Biotecnologia e luxo sustentável: o reposicionamento estratégico da Lenera

Startup portuguesa Lenera aposta na biotecnologia e luxo sustentável, reposiciona-se no mercado e abre ronda seed de 1,8 milhões de euros.

Na foto: Maria João Maia, CEO e Co-Fundadora e Margot Muller Co-Fundadora

A biotecnologia começa a ganhar um novo espaço na transformação da indústria do luxo, pressionada por critérios ambientais, éticos e regulatórios cada vez mais exigentes. É neste contexto que surge a Lenera, nova identidade da antiga Corium Biotech, uma startup portuguesa que aposta em biomateriais celulares como alternativa ao couro exótico tradicional e que acaba de abrir uma ronda de financiamento seed de 1,8 milhões de euros.

O reposicionamento da empresa não se limita a uma mudança de nome. Representa uma redefinição estratégica do seu posicionamento num mercado global onde as marcas de luxo procuram conciliar tradição, desempenho material e sustentabilidade, sem comprometer a exclusividade que define o setor.

Na foto: Maria Maia / Lenera

Da investigação científica à ambição industrial

A Lenera nasce de um percurso académico e científico. As fundadoras, Maria João Maia, CEO, e Margot Muller, desenvolveram o projeto a partir de investigação em biotecnologia celular, com o objetivo de criar biomateriais de elevada performance através de processos de agricultura celular. A ambição não passa por desenvolver substitutos sintéticos, mas por produzir materiais biologicamente equivalentes, com propriedades ajustáveis às exigências da indústria do luxo.

Segundo Maria João Maia, a estratégia da empresa assenta na criação de uma tecnologia “agnóstica”, capaz de trabalhar com diferentes linhas celulares, permitindo adaptar o material final às necessidades de cada aplicação. Esta abordagem procura responder a um dos principais dilemas do setor: manter a qualidade estética e funcional associada ao couro exótico, reduzindo simultaneamente o impacto ambiental e ético da sua produção.

Na foto: As cofundadoras Maria Gonçalves Maia, CEO e Margot Muller, COO & CBO e João Pinto, CCO da Lenera

Um mercado em transformação estrutural

A aposta da Lenera surge num momento em que o luxo enfrenta uma transformação estrutural. A pressão regulatória sobre cadeias de abastecimento, a crescente exigência dos consumidores em matéria de sustentabilidade e a necessidade de reduzir riscos reputacionais estão a levar grandes marcas a procurar soluções alternativas aos materiais de origem animal mais sensíveis.

Neste cenário, os biomateriais celulares posicionam-se como uma possível resposta de médio e longo prazo, ainda numa fase inicial de maturidade industrial. O desafio não é apenas tecnológico, mas também económico: escalar produção, garantir consistência, controlar custos e integrar estes materiais em cadeias de valor altamente exigentes.

É precisamente nesta transição do laboratório para a escala piloto que a Lenera pretende concentrar o investimento agora anunciado.

Uma ronda seed com objetivos claros

A ronda de financiamento seed de 1,8 milhões de euros tem como objetivo acelerar dois eixos centrais da estratégia da empresa. Por um lado, a industrialização do processo, através da automação e da criação de uma unidade piloto que permita validar a produção em ambiente semi-industrial. Por outro, o reforço da investigação e desenvolvimento, com a expansão e caracterização de um banco celular próprio.

A empresa procura investidores alinhados com uma visão de longo prazo, num segmento onde os ciclos de desenvolvimento são mais longos e a criação de valor depende da solidez científica e da capacidade de execução industrial.

Foto de Lenera Biotecnology

Liderança científica num setor de risco elevado

Ao contrário de muitas startups orientadas para ciclos rápidos de mercado, a Lenera opera num domínio de elevado risco tecnológico e regulatório. A sua proposta exige uma liderança capaz de articular ciência, engenharia, indústria e estratégia de negócio.

Esse é um dos elementos centrais do reposicionamento da empresa: afirmar-se não apenas como um projeto científico promissor, mas como uma organização preparada para dialogar com a indústria do luxo, investidores e parceiros industriais, num mercado global altamente competitivo.

Mais do que uma mudança de identidade, a criação da Lenera sinaliza a tentativa de ocupar um espaço emergente onde inovação profunda, sustentabilidade e valor económico se cruzam. O sucesso desta aposta dependerá da capacidade de transformar ambição científica em execução industrial, o verdadeiro teste para qualquer startup deep tech.

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