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Caterina Foá: «Partilhar uma ideia ajuda-a a crescer»

José Mendes
José Mendes
Empreendedorismo
3 Jun 2026

Casa do Impacto acelera projetos de sustentabilidade em fase inicial através do programa Triggers.
Em entrevista ao Empreendedor, Caterina Foá, Entrepreneur Trainer convidada na Casa do Impacto, explica como o programa Triggers apoia projetos em fase inicial ligados à sustentabilidade. A conversa contou também com André Grácio, cofundador da Empresta Aí, e Luís Serra, cofundador da RA-RO, dois empreendedores que passaram por diferentes edições do programa.

A Casa do Impacto, hub de incubação e aceleração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, tem no Triggers um dos seus programas dirigidos a projetos em fase inicial. A iniciativa centra-se em soluções com impacto ambiental e de sustentabilidade, acolhendo desde ideias ainda pouco estruturadas até startups já com maior maturidade.

“O Triggers é um programa que tem uma vertente específica para a área ambiental da sustentabilidade”, explica Caterina Foá, Entrepreneur Trainer convidada na Casa do Impacto, em entrevista ao Empreendedor. A componente social, acrescenta, é trabalhada noutros programas da Casa do Impacto, como o RISE. No caso do Triggers, a atenção recai sobre projetos capazes de gerar benefícios ambientais, seja pela redução de poluição, pela diminuição de desperdício, pela otimização de processos produtivos ou pela utilização mais eficiente de recursos.

A conversa juntou também dois empreendedores ligados a esse percurso. André Grácio, cofundador da Empresta Aí, participa na atual edição do Triggers com uma plataforma tecnológica dedicada ao aluguer de produtos. Luís Serra, cofundador da RA-RO, passou pela edição anterior com um projeto que procura identificar, valorizar e distribuir produtos raros, técnicas tradicionais e saberes artesanais em risco de desaparecimento.

  • O empreendedorismo exige compromisso, persistência e capacidade de aprendizagem




Um programa para ideias ainda em construção

Segundo Caterina Foá, o Triggers foi desenhado para acolher projetos em early stage. Isso significa que o programa não procura apenas startups, com produto fechado ou modelo de negócio consolidado. Pelo contrário, admite pessoas que chegam ainda com uma ideia inicial e precisam de apoio para a transformar numa proposta mais estruturada.

“Queremos exatamente até pessoas que tenham apenas uma ideia”, afirma. Ainda assim, Caterina Foá nota uma evolução no perfil dos candidatos. À medida que o ecossistema português de empreendedorismo ganha maturidade, também os projetos que chegam à Casa do Impacto surgem mais preparados.

A estrutura do programa reflete essa lógica de progressão. Numa primeira fase, são acolhidos 30 projetos durante dois dias de trabalho. Depois, um júri seleciona 10 projetos para 10 semanas de aceleração. No final, uma nova apresentação reduz o grupo a três finalistas, que permanecem ainda três meses na Casa do Impacto.

Para Caterina Foá, esta intervenção numa fase inicial pode ser determinante. Ajudar um projeto quando ainda está a definir os seus princípios, impacto, proposta de valor e direção estratégica pode alterar de forma profunda o seu desenvolvimento. “Esta ajuda inicial é fundamental na estrutura do projeto”, sublinha.

Para a mentora, esta dimensão é particularmente relevante quando os projetos juntam impacto ambiental, tecnologia e bens físicos. É o caso da Empresta Aí, que cruza economia circular, marketplace e aluguer de equipamentos. É também o caso da RA-RO, que trabalha com produtos físicos, artesãos, logística, curadoria e educação do consumidor.



Partilhar ideias antes de as proteger

Um dos pontos centrais da entrevista foi a importância da partilha numa fase inicial do percurso empreendedor. Caterina Foá rejeita a ideia de que os fundadores devam guardar a sua ideia de forma excessivamente fechada antes de a testar, discutir e melhorar.

“As ideias são um bem que não tem o problema da soma zero”, afirma. “Se eu partilhar a minha ideia consigo, eu não fico sem ela.” Pelo contrário, defende, a partilha permite receber contributos, identificar fragilidades e até abrir caminho a novas formas de desenvolvimento do projeto.

Essa cultura de abertura é uma das marcas que a Casa do Impacto procura criar. Apesar de existir competição entre os projetos, a dinâmica do programa favorece a colaboração, a entreajuda e a criação de redes. Luís Serra, cofundador da RA-RO, recorda que os participantes estavam todos a competir, mas também “numa aventura e numa viagem”, onde as recomendações e as dicas surgiam de forma orgânica.

André Grácio, cofundador da Empresta Aí, aponta no mesmo sentido. Para o empreendedor, o valor do programa não está apenas na competição, mas no contacto com outros projetos, mentores e stakeholders que podem completar estratégias, abrir portas e acelerar decisões.

Caterina Foá destaca ainda a ligação entre diferentes edições do programa. A Casa do Impacto permite que projetos mais antigos entrem em contacto com novas equipas, criando colaborações que dificilmente surgiriam sem esse espaço comum. “Sem esta casa, no fundo, talvez não teria sido possível”, refere.



Lisboa, território e maturidade do ecossistema

A entrevista também abordou a centralização do ecossistema empreendedor em Lisboa. André Grácio, que vem da Guarda, reconhece que o interior está a evoluir na área do empreendedorismo, mas considera que Lisboa continua a oferecer maior maturidade, proximidade a parceiros e capacidade de aceleração.

No caso da Empresta Aí, essa concentração teve impacto direto na estratégia. A maioria das empresas parceiras da plataforma está em Lisboa, o que tornou a presença na Casa do Impacto uma decisão prática e estratégica.

Já a RA-RO tem uma realidade diferente. A equipa está sediada na região de Lisboa, mas muitos dos seus artesãos e produtos encontram-se no interior, no norte e no sul do país. Para Luís Serra, o valor da Casa do Impacto esteve menos na localização geográfica e mais no alinhamento com a missão do projeto. A RA-RO encontrou ali uma incubadora com uma “lente” mais preparada para compreender negócios baseados em impacto, sustentabilidade e responsabilidade.

Caterina Foá reconhece que os polos nacionais de empreendedorismo não têm todos a mesma dimensão. Lisboa e Porto concentram grande parte do ecossistema, e Braga também tem ganho relevância. Ainda assim, sublinha que a Casa do Impacto procura atrair projetos de várias zonas do país.

Durante as 10 semanas de aceleração, o programa prevê uma pequena bolsa ou ajuda de custos para apoiar empreendedores que residam fora de Lisboa. O objetivo é reduzir barreiras à participação, sobretudo numa fase em que dedicar tempo a uma ideia pode ser difícil para fundadores sem estrutura financeira ou equipa consolidada.



O mercado como teste de maturidade

A fase inicial de uma startup é também uma fase de confronto com a realidade. A entrevista mostrou que os projetos apoiados pelo Triggers enfrentam dificuldades muito concretas.

No caso da RA-RO, os desafios passam pela logística, embalagem, distribuição, preço, maturidade digital dos artesãos e sazonalidade da produção. A empresa começou a partir da vontade de salvar produtos tradicionais em risco de desaparecimento, mas teve de adaptar a sua operação para lidar com produtos frágeis, fornecedores dispersos pelo país e consumidores que nem sempre compreendem o valor do tempo e do saber-fazer artesanal.

No caso da Empresta Aí, a dificuldade principal está no desenvolvimento tecnológico do marketplace. André Grácio explicou que a integração com sistemas de pagamento, cauções, cancelamentos e back-office revelou-se mais complexa do que o previsto. A ambição de tornar o aluguer de produtos tão simples como reservar alojamento on-line exige uma infraestrutura tecnológica segura, fluida e automatizada.



Para Caterina Foá, estes obstáculos fazem parte do processo. O empreendedorismo exige compromisso, persistência e capacidade de aprendizagem. Nem todos os projetos avançam, mas isso não significa que o percurso seja inútil.

“O mercado é um palco ingrato, mas também bastante honesto”, afirma. A frase resume uma das ideias fortes da entrevista: uma ideia pode nascer de uma intuição, mas só ganha consistência quando enfrenta utilizadores, parceiros, custos, processos e limites reais.

A Casa do Impacto procura intervir precisamente nesse intervalo entre a intenção e a execução. O Triggers não elimina o risco nem substitui o mercado, mas oferece estrutura, comunidade e orientação a quem tenta transformar uma ideia de sustentabilidade num negócio com impacto.

José Mendes
José Mendes
Jornalista e formador. Sou um entusiasta das relações humanas e interesso-me particularmente por questões de liderança e problemáticas organizacionais.
A coragem não é a ausência de medo. É o domínio do medo. É levantarmo-nos uma vez a mais do que caímos
Arianna Huffington
Co-fundadora do The Huffington Post
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