O programa Triggers arrancou para a sua quarta edição, envolvendo 26 projetos focados no impacto ambiental. Em entrevista ao Empreendedor, Nuno Comando, sublinhou que este percurso confirma a maturidade de um ecossistema que hoje exige mais do que boas ideias: pede modelos viáveis, impacto mensurável e capacidade de execução.
O Triggers é hoje uma das peças centrais da oferta da Casa do Impacto, o hub de empreendedorismo e inovação social da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A quarta edição do programa, iniciada na terça-feira, 13 de janeiro, resulta de uma evolução natural da estratégia da instituição.
Depois de uma fase inicial mais centrada na inovação social, a Casa do Impacto identificou a necessidade de criar um programa de longa duração dedicado à sustentabilidade ambiental. Essa decisão acompanhou a evolução do próprio ecossistema e o crescimento do número de projetos com esta orientação.

Segundo Nuno Comando, diretor da Casa do Impacto, esta separação não implica uma rutura entre impacto social e ambiental. “A grande maioria dos projetos ambientais tem sempre uma dimensão social associada. Esses dois mundos não se separam”, sublinha. Ainda assim, considera que existia já massa crítica suficiente para um programa com foco específico na sustentabilidade ambiental.
Desde a primeira edição, o Triggers foi desenhado com um princípio claro: aproximar os projetos do mercado real. Para isso, envolve especialistas e empresas parceiras que contribuem não apenas com bolsas e prémios, mas também com conhecimento, mentoria e acesso a contextos reais de teste.
Nas três edições anteriores, passaram pelo programa cerca de 70 projetos, tendo sido mobilizados mais de 90 mil euros para apoiar os seus primeiros passos.

“O Triggers não se limita a incubar ideias; transforma visões em negócios reais com utilidade social e ambiental e potencial de escala.”
Nuno Comando, diretor da Casa do Impacto
A exigência do programa começa logo no processo de seleção. Para além do mérito das ideias, a Casa do Impacto valoriza fortemente o perfil empreendedor e a resiliência das equipas. O bootcamp inicial assume aqui um papel determinante, funcionando como um momento de observação direta.
“Este formato permite avaliar aspetos difíceis de captar num formulário de candidatura, como a estrutura das equipas, a maturidade do modelo de negócio ou a forma como os promotores reagem à pressão e à adversidade”, explica Nuno Comando. Entre os critérios considerados estão ainda o potencial de escalabilidade e a forma como o impacto é definido e medido.
“O projeto não vive sem os seus fundadores. O perfil empreendedor é absolutamente crítico”, afirma o diretor da Casa do Impacto.

Os participantes do Triggers refletem essa diversidade. Há projetos liderados por jovens recém-saídos da universidade, muitas vezes a partir de investigação académica, mas também empreendedores mais experientes, já na segunda ou terceira tentativa. Essa heterogeneidade é intencional.
Para Nuno Comando, a diversidade de percursos enriquece o processo. “A dinâmica de grupo e de comunidade é fundamental. As diferentes experiências ajudam a moldar melhor os projetos ao longo da capacitação”, refere.
Embora muitos dos projetos tenham hoje uma forte base tecnológica, o Triggers não se define como um programa exclusivamente tecnológico. A tecnologia surge como resposta natural aos desafios da sustentabilidade, mas o foco está na capacidade de construir modelos financeiramente sustentáveis.
A Casa do Impacto assume-se agnóstica quanto ao estatuto jurídico das iniciativas. Podem ser projetos com ou sem fins lucrativos, “O essencial é que consigam chegar ao mercado e reduzir a dependência de financiamento externo permanente, seja através da venda, da filantropia ou de modelos híbridos”.

A continuidade dos projetos é um dos indicadores acompanhados de perto pela equipa. Apesar de reconhecer que não existe uma taxa de sucesso total no empreendedorismo, Nuno Comando destaca que os projetos apoiados pela Casa do Impacto apresentam uma taxa de sobrevivência superior a 70%.
“Alguns dos vencedores das primeiras edições continuam hoje no mercado, embora com ajustamentos, reestruturações e mudanças de nome. Um percurso considerado natural num ecossistema em constante aprendizagem”.
É neste contexto que surge uma das ideias-chave defendidas pelo diretor da Casa do Impacto:
“Mais do que ter medo de errar, é importante aprender a falhar bem, de forma a conseguir levantar e fazer diferente.”
A aprendizagem com o erro é assumida como uma competência essencial. Os programas procuram desenvolvê-la, aumentando as probabilidades de sucesso ao longo do tempo, mesmo quando um projeto específico não se consolida.

Para Nuno Comando, há ainda uma dimensão menos visível, mas decisiva: a comunidade. A convivência diária entre projetos distintos, unidos por uma visão comum de impacto, gera sinergias pouco habituais num ambiente competitivo.
Essa lógica estende-se também às empresas parceiras. Mesmo sendo concorrentes no mercado, colaboram no apoio aos projetos sem reservas estratégicas, sentando-se à mesma mesa para contribuir para soluções com impacto social e ambiental.
No balanço final, o diretor da Casa do Impacto sublinha o privilégio de trabalhar com empreendedores que veem os desafios como oportunidades de transformação. Um trabalho de bastidores que, edição após edição, procura garantir que as ideias não ficam pelo caminho e que o impacto se traduz em soluções concretas no terreno.






