E se um dia o seu negócio muda o mundo?

Na semana passada um amigo comentou que vivemos numa época em que o mundo está a sofrer grandes mudanças. Num tom pessimista que não é nele habitual, identificou, em pouco mais de um minuto, uma vintena de problemas que se agravaram à escala mundial, só nos últimos 20 anos, com a crise económica, a corrupção e as alterações climáticas à cabeça, e a ideia de que falta pouco para que a inteligência virtual dizime a humanidade a fechar. O pior, argumentava, era que não via possibilidade de o mundo melhorar na nossa geração, nem na dos nossos filhos.

Confesso que fiquei abalada. Estou a falar de uma das pessoas mais optimistas e construtivas que conheço e aquele desabafo incomodou-me. E se, disse-lhe eu, tivesses em conta que há também muita gente a trabalhar para ajudar a construir um mundo melhor? Cientistas investigam formas de curar doenças. Muitas pessoas estão a voltar para o interior e a revitalizar a agricultura. Os governos finalmente estão a perceber que o ambiente pode ser uma fonte de rendimento e não só de despesa. E a quantidade de empreendedores que estão a mudar a vida e a construir projetos, inclusivamente na área social?

O problema, dizia ele, é que são muito poucas as pessoas que conseguem fazer alguma coisa. E quando conseguem, fazem-no sozinhas, não procuram parceiros com quem colaborar, o que faz com que mesmo as melhores ideias, quando concretizadas, acabem por ter um impacto muito reduzido. É difícil fazer a mudança à escala global. Face a isto, o que dizer? É verdade. O mundo vai mal.

Fazedores de MudançanMas não desistamos já. Uma busca no Google voltou a animar-me. Afinal, parece que há muita gente ‘out there’ preocupada em dar escala e acelerar as mudanças que cada empreendedor está a desenvolver no seu pedacinho de mundo. Uma das instituições que se destacam é a Ashoka, cujo lema é ‘investing in new solutions for our worlds toughest problems’.

Uma das páginas web disponíveis da Ashoka é o Ashoka Changemakers, uma comunidade que põe em rede os diversos empreendedores, as suas ideias e recursos, para potenciar a colaboração nas áreas do desenvolvimento e prosperidade, ambiente e sustentabilidade, saúde e bem-estar, direitos humanos e igualdade, participação pública, negócio e empresa social, e ainda paz e relações harmoniosas. Aqui é possível ver projetos em desenvolvimento e inscrever o seu próprio projeto, bem como ter acesso a ferramentas e oportunidades interessantes.

A Ashoka procura por todo o mundo as melhores ideias emergentes em desenvolvimento pelos empreendedores sociais mais eficazes e proporciona as condições necessárias para que cada cidadão possa ser um fazedor de mudança. A ideia é criar uma comunidade sem fronteiras que põe em contacto os empreendedores, para que juntos façam muito mais do que fariam sozinhos.

Os fazedores de mudança que a Ashoka acredita que podem de facto contribuir para mudar o mundo são designados ‘fellows’ e os seus projetos são financiados, divulgados e apoiados pela instituição. Em Portugal, temos o exemplo de Miguel Neiva (http://portugal.ashoka.org/fellow/miguel-neiva), que através da criação do CollourAdd contribuiu para a existência de um código universal inclusivo que representa as cores, permitindo às pessoas com daltonismo identificar todas as cores.

Nas palavras de Lee Hamilton, ‘a Ashoka inventou, refinou e implementou globalmente uma adaptação de métodos de venture capital extremamente rigorosa que encontra e ajuda a lançar os melhores empreendedores sociais, as suas ideias e instituições’. Cinco anos após o início dos projetos, 94% continuam em funcionamento, 93% viram os seus modelos replicados por outras organizações e 56% influenciaram a política nacional, estatísticas que dão força à ideia de que quem quer empreender na área social não deve ignorar esta instituição.

Mudar em grandenFazer a mudança numa empresa, num bairro ou numa comunidade requer talento e muito trabalho. É gratificante (e simultaneamente um desafio) pensar que a ideia e o esforço desenvolvido por um empreendedor num pequeno cowork ou no escritório lá de casa pode vir a ser aproveitado por outros empreendedores, por comunidades e por empresas do outro lado do mundo. Isso significa ter uma visão do negócio um pouco diferente do habitual. Se uma ideia é boa, se os resultados aparecem, porque não acreditar que ela pode ganhar dimensão? Se resulta na sua casa, na sua rua, na sua cidade ou no seu país, pode resultar em todo o mundo.

Financiar a mudançanSe o meu amigo estivesse a ler este artigo, poderia sempre argumentar que por muitos pequenos empreendedores brilhantes, e por muitas Ashokas que existam, o impacto da mudança nunca será suficiente, porque o que movimenta o mundo é o dinheiro. Se também pensa assim, convido-o a assistir a este vídeo em que o professor de gestão Michael Porter apresenta o se seu ponto de vista. Ele defende que as empresas estão a perceber que investir na resolução dos problemas da humanidade dá dinheiro. Que o que há a fazer é enfrentar os problemas sociais com um modelo de negócios. Que há que criar valor social e económico ao mesmo tempo, e levá-lo à escala global. Que para isto acontecer, as empresas têm de se envolver com as ONG e os governos. E que as novas gerações que estão a frequentar os cursos de gestão já estão a perceber estas mudanças.

A emergência explosiva do empreendedorismo social, combinada com a força de instituições que unam os empreendedores em redes dinâmicas e concertadas, e ainda com o poder das empresas em busca de lucros, parecem-me ser a receita certa para resolver muitos dos problemas que afligem o mundo. Dar escala ao talento, à criatividade e à combatividade dos empreendedores e canalizar o fluxo de dinheiro para os pontos fulcrais é o caminho certo. Mas o principal é a mudança de mentalidade que tem de ter lugar em cada um de nós. E essa, eu acredito que já está a acontecer. Todos podemos ser fazedores de mudança.

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