Transição energética abranda com foco das empresas em investimentos mais rentáveis, revela estudo da Bain.
O setor energético está a recentrar a sua estratégia na rentabilidade, abrandando o ritmo da transição energética perante um contexto marcado por incerteza geopolítica, volatilidade dos mercados e pressão regulatória.
De acordo com o mais recente inquérito global da Bain & Company, que envolveu mais de 800 executivos dos setores de energia e recursos naturais, a maioria das empresas continua a considerar que a procura global de petróleo deverá crescer ao longo da próxima década, sustentando a continuidade de investimentos em combustíveis fósseis.
A divergência entre regiões mantém-se. Na Europa, cerca de metade dos executivos do setor de Oil & Gas antecipa que o pico da procura poderá ocorrer antes de 2035. Já nos Estados Unidos, 41% dos inquiridos acredita que esse momento não será atingido antes de 2050, refletindo diferentes prioridades em termos de segurança energética e contexto geopolítico.
“Embora os executivos continuem focados em garantir acesso a energia limpa, acessível e fiável, observa-se um consenso crescente de que o calendário global da descarbonização poderá estender-se para além do inicialmente previsto”, afirma Andrea Beccia,
sócio da Bain & Company.
Apesar deste abrandamento, a transição energética continua a mobilizar capital, sobretudo na Europa, onde mais de metade das empresas já aloca mais de 20% do investimento a iniciativas ligadas à descarbonização. Ainda assim, a disciplina financeira ganha peso, com as decisões de investimento cada vez mais condicionadas pela previsibilidade de retorno.
Paralelamente, o setor enfrenta uma nova pressão estrutural: o impacto da inteligência artificial no consumo energético. Segundo o estudo, o aumento da procura de energia associado à expansão da IA está a colocar exigências adicionais sobre as infraestruturas elétricas, obrigando a acelerar investimentos em armazenamento, redes e capacidade de produção.
Ao mesmo tempo, a aplicação prática da IA ainda não gera retornos consistentes. Cerca de dois terços dos executivos indicam que as suas organizações estão ainda em fase experimental ou de projetos-piloto, sem resultados tangíveis, enquanto apenas um quarto avançou para implementações em escala.
O estudo antecipa ainda uma intensificação dos processos de reestruturação no setor. Dois terços dos executivos preveem ajustes significativos nas carteiras de ativos nos próximos dois anos, incluindo alienações, consolidações e encerramentos, num esforço para adaptar o portefólio a um ambiente mais exigente.
“Num contexto de elevada incerteza, a disciplina de investimento volta a assumir um papel central”, conclui Andrea Beccia. “As empresas que conseguirem equilibrar rentabilidade, segurança energética e transição serão as que estarão em melhor posição para competir nos próximos anos”.