Produtividade e horas de trabalho nem sempre estão alinhadas, alerta Philipp Reisinger, que aponta falhas estruturais na economia.
Neste artigo, Philipp Reisinger defende que o debate, no Brasil, sobre a redução da jornada laboral ignora o problema central: a baixa produtividade estrutural que impede as economias de gerar mais valor por hora trabalhada.
O debate sobre a reforma da escala de trabalho voltou com força no Brasil. A
proposta de limitar o modelo 6x1 e ampliar folgas provoca reações intensas dos dois lados, como costuma acontecer quando o assunto envolve direitos trabalhistas, produtividade e papel do Estado na economia. O problema é que, no meio desse ruído todo, a pergunta mais relevante raramente aparece: produzir mais, em mais horas, ainda faz sentido?
O Brasil trabalha em média 39 horas semanais, acima da média mundial de 38,2 horas, segundo a OIT. Mais do que o Canadá (32 horas), a Alemanha (34 horas) e o Reino Unido (36 horas). Apesar disso, o país ocupa o 78º lugar no ranking de produtividade por hora trabalhada entre 131 economias avaliadas pela Conference Board, ficando atrás de Uruguai, Argentina e Chile. A produtividade brasileira por hora ficou em 21,44 dólares PPC em 2024, praticamente o mesmo patamar de dez anos atrás. Mais horas não estão a gerar mais resultado.
A comparação que incomoda: países em desenvolvimento também trabalham muito
Quem defende a manutenção de jornadas longas costuma apontar para o modelo asiático como referência. A comparação tem base: Vietname (44h/semana), China (46h), Bangladesh (46,5h) e Camboja (47h) trabalham mais do que o Brasil e apresentaram crescimento médio do PIB entre 5% e 7% ao ano na última década, segundo dados do FMI e do Banco Mundial. À primeira vista, a correlação parece validar a tese: mais horas, mais crescimento.
Mas o dado isolado não sustenta o argumento. A análise da relação entre horas trabalhadas e crescimento económico revela um quadro mais complexo: países como Brasil, México e Argentina trabalham tanto ou mais do que várias economias asiáticas, mas crescem muito menos. O Brasil trabalha 39 horas semanais e cresceu em média 1,2% ao ano no período. México, com 45 horas, cresceu apenas 1,8%. A Argentina, com 35 horas, ficou em 0,4%. O que explica o crescimento asiático não são as horas de trabalho, mas sim os investimentos em infraestrutura, educação, industrialização e integração ao comércio global.
A Coreia do Sul ilustra bem essa transição. O país foi, durante décadas, símbolo de jornadas exaustivas. À medida que a economia amadureceu e o valor gerado por trabalhador aumentou, a jornada foi reduzida progressivamente. Hoje a média semanal está em 37,9 horas, abaixo do Brasil. O crescimento não veio das horas. Veio da produtividade.
O que já foi testado nos países desenvolvidos
Enquanto o Brasil discute se deve passar do 6x1 para o 5x2, outros países já testaram a semana de quatro dias com resultados documentados. A Islândia realizou, entre 2015 e 2019, testes em larga escala com mais de 2.500 trabalhadores, classificados como um “sucesso esmagador”: produtividade mantida ou melhorada na maioria dos casos, com redução significativa do stress e do esgotamento.
O Reino Unido conduziu em 2022 o maior teste do género até à data, envolvendo mais de 60 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores. A receita manteve-se estável ou cresceu, o absentismo diminuiu e a maioria das empresas decidiu manter o modelo. Na Alemanha, 73% das organizações participantes em testes recentes indicaram intenção de continuar com a jornada reduzida. No Japão, a filial da Microsoft registou um aumento de 40% na produtividade durante a experiência.
Portugal apresenta também um caso relevante. Entre 2023 e 2024, um projeto-piloto com 41 empresas e mais de 1.000 trabalhadores revelou resultados consistentes: 95% das empresas avaliaram positivamente a experiência e mais de 80% decidiram manter o modelo. A ansiedade caiu 21%, a fadiga 23% e a dificuldade em conciliar vida pessoal e profissional reduziu-se significativamente. Em alguns casos, registaram-se ganhos de produtividade na ordem dos 20%.
O argumento de quem defende a escala atual
Quem se opõe à mudança apresenta argumentos concretos. Em setores como comércio, logística e serviços essenciais, a operação contínua depende de modelos que garantam cobertura permanente. Reduzir dias de trabalho sem reorganizar a estrutura pode aumentar custos, pressionar margens e, em alguns casos, levar à redução de postos de trabalho.
O impacto de uma alteração na jornada não é uniforme. A maioria dos testes foi realizada em empresas de serviços e conhecimento, onde a flexibilidade é maior. Generalizar estes resultados a todos os setores exige prudência.
O que o debate evita discutir
O problema central não é a escala de trabalho. É a estrutura que obriga a trabalhar mais para produzir menos. Uma economia com elevada carga fiscal, infraestrutura limitada, educação desigual e custos de financiamento elevados dificilmente melhora a produtividade apenas alterando a jornada laboral.
A fiscalidade tem um impacto direto nesta equação. O custo de contratação formal é elevado, criando incentivos que penalizam a expansão das empresas. Reduzir a jornada sem alterar este contexto estrutural pode significar tratar o sintoma sem resolver a causa.
A elevada taxa de informalidade em economias como a brasileira é, em grande medida, uma resposta a esse desequilíbrio. Qualquer reforma laboral que ignore este contexto arrisca-se a reforçar dinâmicas já existentes.
O que fica para o empreendedor
Independentemente da evolução legislativa, a pressão sobre os modelos tradicionais de trabalho vai intensificar-se. Dados do estudo britânico mostram que cerca de 40% dos trabalhadores exigiriam aumentos salariais significativos para regressar a jornadas mais longas após experimentar a semana de quatro dias.
A tecnologia demonstra que é possível produzir mais em menos tempo quando os processos são bem estruturados. O modelo testado internacionalmente assenta numa lógica simples: manter o salário, reduzir o tempo e preservar — ou aumentar — a produtividade. Esta transformação não depende apenas de legislação, mas de decisões de gestão.
O debate sobre as escalas de trabalho expõe uma questão mais profunda: a dificuldade em equilibrar produtividade, custo e organização do trabalho. Mudar a escala pode ser um passo, mas o verdadeiro desafio está em criar condições para que cada hora trabalhada gere mais valor.