Estudo revela que empresas avaliam bem a produtividade, mas falham na execução, processos e integração tecnológica.
A produtividade nas empresas portuguesas está longe de ser um problema invisível. Pelo contrário, é reconhecida, avaliada e, em muitos casos, considerada satisfatória. Um estudo recente da Adecco Portugal aponta para uma classificação média de 6,77 valores numa escala de zero a dez, sugerindo um nível razoável de confiança na eficiência organizacional.
Mas essa perceção positiva esconde uma fragilidade estrutural mais profunda. Quando se analisam os processos internos, a gestão do conhecimento ou a integração tecnológica, emerge um padrão claro: as organizações reconhecem a importância da produtividade, mas ainda não a conseguem sustentar de forma consistente.
O problema não é saber — é executar
A principal conclusão do estudo não reside nos números isolados, mas na contradição que revelam. As empresas sabem o que é necessário fazer, mas falham na execução.
Quase metade das organizações (47,97%) não dispõe de qualquer sistema estruturado de gestão do conhecimento. Apenas uma minoria afirma ter processos formais de disseminação interna, e menos de 20% contam com manuais de procedimentos para funções críticas. Na prática, isto significa que o conhecimento continua dependente de pessoas, e não de sistemas.
Esta dependência tem implicações diretas na produtividade. Sem processos estruturados, a eficiência torna-se volátil, difícil de replicar e ainda mais difícil de escalar. O que funciona num momento ou numa equipa pode não se repetir noutro contexto, criando inconsistência operacional.
Tecnologia: prioridade sem implementação
A tecnologia surge como uma das maiores prioridades estratégicas, mas também como uma das maiores lacunas na prática. Segundo o estudo, 73,04% das empresas identificam esta área como essencial para melhorar a produtividade. No entanto, 66,39% admitem não ter qualquer plano estruturado para a integração de inteligência artificial.
Este desfasamento entre intenção e execução revela um problema recorrente nas organizações: a tendência para adotar o discurso da inovação sem transformar esse discurso em ação concreta.
A inteligência artificial, frequentemente apontada como fator crítico de competitividade, permanece numa fase embrionária na maioria das empresas. A ausência de planos estruturados impede que esta tecnologia contribua efetivamente para ganhos de eficiência, mantendo-se como uma promessa por concretizar.
Medir pouco, decidir pior
Outro dos pontos críticos identificados está na medição de desempenho. Apenas 12,30% das empresas dispõem de indicadores-chave de desempenho (KPI) automatizados e integrados nos seus processos.
Sem dados em tempo real, a tomada de decisão torna-se mais reativa do que estratégica. A falta de monitorização contínua limita a capacidade de identificar ineficiências, antecipar problemas e ajustar operações com rapidez.
Este défice de medição reflete uma maturidade operacional ainda insuficiente. A produtividade não depende apenas de esforço ou tecnologia, mas da capacidade de medir, interpretar e agir com base em informação consistente.
Um modelo ainda dependente do esforço humano
A gestão do absentismo e dos picos de trabalho evidencia outra limitação estrutural. Mais de metade das empresas não mede o absentismo como custo direto ou indireto, e a resposta dominante a aumentos de procura continua a ser o recurso a horas extra.
Este modelo revela uma lógica operacional centrada na adaptação das pessoas ao sistema, em vez da adaptação do sistema às necessidades do negócio. A produtividade, nestes casos, é sustentada pelo esforço adicional das equipas e não por ganhos estruturais de eficiência.
Estruturar para escalar
“O foco deve estar em transformar a reatividade em planeamento”, afirma Sérgio Duarte, National Outsourcing Director da Adecco Portugal. A afirmação sintetiza o desafio central identificado pelo estudo: passar de uma gestão baseada na resposta imediata para um modelo assente em processos, previsibilidade e consistência.
A produtividade sustentável exige mais do que boas intenções. Implica:
- formalização de processos;
- sistematização do conhecimento;
- integração efetiva de tecnologia;
- medição contínua do desempenho.
Sem estes pilares, qualquer melhoria será pontual e dificilmente escalável.
A próxima fronteira da competitividade
O estudo da Adecco Portugal revela, acima de tudo, uma fase de transição. As empresas já reconheceram a importância da produtividade como fator crítico de competitividade, mas ainda não consolidaram os mecanismos necessários para a sustentar.
Esta transição define a próxima fronteira competitiva. Num contexto económico cada vez mais exigente, a diferença entre organizações não estará apenas na estratégia ou na ambição, mas na capacidade de execução.
A produtividade deixa, assim, de ser uma perceção e passa a ser uma disciplina. E, como todas as disciplinas, depende menos do que se sabe e mais do que se faz de forma consistente.