Num momento em que muitas organizações exibem indicadores financeiros robustos, o maior risco pode estar precisamente no que não chega à mesa do CEO. Em entrevista ao Empreendedor, Farias Souza, CEO da Board Academy, partilha uma visão crítica sobre liderança, governança e uso estratégico da inteligência artificial, numa conversa conduzida por Bruno Perin, para o Empreendedor. A partir da sua experiência entre grandes operações de retalho e conselhos de administração, o executivo defende que equipas que filtram problemas para “proteger” a liderança estão, muitas vezes, a preparar o fracasso de amanhã.

Cultura, ritmo e decisões imperfeitas
Para Farias Souza, o planeamento estratégico continua a ser essencial, mas está longe de ser suficiente. “O planeamento estratégico é só metade do caminho. Vinte por cento das decisões vêm da cultura — o CEO precisa respirar isso — e o resto é dar ritmo”, afirma. Na sua leitura, a paralisia por análise tornou-se um vício perigoso em mercados voláteis. Esperar pela decisão perfeita pode significar perder o momento certo. Uma decisão não tomada, sublinha, é também uma decisão, muitas vezes com custos elevados.
Esta lógica obriga os líderes a aceitarem um grau maior de imperfeição consciente, compensado por velocidade de execução e capacidade de ajustamento. O risco real, sustenta, não está em errar numa aposta calculada, mas em ficar bloqueado enquanto o contexto muda.

O CEO fechado na operação e o perigo do curto prazo
Outro erro recorrente, segundo Farias, é o líder consumido pela operação quotidiana. “O CEO fica fechado apenas nos resultados de agora. Não põe a cabeça fora para perceber o que está a acontecer no mercado”, alerta. Esta miopia estratégica explica por que razão empresas com bons resultados acabam por colapsar: não por falharem na execução, mas por não anteciparem a mudança.
O problema agrava-se quando existe um “departamento de boas notícias”, isto é, estruturas internas que filtram informação para não incomodar a liderança. “No mundo dos negócios, não existem novos erros — existem novas pessoas a cometer os mesmos erros de outros”, recorda. Quando os sinais de alerta chegam ao topo, muitas vezes já não há margem de manobra.

Dados, inteligência artificial e governança activa
No campo da inteligência artificial, Farias Souza estabelece uma distinção clara entre empresas que têm dados e empresas que têm apenas “bando de dados”. “A maioria tem relatórios espalhados, mas não dados estruturados que uma IA consiga transformar em insight”, explica. Na Board Academy, ferramentas de IA já são usadas para cruzar planeamento estratégico, OKRs e análise de desempenho, abrindo novas oportunidades de criação de valor.
A mesma lógica aplica-se à governança. Conselhos de administração que incorporam diversidade geracional e competências tecnológicas conseguem antecipar disrupções em vez de apenas reagir a riscos. “O board é o novo C-level. Não adianta ter só experiência nem só juventude. É a combinação que cria visão”, defende.
No final, a questão central mantém-se simples e incómoda: “a liderança está realmente a ver a empresa como ela é, ou apenas a versão filtrada que lhe querem mostrar?“







