Em Portugal os investidores são demasiado conservadores

A BGI – Building Global Innovators, é uma aceleradora orientada para o desenvolvimento de empresas com soluções tecnológicas de forte potencial de crescimento. O conceito é apadrinhado pelo MIT – Massachusetts Institute of Technology e em Portugal a Building Global Innovators é coordenada pelo ISCTE -IUL e financiada pela Caixa Capital, a sociedade gestora de fundos de capital de risco da CGD. A aceleradora reúne ainda oito universidades portuguesas de Engenharia e Ciência.

O processo de aceleração inicia-se com candidaturas de equipas com ideias inovadoras nas áreas tecnológicas, e ao longo de quatro meses os candidatos recebem uma formação intensiva para pôr em marcha os seus projetos. O ponto alto é o ‘Demo Day’, quando as equipas apresentam aos investidores os seus projetos. Porém, como explica o diretor executivo da BGI, Gonçalo Amorim, o interesse dos investidores não significa entrada imediata de investimento. Nesse aspeto, a realidade portuguesa está bem longe da imagem veiculada pelos programas de televisão.

Enquanto nos EUA um investidor sinaliza desde logo no ‘Demo Day’ o seu interesse numa empresa, em Portugal ainda não é nesse momento que as empresas recebem capital de um investidor. ‘Na verdade, em matéria de capital de risco, Portugal não é muito diferente da Europa. Quando comparada com os Estados Unidos, a Europa é mais conservadora’ sublinha Gonçalo Amorim. ‘Na Europa mede-se o risco e só depois se faz o investimento de capital de risco; nos EUA olha-se mais para a oportunidade e menos para o risco. Enquanto os investidores europeus se interrogam ‘o que é que eu posso perder‘ nos EUA pensa-se mais em ‘o que é que eu posso ganhar com a oportunidade. Esta diferença explica porque é que Israel é o segundo melhor mercado de capital de risco do mundo e não a União Europeia, acentua o diretor executivo da BGI. ‘Lá eles têm uma cultura empresarial semelhante aos EUA, com uma diáspora muito ativa que desenvolveu uma rede de contatos não apenas de investidores, mas também de conhecimento que fez que já estejam na segunda geração de empreendedores, e sobretudo de empresas que já geram retorno’.

‘Um investidor não faz dinheiro quando investe, mas quando desinveste; é quando se vende ações que se ganha na bolsa! Do mesmo modo os investimentos feitos precisam de dar resultados. É na execução que se mede o sucesso’ sublinha Gonçalo Amorim. Mas sem coragem de investidores dispostos a arriscar, não há ganhos nem retorno. ‘Portugal pode estar na moda, ser trendy; Lisboa pode estar no mapa e ser sexy, mas isso não basta para consolidar o ecossistema. É preciso criar massa crítica, e os investidores ainda são muito cautelosos’ lamenta o diretor executivo da BGI.

Gonçalo Amorim BGI

A BGI fecha a 30 de abril as candidaturas de projetos empresariais para a 7ª edição da aceleradora de tecnologias. Para os empreendedores que não conseguiram entregar dentro do prazo a sua candidatura à edição deste ano, haverá ainda uma segunda oportunidade. ‘Este ano criámos duas deadlines: a primeira que termina em abril, e que é para os projetos que já têm trabalho feito. Para os outros, que ainda precisam de desenvolver mais a sua proposta de valor, haverá uma segunda call mais tarde’, adianta Gonçalo Amorim. ‘Para nós também é uma vantagem esta segunda chamada. Por um lado porque, se é verdade que nós vamos tentar preencher todas as vagas logo na primeira chamada, também é certo que no processo de avaliação das candidaturas, alguns projetos ficarão pelo caminho, ou porque não reúnem todos os requisitos, e vão ficar ali a ‘marinar’ até à segunda call, ou porque não conseguem ultrapassar a border line‘, nessa altura haverá espaço para outros que poderão ainda entrar, sublinha o diretor executivo da BGI.

O programa de aceleração da Building Global Innovators está aberto a empreendedores na área tecnológica, startups e jovens empresas que estejam a desenvolver projetos com base tecnológica numa das quatro áreas de especialização da BGI: Medical Tech & Health IT; Smart Cities & Industrial Tech; Enterprise IT & Smart Data; e Ocean Economy. Serão selecionados no máximo 16 projetos empresariais que receberão 1.150 horas de apoio estimado em 1 milhão de euros. Um destes projetos é candidato a um investimento de capital de risco de 100.000 euros, atribuído pela Caixa Capital, parceiro financeiro do BGI.

O processo de aceleração acontece em três fases, na primeira os projetos selecionados participam em dois bootcamps em Lisboa e num evento de speed dating que coincide com a primeira apresentação à rede de parceiros BGI. Na segunda fase, os participantes são acompanhados durante quatro meses em reuniões semanais de mentoring. Esta fase termina com a avaliação final numa sessão internacional de investimento. Na terceira fase de aceleração, as equipas que passaram o processo de avaliação participam numa formação no MIT, em Boston, nos Estados Unidos.

A fase de avaliação das candidaturas é crítica no processo de aceleração da BGI: ‘nós ficamos com o direito de 3% do capital das empresas e, portanto, também há questões legais a acautelar antes de eles entrarem’ explica Gonçalo Amorim. Com efeito, nenhuma equipa é aceite sem ter concordado com os termos do concurso, que implica a cedência de parte do capital. ‘Não somos só nós que teremos de estar interessados na equipa, é também a equipa quem tem de estar interessada em nós’. É preciso ultrapassar todas as questões legais no registo de propriedade antes de anunciar as equipas que vão participar na edição deste ano, o que só deverá acontecer na última semana de junho.

Serão escolhidas três a quatro equipas por cada área de especialização da BGI, num total de 12 a 16 equipas selecionadas. ‘Como tomamos parte do capital, temos interesse em projetos onde há um alinhamento perfeito’ adianta Gonçalo Amorim. ‘Agora já há muitas aceleradoras, não precisamos de dar tanto trabalho pro bono à sociedade e podemos aumentar a qualidade e, desse modo também assegurar a nossa estabilidade financeira’.

Ultrapassada a fase burocrática, as equipas concorrentes reúnem-se pela primeira vez num bootcamp, na prática, trata-se de uma semana de trabalho intenso que envolve 30 a 40 mentores que vão debruçar-se sobre as equipas. ‘Nessa semana os concorrentes aprendem imenso e evoluem o equivalente a três ou seis meses de uma formação normal‘. No bootcamp as equipas têm numerosas reuniões de trabalho sobre temáticas relacionadas com a gestão do negócio ou dos recursos humanos, mas também inovação tecnológica, benchmarking ou concorrência.

‘O que lhes damos nesta altura são ferramentas e processos que permitam ao empreendedor poupar recursos e tempo – desde logo porque o tempo é um recurso que não se recupera – e o que nós procuramos fazer nesta semana é transmitir-lhes todo o conhecimento que temos, de uma forma muito condensada, em 15 horas diárias, mas numa partilha personalizada, orientada por mentores’. A partir daqui as equipas iniciam uma relação com os seus mentores – podem ser 2 ou 3 por cada equipa – que os vão acompanhar ao longo de quatro meses, numa base semanal. ‘Nessa fase damos os fundamentos e definimos as metas para o trabalho que terá de ser feito’ diz o diretor executivo da BGI. Entre o primeiro e o segundo bootcamp (que acontecerá em novembro) as equipas desenvolvem com os seus mentores os fundamentos do seu projeto, validando os pressupostos e estudando e testando o mercado.

O segundo bootcamp é para preparar o ‘Demo Day’. ‘É a altura de definir, ou como nós dizemos, de ‘limpar o pitch’, ou seja a mensagem aos investidores, trabalhando a comunicação, mas também a deontologia’. Corrigir os erros e apresentar um discurso claro é meta para os concorrentes, antes da apresentação final do projeto. ‘Os investidores não gostam de ver espinhas no peixe. Gostam de ver as coisas limpinhas, e nós temos de ter a certeza que nesta altura as equipas já definiram a estratégia’ explica Gonçalo Amorim. ‘No segundo bootcamp só estamos a pensar em execução! A quem é que vamos vender o projeto? Quais são os objetivos e quais são as perspetivas de negócio, etc. É uma espécie de escada: nós vamos subindo em complexidade, mas é uma escada que tem uma estrutura pensada e não é o resultado da imaginação’, sublinha.

Finalmente o ‘grande dia’ é o ‘Demo Day‘ de 4 de novembro, quando se apresentam os projetos aos investidores e onde são conhecidos os melhores projetos em cada uma das quatro categorias. Há ainda outro evento, em fevereiro de 2017, promovido pela Caixa Capital e pelo grupo CGD, onde será selecionado o vencedor da edição BGI deste ano. Esse vencedor será selecionado pela Caixa Capital para receber um investimento de capital de risco, mas o processo não termina aí.

Todas as equipas passam à fase II ou fase Venture. ‘Enquanto a primeira fase é de planeamento, teste e validação, esta é a fase de execução do plano. É quando se gasta dinheiro a sério, mas onde se espera também ganhar dinheiro a sério. Já não estamos na fase de protótipos ou de piloto de empresas, mas da internacionalização‘ adianta Gonçalo Amorim.

Em todos os momentos de seleção as candidaturas são avaliadas por um grupo de jurados que inclui peritos nas quatro áreas de especialização da BGI, bem como por membros da organização. Os aspetos mais valorizados são a composição da equipa; o problema que se propõe resolver; a tecnologia em que assenta a solução; o caráter inovador do produto; a oportunidade de mercado e o modelo de negócio.

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