Neste artigo de José Maria Pimentel, Coordenador da Pós-graduação em Pensamento Crítico para Tomada de Decisão, do Iscte Executive Education, reflete-se sobre a dificuldade crescente em decidir com rigor num contexto marcado pela sobrecarga de informação, pela incerteza e pela pressão permanente do imediatismo, defendendo o pensamento crítico como competência essencial para decisores, organizações e cidadãos.
Vivemos num tempo paradoxal. Nunca tivemos acesso a tanta informação, dados e opiniões — e, no entanto, nunca pareceu tão difícil tomar boas decisões. Em Portugal, como noutros países, decisões políticas, empresariais e individuais são hoje tomadas sob pressão de tempo, em ambientes de elevada incerteza e expostas a um ruído informativo constante. Neste contexto, uma competência torna-se cada vez mais decisiva e, ao mesmo tempo, escassa: o pensamento crítico.
Pensar criticamente não é “pensar muito”, “ter opinião” ou “ser do contra”. É a capacidade de analisar problemas complexos de forma lógica e fundamentada, questionar pressupostos, avaliar evidência, distinguir factos de interpretações e reconhecer os limites do nosso próprio conhecimento. É, em suma, saber parar para pensar e conseguir compreender e decidir, mesmo perante temas novos e complexos.
O problema é que o novo ecossistema informativo favorece precisamente o contrário. Algoritmos premiam a emoção em detrimento da reflexão; redes sociais reduzem problemas complexos a slogans; a velocidade substitui a ponderação. A consequência é conhecida: polarização, decisões mal fundamentadas, políticas públicas erráticas e organizações que vão atrás da última moda em vez de pensar estrategicamente.
Portugal não é imune a este fenómeno. Pelo contrário: num país com desafios estruturais profundos — da produtividade à habitação, da transição climática ao envelhecimento demográfico — a incapacidade de pensar criticamente tem custos reais. Custos económicos, institucionais e democráticos. Não basta boa vontade, nem experiência acumulada. É preciso método, ferramentas e treino deliberado.
Apesar disso, o pensamento crítico continua a ser tratado como algo difuso, quase inato, em vez de uma competência que pode — e deve — ser ensinada, praticada e avaliada. Nos currículos académicos e na formação de executivos, fala-se muito de liderança, inovação ou tecnologia, mas pouco de como pensar bem em contextos de complexidade, incerteza e conflito de valores.
Reforçar o pensamento crítico não é um luxo académico. É uma necessidade prática para decisores públicos, gestores, profissionais qualificados e cidadãos. Num mundo em que a informação é abundante, a escassez relevante é a capacidade de a interpretar com rigor e usar para decidir melhor.
É com essa convicção que o Iscte Executive Education lançou a primeira pós-graduação em pensamento crítico em Portugal — e no Mundo — integrando lógica, argumentação, literacia estatística, resolução de problemas e tomada de decisão. Não como um fim em si mesmo, mas como uma resposta concreta a um problema coletivo: a dificuldade crescente em pensar bem num mundo cada vez mais complexo.
Num país pressionado a decidir depressa, pensar melhor pode ser a nossa maior vantagem competitiva.