A captura de carbono indústria portuguesa poderá tornar-se decisiva para preservar a competitividade da indústria pesada até 2040. Um white paper desenvolvido pela Associação Portuguesa de Cimento (ATIC), em colaboração com a Boston Consulting Group (BCG), sustenta que, sem soluções estruturais como a Captura e Armazenamento de Carbono (CCS), setores hard-to-abate poderão enfrentar um agravamento significativo de custos no contexto do reforço do Sistema Europeu de Comércio de Licenças de Emissão (CELE).
Pressão regulatória e risco competitivo
O reforço progressivo do CELE, aliado à redução das licenças gratuitas e à subida do preço do carbono, está a aumentar a pressão sobre setores industriais com emissões inevitáveis de CO₂, como o cimento. Segundo o estudo
“Portugal’s Carbon Link”, operar sem CCS poderá comprometer a viabilidade económica de parte da indústria nacional no médio prazo.
“A indústria portuguesa, e em particular a cimenteira, precisa de assegurar uma solução viável de descarbonização até 2040 que garanta a sua competitividade num contexto regulatório cada vez mais exigente”, afirma Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa. “As alavancas tradicionais continuarão a ser fundamentais, mas, dada a natureza do processo produtivo, a captura e armazenamento de carbono deverá integrar esse percurso.”
O estudo sublinha que, apesar de a implementação de CCS poder aumentar os custos de produção do cimento entre 60% e 80%, o impacto final nos custos de construção seria residual, estimado entre 2% e 4%.
Uma infraestrutura nacional de captura e armazenamento
A proposta analisada no white paper prevê a criação de uma infraestrutura integrada de captura, transporte e armazenamento de CO₂, incluindo cerca de 660 quilómetros de gasodutos onshore e 25 quilómetros offshore, ligando aproximadamente 20 emissores industriais a um local de armazenamento geológico na bacia sedimentar lusitânica.
A capacidade inicial estimada é de 300 milhões de toneladas de CO₂, com potencial total de armazenamento na ordem das 3 gigatoneladas, suficiente para sustentar a descarbonização industrial durante várias décadas.
O investimento projetado ronda os dois mil milhões de euros entre 2027 e 2056. Segundo a análise, o custo de transporte e armazenamento situar-se-ia em cerca de 25 euros por tonelada de CO₂, enquanto os custos de captura para os emissores variariam entre 80 e 110 euros por tonelada.
Impacto económico e modelo de financiamento
Para além da dimensão ambiental, o estudo estima que a implementação de uma infraestrutura nacional de CCS poderá gerar até sete mil empregos diretos e um impacto económico direto e indireto acumulado de cerca de 14 mil milhões de euros no PIB até 2065.
O relatório recomenda a adoção de um modelo de Base de Ativos Regulatórios (BAR), garantindo previsibilidade financeira através de tarifas reguladas e partilha de risco entre entidades públicas e privadas. Defende ainda a necessidade de um quadro regulatório claro e de mecanismos de financiamento público-privado para reduzir incertezas e viabilizar o investimento.
“Sendo uma solução tecnicamente complexa, a CCS já está a ser desenvolvida em vários países europeus, criando um legado de aprendizagem que Portugal deve aproveitar”, sublinha Carlos Elavai. “O passo seguinte passa por mobilizar os diferentes stakeholders e avançar para um projeto-piloto que permita testar o modelo e reduzir incertezas antes de uma implementação em escala.”
Descarbonizar sem desindustrializar
O debate em torno da captura de carbono indústria portuguesa coloca uma questão estratégica mais ampla: como cumprir metas climáticas ambiciosas sem provocar deslocalização industrial ou perda de competitividade.
Num cenário de transição energética acelerada, a decisão sobre avançar – ou não – com soluções estruturais como a CCS poderá determinar se Portugal mantém capacidade industrial relevante nos setores intensivos em emissões ou se enfrenta uma erosão gradual da sua base produtiva até 2040.