Durante anos, a mobilidade laboral foi apresentada como um dos principais motores do crescimento salarial. A lógica parecia simples: quem muda de emprego reforça a sua posição negocial e tende a ganhar mais. Os dados mais recentes do Banco de Portugal mostram, contudo, que essa relação está longe de ser automática. Em Portugal, a mobilidade laboral revela um mercado de trabalho dinâmico, mas também profundamente desigual nos seus resultados salariais.
O estudo Mobilidade laboral e crescimento dos salários em Portugal, baseado em microdados da Segurança Social entre 2010 e 2024, desmonta a leitura agregada de estabilidade. Por detrás de indicadores médios relativamente constantes, existe uma realidade marcada por fluxos intensos de entradas, saídas e transições diretas entre empregos, com impactos muito distintos consoante o perfil do trabalhador e o setor de destino.

Um mercado de trabalho mais turbulento do que parece
A análise evidencia um elevado volume de admissões e separações, que tendem a compensar-se mutuamente e a mascarar o verdadeiro grau de rotação do mercado de trabalho. Em 2024, registaram-se cerca de 1,7 milhões de admissões e 1,6 milhões de separações, valores significativamente superiores aos observados no início da década passada. O mercado é hoje mais fluido, mas também mais exigente.
Uma parte relevante desta dinâmica resulta de transições diretas entre empregos, as chamadas transições job-to-job. Tradicionalmente associadas à progressão salarial, estas mudanças continuam a desempenhar um papel importante, mas a sua eficácia enquanto mecanismo de melhoria de rendimentos tem vindo a diminuir para uma parte crescente dos trabalhadores.

Quando mudar não significa ganhar
Um dos resultados mais reveladores do estudo é claro: em 2024, 41,2% dos trabalhadores que mudaram de emprego não registaram qualquer aumento salarial. Trata-se do valor mais elevado desde 2011. Em muitos casos, a mudança traduziu-se apenas na manutenção do salário anterior ou, em situações menos frequentes, numa redução nominal.
Apesar de a variação média dos salários associada à mobilidade continuar a ser positiva, essa média esconde uma forte assimetria. Um grupo relativamente pequeno de trabalhadores capta aumentos significativos, enquanto a maioria regista ganhos nulos ou muito modestos. A mobilidade mantém-se como uma oportunidade para alguns, mas deixou de funcionar como garantia generalizada de progressão salarial.

Quem beneficia da mobilidade
A análise econométrica ajuda a clarificar esta divergência. Sem ajustamentos, os trabalhadores que mudam de emprego apresentam salários cerca de 10% superiores aos que permanecem na mesma empresa. No entanto, quando se controlam características individuais e das empresas, esse prémio reduz-se para cerca de 1%.
O resultado é inequívoco: a maior parte do ganho salarial associado à mobilidade reflete características do próprio trabalhador como qualificações, experiência, perfil profissional ou capacidade de negociação, e não a mudança de emprego em si. A mobilidade funciona sobretudo como um mecanismo de seleção, beneficiando quem já parte de posições mais fortes no mercado de trabalho.
As diferenças tornam-se ainda mais evidentes quando se consideram género, nacionalidade e setor de atividade. Os trabalhadores estrangeiros, cujo peso nas transições aumentou de forma significativa na última década, registam em média ganhos salariais inferiores aos dos trabalhadores nacionais. As mulheres, embora cada vez mais presentes nas transições entre empregos, só recentemente começaram a aproximar-se dos ganhos médios dos homens. Já os prémios mais elevados concentram-se nas transições para setores com salários acima da média, como tecnologias de informação, serviços financeiros ou atividades de consultoria.

O que estes dados dizem às empresas e aos decisores
Os resultados do estudo têm implicações diretas para a gestão de pessoas e para a leitura estratégica do mercado de trabalho. A mobilidade é um sinal de dinamismo e pode contribuir para uma reafetação mais eficiente de recursos, mas não substitui políticas de qualificação, progressão interna e valorização do capital humano.
Para as empresas, os dados sugerem que a retenção de talento exige mais do que ajustamentos salariais pontuais. Percursos de carreira claros, oportunidades de desenvolvimento e competitividade setorial continuam a ser determinantes. Para os decisores públicos, o estudo indica que políticas assentes apenas na mobilidade dificilmente reduzem desigualdades salariais ou promovem ganhos sustentados de produtividade.
O mercado de trabalho português é hoje mais móvel, mas também mais seletivo. E os dados confirmam uma realidade que contraria a perceção dominante: mudar de emprego pode abrir oportunidades, mas já não é, por si só, sinónimo de ganhar mais.






