Bioenergia avançada em Portugal já é solução madura, mas enfrenta desafios de escala, investimento e coordenação regulatória.
Em entrevista ao Empreendedor, Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada (ABA), defende que a bioenergia já é uma solução tecnicamente madura para a descarbonização, mas alerta que o setor continua dependente de escala industrial e de maior coordenação entre políticas públicas e investimento.
A bioenergia avançada deixou de ser uma promessa tecnológica para assumir um papel concreto na transição energética. Segundo Ana Calhôa, Secretária-Geral da Associação de Bioenergia Avançada, trata-se hoje de uma solução com aplicação imediata, sobretudo em setores onde a eletrificação ainda não oferece resposta viável, como a mobilidade pesada, o transporte marítimo ou a indústria.
“A bioenergia avançada representa hoje um dos vetores com maior capacidade de mobilização de investimento na transição energética”, afirma. No entanto, acrescenta, o desafio deixou de estar na validação tecnológica e passou a centrar-se na capacidade de implementação em escala.
Entre o investimento e a escala industrial
Apesar da crescente atenção por parte de investidores, o setor ainda não apresenta uma leitura consolidada do volume total de investimento. “Falamos de centenas de milhões de euros em projetos-piloto, em reestruturações industriais e em inovação tecnológica”, refere Ana Calhôa, sublinhando que a dispersão dos projetos e a fase de desenvolvimento em que muitos se encontram dificultam uma quantificação mais precisa.
Este cenário traduz um setor em crescimento, mas ainda numa fase intermédia entre experimentação e consolidação. A existência de capital e interesse não se traduziu ainda numa capacidade instalada proporcional ao potencial identificado.
Ainda assim, começam a surgir sinais de escala futura. Um dos exemplos apontados é o complexo de HVO em Sines, com uma capacidade prevista de 460 mil toneladas por ano. No segmento do biometano, projetos em desenvolvimento em Aljustrel, Santarém, Monforte e Sousel deverão contribuir com centenas de GWh anuais, reforçando a produção a partir de resíduos e subprodutos.
Para Ana Calhôa, estes projetos demonstram que a bioenergia avançada está a entrar numa nova fase. “O desenvolvimento de soluções como o biometano é particularmente relevante neste momento, pois promove maior autonomia e segurança energética”, afirma.
Um papel crescente na matriz energética
De acordo com dados do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), os biocombustíveis produzidos a partir de matérias-primas avançadas já apresentam impactos relevantes no sistema energético nacional. Em 2023, permitiram reduzir em 88,2% as emissões de CO₂ por tonelada e substituir 67,6% do equivalente em toneladas de petróleo no consumo energético.
Estes números reforçam a posição da bioenergia avançada como uma solução estrutural, não apenas para a mobilidade, mas também para a indústria e o consumo doméstico. No plano europeu, o enquadramento regulatório aponta para um aumento da incorporação de energias renováveis, com metas de 49% no consumo final bruto até 2030 e uma quota de 29% no setor dos transportes.
Neste contexto, os biocombustíveis avançados e o biogás deverão representar uma parcela crescente, com uma meta específica de 5,5% no fornecimento energético ao setor dos transportes.
O bloqueio silencioso da execução
Apesar do enquadramento favorável e do potencial identificado, a evolução do setor continua condicionada por fatores que extravasam a tecnologia. Para Ana Calhôa, o principal desafio está na articulação entre os diferentes agentes.
“A concretização depende de um maior alinhamento entre empresas e autoridades governamentais”, afirma, referindo que a transição energética nos transportes exige investimentos significativos, revisão de infraestruturas e um esforço coordenado entre setor público e privado.
A ausência de um entrave regulatório específico identificado revela, na prática, um bloqueio mais difuso, relacionado com processos, coordenação e velocidade de decisão. É nesse ponto que o setor enfrenta o seu principal desafio: transformar capacidade potencial em impacto real.
Num momento em que a sustentabilidade assume um papel central nas políticas energéticas, a bioenergia avançada surge como uma solução pronta. No entanto, como sublinha Ana Calhôa, o seu verdadeiro impacto dependerá da capacidade de transformar projetos em escala industrial e de garantir um enquadramento que permita acelerar essa transição.