.
Apesar da relevância dos resultados, os dados devem ser lidos como estimativas. A investigação recorreu a uma amostra não probabilística e por conveniência, com despesas auto-reportadas pelos espectadores, o que pode implicar subestimação ou sobrestimação dos valores. Ainda assim, o estudo oferece uma leitura relevante para municípios, promotores culturais, hotelaria, restauração e comércio local: a música ao vivo não é apenas programação cultural, pode ser uma ferramenta concreta de desenvolvimento económico territorial.