O risco geopolítico nas empresas portuguesas deixou de ser uma variável periférica e passou a integrar o núcleo das decisões estratégicas. A segunda edição do Barómetro do Risco Geopolítico para Empresas, promovido pelo Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, confirma essa mudança: ciberataques de grande dimensão, crise financeira e disrupção das cadeias de abastecimento lideram as preocupações do tecido empresarial.
O estudo, baseado em 330 inquéritos válidos recolhidos entre 8 e 20 de dezembro de 2025 junto de executivos com operação nacional e internacional, revela que 63% dos inquiridos classificam como elevado o risco de ciberataques associados a ameaças híbridas, incluindo possíveis patrocínios estatais. A geopolítica entra, assim, diretamente na gestão do risco corporativo.
Ciberataques ultrapassam o receio de nova crise financeira
Durante mais de uma década, a memória da crise financeira de 2007 moldou a perceção de vulnerabilidade das empresas. O novo barómetro indica, contudo, uma inflexão. Embora 58% dos executivos continuem a considerar elevado o risco de nova crise financeira, os ataques “ciber” ocupam agora o primeiro lugar tanto a um como a três anos.
Jorge Rodrigues, co-coordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, sublinha que esta perceção entra “num ‘terreno familiar’ de um risco cíclico”, mas com uma diferença relevante: “o risco geopolítico pode ainda desencadear ou agravar uma crise financeira ao gerar instabilidade, perda de confiança nos mercados e choques económicos que afetam investimentos, crédito e crescimento”.
A leitura é clara. O risco financeiro deixou de ser visto como fenómeno autónomo. Passa a ser entendido como consequência possível de instabilidade geopolítica.
Cadeias de abastecimento sob pressão estrutural
A disrupção das cadeias de abastecimento surge em terceiro lugar, com 55% dos inquiridos a classificá-la como risco elevado. Entre empresas exportadoras e importadoras, essa perceção sobe para 72%, evidenciando maior exposição à volatilidade do comércio internacional.
O barómetro identifica ainda o impacto da nova administração norte-americana e o chamado “Efeito Trump” como fator explicativo para a descida dos conflitos comerciais EUA/China/UE para o quinto lugar. Jorge Rodrigues refere que a adaptação das empresas à ideia de que “Trump Always Chickens Out” poderá explicar essa hierarquização, mas alerta para riscos mais complexos, como o programa nuclear do Irão ou a crise de Taiwan, que podem alterar rapidamente o equilíbrio.
De forma surpreendente, a negação de acesso à tecnologia surge apenas na sexta e oitava posições (a três e a um anos, respetivamente). Num contexto de competição geoeconómica crescente, esta subavaliação pode revelar desalinhamento entre perceção e risco estrutural.
Exposição diferenciada por setor
A perceção do risco geopolítico nas empresas não é homogénea. Na indústria transformadora, a disrupção logística lidera as preocupações, seguida dos ciberataques e dos conflitos na Europa. Já no setor financeiro e segurador, as questões energéticas assumem maior relevância.
Curiosamente, nas organizações com investimento direto no estrangeiro, a disrupção das cadeias de abastecimento não integra os três principais riscos identificados a três anos, sugerindo maior diversificação ou capacidade de mitigação.
Parcerias estratégicas como instrumento de mitigação
Perante este cenário, as empresas portuguesas privilegiam respostas baseadas em parcerias estratégicas (44%), tratados multilaterais (42%), investimento interno em investigação e desenvolvimento (40%) e reforço da preparação geopolítica (37%).
Segundo Jorge Rodrigues, “o reforço do conhecimento geopolítico como estratégia de mitigação […] revela que o setor empresarial pretende aumentar as suas competências e meios endógenos e não ficar apenas à espera do Estado para mitigar riscos geopolíticos”.
A conclusão implícita é significativa. A geopolítica deixou de ser uma variável externa imprevisível. Passa a ser integrada como componente permanente do planeamento estratégico.
Num ambiente marcado por competição entre blocos económicos, tensão tecnológica e instabilidade regulatória, o risco geopolítico nas empresas portuguesas assume-se como elemento estrutural da gestão. A questão já não é se irá afetar as decisões empresariais, mas de que forma e com que intensidade.