Lara Vidreiro: “A sorte dá muito trabalho”

No escritório de Lisboa, Lara Vidreiro, uma das fundadoras da Chic by Choice, contou ao Empreendedor.com como é que duas estudantes de 22 anos conseguiram criar uma das startups portuguesas mais promissoras. A outra fundadora, Filipa Neto, trabalha a partir de Londres, onde gere as parcerias com as marcas.

Uma boa gestão de custos, uma forte aposta no Marketing Digital, um trabalho constante de relação com as marcas e um conceito totalmente global foram os ingredientes que as empreendedoras utilizam para o sucesso da Chic by Choice.

Como surgiu a vossa ideia de negócio?

Eu e a Filipa estávamos na faculdade (Universidade Católica) quando tivemos a ideia de criar uma startup que pudesse dar às mulheres aquilo que era um pouco a nossa necessidade: ter acesso a vestidos para ocasiões especiais sem, contudo, ter de os comprar.n O passo seguinte foi participarmos no concurso de empreendedorismo da Acredita Portugal, onde acabámos por ser as premiadas entre três mil projetos. A partir desse momento, percebemos que a nossa ideia ‘tinha pernas para andar’. O plano de negócios, o plano de marketing, entre outras questões, foram validados por um júri bastante reconhecido.

Como se deu o arranque do negócio?

Desde o início, decidimos que iríamos fazer um lançamento em grande em vez de um teste com dez vestidos, porque isso mataria o negócio mesmo antes de este existir.

O nosso primeiro mercado foi o Reino Unido e é hoje o principal. Lançámos a plataforma para a indústria no final de maio de 2014, no Decoded Fashion London, um dos eventos mais relevantes a nível de moda e tecnologia. A ida a este evento foi muito importante para termos a cobertura jornalística dos principais média. O objetivo era, por um lado, testarmos a plataforma com pessoas da indústria; por outro, conseguirmos a atenção de algumas publicações jornalísticas importantes, como o TechCrunch e outras, para termos credibilidade perante as nossas primeiras clientes.

Desde o início apostaram sempre muito na Comunicação e no Marketing, certo?

A agência de comunicação que contratámos em Londres para o nosso lançamento foi preponderante para o nosso sucesso. Quando não temos contactos num determinado mercado, é essencial juntarmo-nos a alguém que os tenha, foi isso que fizemos. Depois, trabalhámos com outra agência muito à base do Marketing Digital, porque as nossas clientes estão nas redes sociais. Hoje em dia, já temos uma equipa interna de Marketing Digital.

Outro fator que contribuiu para o nosso sucesso foi o facto de termos contratado uma pessoa para fazer a comunicação dirigida aos investidores. Foi assim que conseguimos uma segunda ronda de financiamento.

No Reino Unido, adquiram os ativos do vosso principal rival…

Comprámos em leilão os ativos (vestidos e base de dados) da Wish Want Wear, que estava em processo de falência, o nosso principal concorrente no Reino Unido, conseguindo assim puxar para a Chic by Choice as antigas clientes desta empresa.

Que estratégias utilizaram para entrar nos outros mercados europeus?

O que acontece é que a partir do momento em que somos relevantes num mercado como o Reino Unido, onde tudo é em inglês, os outros mercados vêm atrás. Fizemos testes em alguns mercados, mas sabemos que as clientes vieram sobretudo por recomendação. Já tivemos reservas de 12 países europeus. Em Portugal, tínhamos muitos contactos, portanto foi relativamente fácil. A Chic by Choice saiu também em publicações italianas e francesas, o que foi importante.

Recentemente, adquirimos a nossa principal concorrente na Alemanha, La Remia, o que possibilitou ficarmos com as antigas clientes da empresa. As fundadoras da La Remia, que são agora nossas consultoras, também nos abriram bastantes portas no mercado alemão.

Onde foram buscar financiamento?

Inicialmente, fomos apoiadas por business angels da indústria. Mais à frente, recebemos financiamento da Portugal Ventures, da Faber Ventures e do The Edge Group. A participação da Faber Ventures foi especialmente importante, não só pelo investimento, mas muito pelo acompanhamento que nos deu nas várias áreas do negócio e pela rede de contactos, nacional e internacional, que passámos a ter disponível.

Em agosto, tivemos uma segunda ronda de financiamento onde alcançámos 1,5 milhão de euros. Os investidores foram as mesmas três empresas de capital de risco e ainda alguns business angels do setor da indústria, como é o caso de Paulo Pinto, diretor executivo da La Redute.

Qual é a vossa estratégia de comunicação?

Continuamos muito focadas no Marketing Digital para conquistar novas clientes, mas, sobretudo, para fidelizar as que já existem. Estamos em todas as redes sociais: Instagram, Facebook, LinkedIn, Pinterest. No entanto, a nossa arma é o email marketing porque é através desta ferramenta que damos a conhecer as novidades, que informamos as nossas clientes acerca das promoções e que as felicitamos nas datas de aniversário. Tudo o que é muito visual funciona muito bem, por isso temos uma aposta forte no Instragram. Estamos também a desenvolver conteúdos sobre moda no nosso site, possibilitando que as clientes venham até nós não só para alugar vestidos, mas também para conhecer as tendências ou tirar dúvidas com a nossa stylist, um serviço que proporcionamos gratuitamente. Queremos ter uma oferta mais alargada.

A estratégia é crescer nos mercados onde já estão presentes ou entrar em novos?

Queremos continuar a apostar no nosso mercado mais forte, o Reino Unido, e, agora, com a aquisição da La Remia, também na Alemanha. Pretendemos ainda explorar mais o mercado português.

Quais são os vossos principais mercados?nReino Unido, Irlanda, Portugal e França, por esta ordem.

Ouvi a Lara falar num dos painéis do Dia da Mulher Empreendedora. Disse que gostava de saber programar. Porquê?

Eu e a Filipa costumamos dizer que temos pena de não percebermos de programação, porque, como não temos experiência na execução deste tipo de tarefas, nem sempre calculamos bem os timings. Contudo, temos uma equipa fantástica – que vamos aumentar no mês de dezembro — que preenche as nossas lacunas.

É importante participarem nos eventos do setor?

Sem dúvida, porque é nesses locais que se formam as relações com as pessoas da indústria, que são essenciais para nós, desde a editora de uma revista de moda, o retailer de uma marca até o investidor que, mais à frente, pode vir a investir na nossa empresa.

Um dos nossos segredos é vermos à frente. Analisamos o resultado que um determinado investimento pode ter não amanhã, mas daqui a um ano. É muito importante criarmos relações com os colegas da nossa indústria porque em algum momento da sua existência a Chic by Choice vai precisar destas pessoas.

A concorrência é forte?

Existem alguns players, mas os mais fortes já os adquirimos (risos).

Aprenderam com as falhas dos vossos concorrentes?

Sim. Os nossos concorrentes tentavam adivinhar o que as clientes queriam com oito meses de antecedência, o que se revelou uma má política. Ao contrário, nós vamos adquirindo os vestidos conforme a procura que temos. Também percebemos, sobretudo com a experiência da Wish Want Wear, que o Marketing offline não era o mais eficaz para este tipo de negócio.

Como trabalham com as marcas?

Temos parcerias que nos permitem comprar os vestidos com desconto. Antes, adquiríamos as peças no início das coleções, depois percebemos que se as comprássemos no final das coleções não fazia grande diferença. Neste momento, temos um stock de mais de mil vestidos. As relações com as marcas são de extrema importância para o nosso negócio.

O vosso sucesso deve-se também ao fator sorte?

O nosso sucesso deve-se sobretudo ao trabalho. Ao sermos mulheres e, a data em que lançámos a Chic by Choice, muito jovens, precisámos de provar duas ou três vezes mais. Costumamos dizer que a sorte dá muito trabalho. As coisas são sempre mais difíceis e demoram mais tempo do que pensamos inicialmente.

Qual é então o segredo do vosso sucesso?

O segredo é o grande trabalho que a sorte dá… é tentarmos fazer sempre um pouco mais do que aquilo que nos é pedido. Além disso, é termos paixão por o que fazemos. Este é o segredo para estarmos no sítio certo à hora certa e com os resultados certos.

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