Portugal acelera na adoção de IA generativa

Estudo da Bain mostra que adoção de IA generativa em Portugal supera média europeia e já altera tráfego digital e comportamento de pesquisa.

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A adoção de IA generativa em Portugal está acima da média europeia e começa a alterar padrões de consumo digital. Segundo o estudo “European Consumer Gen AI Sentiment & Behaviour”, divulgado pela Bain & Company, 62% dos portugueses inquiridos utilizam regularmente ferramentas de inteligência artificial generativa, superando a média europeia de 52%.

O dado sugere que Portugal se posiciona na linha da frente da experimentação e integração destas tecnologias no quotidiano. No entanto, o verdadeiro impacto pode estar menos na taxa de utilização e mais na transformação do comportamento digital.

Do entusiasmo à mudança estrutural

De acordo com o estudo, a utilização de ferramentas de IA generativa em Portugal passou de 6% para 62% nos últimos quatro anos. A maioria dos utilizadores recorre a estas soluções sobretudo para uso pessoal (55%), embora o primeiro contacto tenha ocorrido maioritariamente em contexto académico ou profissional.

João Valadares, partner da Bain & Company, afirma que “Portugal é um mercado recetivo às ferramentas de Gen AI, com níveis de confiança e adoção superiores à média europeia”, acrescentando que esta evolução “terá implicações claras na forma como as empresas portuguesas comunicam, vendem e constroem confiança junto dos consumidores”.

Os principais usos identificados incluem pesquisa de informação (85%), explicação de conceitos complexos (79%) e apoio à escrita (71%). A dimensão social ou emocional da utilização permanece residual, abaixo dos 30%.

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O efeito “zero-click” e o risco para marcas e media

O dado mais relevante para empresas e meios de comunicação surge na análise do tráfego digital. Cerca de 6 em cada 10 utilizadores europeus afirmam já não clicar em sites quando a informação que procuram surge diretamente em resumos gerados por IA nas páginas de resultados. Este comportamento, conhecido como “zero-click”, altera profundamente o modelo tradicional de visibilidade online.

Se o utilizador obtém a resposta sem sair do motor de pesquisa ou da interface de IA, o tráfego direto para sites reduz-se. Para marcas, media e plataformas de e-commerce, isto significa que a competição deixa de estar apenas no topo dos resultados de pesquisa e passa a estar na relevância dentro das próprias ferramentas de IA.

Leah Johns, Practice Director & Leader do Global Consumer Lab da Bain & Company, sublinha que “as marcas procuram agora relevância dentro das ferramentas de Gen AI, que fornecem informação de forma rápida, concisa e personalizada”.

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Confiança geracional e transição gradual

O estudo identifica diferenças geracionais claras. Geração Z e Millennials revelam maior confiança nas ferramentas de IA generativa, enquanto Boomers e Silent Generation manifestam níveis superiores de desconfiança. Portugal destaca-se como o país com maior percentagem de confiança declarada (54%), acima da média europeia de 41%.

Ainda assim, a substituição dos motores de pesquisa tradicionais é gradual. Apenas 18% dos utilizadores europeus afirmam recorrer maioritariamente a ferramentas de IA em vez de motores de pesquisa. Em Portugal, 38% indicam que continuam a usar motores de pesquisa com maior frequência.

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Implicações para as empresas portuguesas

A aceleração da adoção de IA generativa em Portugal não deve ser interpretada apenas como sinal de maturidade tecnológica. O impacto real está na forma como os consumidores pesquisam, comparam e tomam decisões.

Se o funil digital se desloca para dentro das interfaces de IA, as estratégias de marketing, SEO e geração de tráfego terão de se adaptar. A visibilidade passa a depender da capacidade de estruturar informação, garantir autoridade de fonte e integrar-se nos ecossistemas de IA.

Num mercado onde 62% dos utilizadores já recorrem regularmente a ferramentas de Gen AI, a questão deixa de ser se a tecnologia será adotada e passa a ser como as empresas irão reposicionar-se num ambiente onde a descoberta de informação já não depende exclusivamente do clique.