“O ecossistema de impacto evoluiu, mas continua muito desafiante para quem começa”

Apesar da maior maturidade do ecossistema, o empreendedorismo de impacto em Portugal continua a enfrentar obstáculos nas fases iniciais. Nuno Comando analisa desafios, áreas emergentes e o papel das empresas e da sociedade civil.

Na foto: Nuno Comando diretor Casa do Impacto SCML

O empreendedorismo de impacto em Portugal ganhou maturidade, atraiu novos atores e beneficiou de um enquadramento regulatório mais exigente. Ainda assim, para Nuno Comando, o percurso continua a ser especialmente difícil nas fases iniciais, onde o acesso a financiamento permanece limitado.

Na leitura do diretor da Casa do Impacto, o ecossistema português ligado ao impacto social e ambiental evoluiu de forma consistente na última década. Em entrevista ao Empreendedor, Nuno Comando, sublinhou que tema ganhou visibilidade pública e passou a integrar a agenda de investidores e empresas tradicionalmente afastados deste tipo de projetos. No entanto, esse crescimento não eliminou os constrangimentos estruturais enfrentados pelos empreendedores.

“O contexto é hoje mais favorável do que há dez anos, mas continua muito exigente para quem está a começar”, sublinha, apontando o financiamento em early stage e pre-seed como um dos principais bloqueios ao desenvolvimento de novas iniciativas.

Foto de Casa do Impacto

Áreas emergentes e diversidade de respostas

Dentro do universo do impacto social, Nuno Comando identifica algumas áreas com maior tração. Educação, imigração e envelhecimento ativo ‑ associado à chamada silver economy ‑ surgem como temas recorrentes, tanto pela pressão social como pelo interesse crescente de investidores e da opinião pública.

Ainda assim, o responsável da Casa do Impacto evita uma leitura restritiva do ecossistema. A instituição não faz uma triagem temática rígida e procura acolher projetos com diferentes abordagens e modelos. “Projetos alinhados com os fins estatutários da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa podem beneficiar de mais instrumentos de apoio, mas isso não exclui iniciativas noutras áreas”.

“Hoje, nem todos os projetos que apoiamos têm ligação direta às áreas tradicionais da Santa Casa”, explica. O critério central continua a ser a relevância do problema identificado e a capacidade da solução proposta.

Nuno Comando, diretor da Casa do Impacto (foto de Empreendedor)

Empresas, cidadãos e responsabilidade partilhada

Para Nuno Comando, uma das transformações mais significativas dos últimos anos está na forma como a responsabilidade pelo impacto é distribuída. A transição dos Objetivos do Milénio para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável alargou o foco da intervenção para além do Estado e das organizações não-governamentais.

“Esse alargamento tornou mais visível o papel das empresas e dos cidadãos. No caso da Casa do Impacto, o envolvimento do setor empresarial é hoje determinante para o desenvolvimento de programas e para a validação de soluções em contexto real”, sublinha. As empresas contribuem com conhecimento, acesso a infraestruturas e oportunidades de teste que dificilmente seriam replicáveis noutros contextos.

Também a sociedade civil revela maior atenção a estas temáticas. “A participação nos eventos promovidos pela Casa do Impacto demonstra um público interessado em compreender melhor os problemas sociais e ambientais e em refletir sobre o seu papel individual”. Embora reconheça que o empreendedorismo de impacto ainda não chega a toda a população, Nuno Comando considera que a presença crescente destes temas na agenda mediática tem ampliado o debate público.

Bootcamp da 4ª Edição do programa Triggers (foto de Empreendedor)

Cooperação em vez de concorrência

Questionado sobre o surgimento de múltiplos programas e iniciativas promovidos por empresas ou outras instituições, Nuno Comando rejeita a lógica de concorrência. Num ecossistema marcado pela escassez de financiamento, entende que todos os contributos são relevantes.

“Não temos capacidade para chegar a todos os projetos”, afirma, defendendo que a multiplicação de iniciativas fortalece o ecossistema. Mesmo quando existe uma componente comunicacional associada, o critério central deve ser o impacto efetivamente gerado.

Na sua perspetiva, o apoio não financeiro assume um papel decisivo. O acesso a equipas técnicas especializadas, redes empresariais, infraestruturas e programas de mentoria pode representar um avanço mais significativo do que um prémio monetário isolado. “Às vezes ganha-se muito mais com a rede que se cria do que com um incentivo financeiro”, sublinha.

Estas iniciativas funcionam, assim, como etapas sucessivas no percurso dos empreendedores. “Permitem testar soluções, corrigir modelos e ganhar robustez antes de avançar para fases mais exigentes de crescimento”.

Nuno Comando, diretor da Casa do Impacto (foto de Empreendedor)

Fundada em 2018, a Casa do Impacto está no seu sétimo ano de atividade. Ao longo desse período, apoiou mais de 480 projetos e empreendedores, investiu 3,4 milhões de euros e construiu uma comunidade ativa dedicada à criação de impacto social e ambiental positivo.

Para Nuno Comando, estes números refletem um trabalho contínuo de bastidores, orientado para aumentar as probabilidades de sucesso dos projetos e para reforçar a capacidade do ecossistema em responder a desafios complexos. Um percurso que continua a exigir ambição, cooperação e uma visão de longo prazo.

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