RA-RO quer valorizar produtos raros, técnicas artesanais e saberes tradicionais através de uma plataforma digital.
Em entrevista ao Empreendedor, Luís Serra, cofundador da RA-RO, explica como a startup nasceu da vontade de preservar produtos, técnicas e saberes em risco de desaparecimento. O projeto passou pelo programa Triggers, da Casa do Impacto, e está agora numa fase de crescimento do catálogo e consolidação da operação.
A história da
RA-RO começou com uma maçã. Não uma maçã qualquer, mas a maçã riscadinha da zona de Palmela, recordada num almoço de família como um produto que fazia parte da memória de uma geração e que hoje é difícil de encontrar. Para
Luís Serra, cofundador da RA-RO em conjunto com
Tiago Reis, esse episódio revelou uma oportunidade e, ao mesmo tempo, um problema mais profundo: muitos produtos tradicionais, técnicas artesanais e matérias-primas estão a desaparecer sem que o mercado lhes dê tempo para sobreviver.
“A RA-RO nasce do problema que percebemos que existe no mundo inteiro: face à globalização e à distribuição de massa, muitos produtos e técnicas antigas estão a desaparecer”, afirma Luís Serra, em entrevista ao Empreendedor. A proposta da startup é identificar esses produtos, fazer a curadoria daqueles que considera terem potencial de sobrevivência, contar a sua história e levá-los a novos canais de distribuição.
O projeto passou pelo
Triggers, programa da Casa do Impacto dedicado a projetos em fase inicial com componente ambiental e de sustentabilidade. Na altura, segundo Luís Serra, a equipa tinha pouco mais do que uma frase: “salvar produtos em risco de extinção”. Foi nesse contexto que começou a estruturar os fundamentos do negócio.
Entre tradição, design e novos canais
A RA-RO trabalha com produtos alimentares, olaria, barro, tapeçaria, metal, cestaria, cutelaria, licores, medronho e outras técnicas ou produtos associados ao saber-fazer artesanal. O objetivo, porém, não é limitar-se a uma visão nostálgica da tradição.
Luís Serra sublinha que o projeto procura respeitar técnicas, matérias-primas e processos antigos, mas admite abordagens contemporâneas na apresentação, no design e na forma como os produtos chegam ao consumidor. “É a lógica do passado e do futuro”, resume.
Essa combinação entre herança e atualidade é uma das marcas da RA-RO. A empresa não quer apenas vender objetos. Quer dar visibilidade ao tempo, à história e às condições de produção que estão por trás de cada peça ou produto. Por isso, a curadoria é central no modelo de negócio.
A startup começou por procurar artesãos de forma direta, primeiro no Algarve e depois noutras regiões do país. No início, sem marca reconhecida nem plataforma online, o processo foi mais difícil. A equipa vinha do marketing e da publicidade, não do sector artesanal. Ainda assim, o crescimento ganhou uma dinâmica orgânica, com recomendações entre artesãos e contactos espontâneos de pessoas que descobriram o projeto.
Hoje, segundo Luís Serra, a RA-RO tem mais de 200 artesãos em fila de espera para avaliação. A entrada na plataforma depende de uma análise dos produtos, das técnicas e do grau de raridade que a equipa identifica.
Um índice para medir a raridade
A noção de raridade tornou-se um dos elementos distintivos da RA-RO. A partir da investigação inicial, a equipa identificou cerca de 400 produtos tradicionais em risco de desaparecimento em Portugal. Esse levantamento ajudou a criar o chamado “índice RARO”, uma classificação aplicada aos produtos disponíveis na plataforma.
O índice considera fatores como a matéria-prima, a idade do artesão, a quantidade produzida por ano e a disponibilidade do produto no mercado. A classificação permite distinguir produtos ainda relativamente acessíveis, mas difíceis de encontrar, de peças verdadeiramente únicas.
“Quando olhamos para um produto, olhamos para a matéria-prima, a idade do artesão, a quantidade de produtos que consegue produzir por ano, e daí atribuímos um índice de raridade”, explica Luís Serra.
A RA-RO lançou-se comercialmente em dezembro, numa lógica de teste orgânico. O objetivo inicial foi perceber a reação do mercado, colocar a plataforma online e observar as primeiras vendas. O catálogo começou com 21 artesãos e 78 produtos. Depois dessa fase, a equipa entrou num segundo momento: aumentar o catálogo, integrar novos artesãos e preparar uma nova vaga de produtos.
A operação é exclusivamente online. A empresa admite testar presença em feiras ou pop-ups, mas essa não é, para já, a prioridade. O foco está em consolidar a plataforma, alargar a oferta e melhorar a experiência de compra.
A logística como primeiro grande obstáculo
Transformar produtos raros em negócio escalável trouxe desafios imediatos. A RA-RO começou com a ambição de trabalhar produtos perecíveis, inspirada precisamente pela história da maçã riscadinha. No entanto, a distribuição de produtos frescos, em boas condições e a partir de produtores geograficamente dispersos, revelou uma complexidade elevada.
A equipa acabou por alargar o foco a produtos menos sensíveis, mas isso não eliminou o problema logístico. Pelo contrário, trouxe outro tipo de dificuldades. A plataforma trabalha com produtos frágeis, de dimensões variadas e produzidos em pequenas quantidades por artesãos localizados muitas vezes fora dos grandes centros urbanos.
“Não somos uma loja que vende só um tipo de produto”, explica Luís Serra. A RA-RO precisa de garantir que uma peça chega intacta ao cliente, mas também que a experiência de receção corresponde ao posicionamento que a marca quer construir. A embalagem, a proteção do produto e a experiência de unboxing tornaram-se, por isso, parte essencial da operação.
Outro desafio está na relação com os próprios artesãos. Muitos não têm uma estratégia de preço definida, estão habituados a vender em feiras e não trabalham com a lógica de canais digitais, embalagem, distribuição e comunicação de marca. Nalguns casos, até a comunicação regular por e-mail pode ser uma barreira.
Para Luís Serra, este é um dos pontos em que a RA-RO tem de atuar também como mediadora entre dois mundos: o dos artesãos, com ritmos próprios de produção, e o do consumidor digital, habituado a disponibilidade imediata, entrega rápida e preços comparáveis.
Educar o consumidor para o valor do tempo
A sazonalidade é outro fator determinante. Há produtos que só podem ser feitos em determinadas alturas do ano, outros dependem da disponibilidade de matéria-prima e alguns são afetados por condições climatéricas. O exemplo do vime, usado na cestaria, mostra como a qualidade da matéria-prima pode depender do clima, algo que o consumidor final nem sempre considera.
É por isso que a comunicação da RA-RO procura valorizar o tempo, o saber-fazer e o preço real do artesanato. A empresa quer que o consumidor perceba que não está apenas a comprar um copo, uma peça de barro, uma cataplana ou um cesto. Está a adquirir um produto com história, produzido em condições específicas e, muitas vezes, por técnicas que correm o risco de desaparecer.
“O preço não é muitas vezes apenas a margem, mas o valor que esse produto precisa de ter para atingir a sustentabilidade”, afirma Luís Serra. Essa pedagogia é parte do posicionamento da RA-RO e também uma condição para que os produtos raros possam sobreviver no mercado.
A empresa assume-se hoje, de forma simples, como retalhista. São os artesãos que fornecem os produtos, mas é a RA-RO que gere a venda, a logística e a distribuição. Esta escolha aumenta a responsabilidade operacional, mas permite controlar melhor a experiência do cliente e a forma como cada produto é apresentado.
Crescer em Portugal antes de ganhar mundo
Embora a ambição da RA-RO seja global, Luís Serra reconhece que ainda há trabalho a fazer no mercado nacional. Nos próximos dois anos, a startup quer amadurecer a rede de artesãos, aumentar o catálogo e desenvolver a área B2B, que surgiu de forma orgânica através do interesse de empresas, startups, hotelaria e eventos.
A internacionalização está no horizonte. Espanha e Marrocos são mercados já identificados como prioritários pela proximidade geográfica e pela riqueza de produtos e técnicas tradicionais. Mas o crescimento terá de ser gradual.
A passagem pela Casa do Impacto ajudou a equipa a estruturar o projeto quando ainda era apenas uma ideia. Hoje, a RA-RO está numa fase diferente: já validou interesse, fez as primeiras vendas e identificou os principais obstáculos da operação. O desafio deixou de ser provar que a ideia faz sentido. Passou a ser construir um modelo capaz de preservar raridade sem a transformar num produto indiferenciado.
A tensão é essa: levar produtos raros a mais consumidores sem destruir aquilo que os torna raros. Para a RA-RO, a resposta passa por curadoria, narrativa, logística e educação do mercado. Só assim, defende Luís Serra, produtos que estavam a desaparecer poderão encontrar novos canais de sobrevivência.