O paradoxo da Esquerda

Não é preciso fazer um grande esforço para recordar o que disseram e escreveram proeminentes filósofos e sociólogos da esquerda sobre o advento dos computadores e telemóveis, ou dos media e redes digitais. É surpreendente que muitos dos ideólogos desse campo político, que sonham mudar a sociedade, sejam eles próprios um travão às mudanças, sobretudo quando essas mudanças não coincidem com a forma como veem o mundo. As vozes críticas da esquerda ao Web Summit, e ao empreendedorismo em geral, são um bom exemplo desta discrepância entre a revolução digital e os sonhadores de revoluções sociais.

Não me refiro, naturalmente, ao habitual queixume dos portugueses que, num evento desta natureza e dimensão facilmente encontra problemas para apontar, nem às guerrilhas políticas que produzem críticos consoante o partido que está no poder. Não, eu falo mesmo daquela esquerda que tem horror ao empreendedorismo e para quem a inovação tecnológica se resume a gadgets de consumo, promovido pela sociedade capitalista.

Essa aversão não varia consoante o poder político, nem se alimenta da lamúria típica dos portugueses, mas está bem fundada num conjunto de crenças que se suportam na denúncia da ‘falácia do empreendedorismo’ – e não apenas no livro com o mesmo nome – que na prática resulta ‘de um artifício do poder, para dar um ‘novo brilho’ ao velho capitalismo’. Para a esquerda, empreendedorismo não é mais do que uma retórica para esconder a realidade do desemprego.

É certo que a forma como se ensina ‘empreendedorismo’ nos centros do IEFP, ou noutras instituições vocacionadas para a requalificação de desempregados, contribuem para consolidar essa ideia de ardil, muitas vezes porque a requalificação proposta não se adequa ao perfil das pessoas a que se destina, mas também porque muitas dessas pessoas estão presas numa cultura de dependência que a tornam incapazes de romper o círculo vicioso que as dominam. Mas esses não são empreendedores, nem o que se lhes ensina é empreendedorismo.

Claro que os intelectuais de esquerda sabem muito bem o que é empreendedorismo, e ainda que na exortação moral se refiram à precarização e individualização do trabalho, não confundem trabalho a ‘recibos verdes’ com empreendedores. O que verdadeiramente preocupa esta esquerda é que o crescente número de empreendedores e a multiplicação de microempresas provoca inexoravelmente a diminuição da ‘força das organizações coletivas dos trabalhadores’. Para eles, a ordem do mundo ainda é a velha ordem sindical.

O mundo mudou mas, tal como aconteceu com a mudança das máquinas de escrever para os computadores, os intelectuais de esquerda – mesmo da esquerda moderna, ou ‘caviar’ – continuam presos aos velhos hábitos e tradições. O seu pensamento cristalizou nas palavras impressas na ‘bíblia’ do marxismo. Ter-lhes-ia feito bem, se em vez do responso que murmuraram durante os dias do Web Summit, tivessem lá ido.

Se em vez de se retorcerem, como o diabo frente à cruz, tivessem ido ao Web Summit, talvez os intelectuais de esquerda percebessem que os empreendedores não são uns ferozes capitalistas em perseguição do lucro, mas que são jovens que, na sua maioria partilham os mesmos valores e preocupações sociais e ambientais. Se procurassem ver as propostas de muitas startups encontrariam soluções para melhorar a qualidade de vida de deficientes e idosos e se observassem as equipas que as compõem, veriam que são muito mais inclusivas do que os partidos a que pertencem ou votam.

Sim, há startups que vão ficar pelo caminho, e haverá boas ideias que vão perder-se nos próximos seis meses. É verdade que pertencer a uma família, ou um grupo de elite torna muito mais fácil o acesso às redes facilitadoras de financiamento. Mas se isso é verdade para as startups, também é para a universidades onde os intelectuais de esquerda dão aulas; e lá, como ali no Web Summit, o valor também conta.

Durante quatro dias, 53 mil participantes assistiram a um dos maiores eventos de tecnologia, onde 42% eram mulheres e onde se cruzaram criativos de todo o mundo, convivendo e partilhando ideias, independentemente da sua raça, religião ou inclinação sexual. Cada um dos participantes ficou com uma lista de contatos que dificilmente conseguiria de outra forma. Alguns arranjaram bons amigos, outros encontraram parceiros para os seus projetos. Poucos terão feito bons negócios, mas uma coisa é certa: o Web Summit fez mais por um mundo melhor, do que qualquer vigília de solidariedade, ou protesto, na Praça do Município.

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