Empresta Aí quer digitalizar o aluguer de produtos e tornar a compra ocasional menos necessária.
Em entrevista ao Empreendedor, André Grácio, cofundador da Empresta Aí, explica como a startup está a desenvolver um marketplace dedicado ao aluguer de produtos. O projeto participa no programa Triggers, da Casa do Impacto, e quer consolidar primeiro o mercado português antes de avançar para fora.
A Empresta Aí nasceu de uma pergunta simples: por que razão comprar produtos que são usados apenas uma vez? Para André Grácio, cofundador da startup, esta fricção entre compra, utilização ocasional e desperdício abriu espaço para um marketplace dedicado ao aluguer de bens, com especial foco inicial em empresas que já operam nesse mercado.
“O Empresta Aí surge de uma necessidade de colmatar uma inexistência que havia no mercado”, afirma André Grácio, em entrevista ao Empreendedor. A ideia passa por criar uma plataforma que permita alugar produtos com a facilidade com que hoje se reserva alojamento em plataformas digitais.
O projeto participa na atual edição do Triggers, programa da Casa do Impacto orientado para projetos em fase inicial com impacto ambiental e de sustentabilidade. No caso da Empresta Aí, a ligação à economia circular é direta: dar maior utilização a produtos já existentes, reduzir compras desnecessárias e criar uma alternativa mais eficiente para necessidades pontuais.
Da validação orgânica ao marketplace
Antes de existir plataforma tecnológica, houve uma validação informal. André Grácio, engenheiro industrial, criou um grupo de Facebook dedicado ao aluguer de produtos. A adesão orgânica surpreendeu-o e revelou uma procura real: havia pessoas interessadas em alugar produtos e outras disponíveis para os colocar no mercado.
Foi nesse momento que percebeu que o Facebook não era o meio adequado para estruturar a oportunidade. Faltavam segurança, automatização, contratos, pagamentos e uma experiência de utilização comparável à de outros marketplaces consolidados.
A ortopedia tornou-se o primeiro sector de validação. O exemplo é claro: uma cadeira de rodas pode ser necessária durante duas semanas, mas não fazer sentido como compra definitiva. Segundo André Grácio, este é um dos sectores mais maduros em Portugal no aluguer de produtos, com empresas habituadas a trabalhar cauções, seguros e logística.
“Foi onde tivemos a maior atração, no ramo da ortopedia”, explica. A partir desse contacto inicial, a Empresta Aí começou a aprender com empresas que já tinham processos instalados e a perceber se o modelo poderia ser aplicado a outras categorias.
Hoje, a startup trabalha com 85 empresas do ramo do aluguer de equipamentos, sobretudo em Lisboa, que representam um catálogo agregado de cerca de 7 mil produtos. Além da ortopedia, a plataforma começou a integrar empresas de insufláveis, autocaravanas, surf e outras áreas associadas a produtos de utilização ocasional.
Primeiro a oferta, depois a escala
A estratégia da Empresta Aí passou por garantir primeiro uma base de oferta suficientemente robusta. Para André Grácio, um marketplace só consegue converter utilizadores se estes encontrarem variedade quando chegam à plataforma.
“Se garantirmos procura e não tivermos de base uma grande oferta, o cliente chega à plataforma e não é seduzido pela variedade”, afirma. Por isso, a prioridade foi estabelecer parcerias com empresas já ativas no aluguer, antes de abrir a plataforma ao público em geral.
A ambição, contudo, não se limita ao segmento empresarial. Com o lançamento do site, a Empresta Aí quer abrir também a possibilidade de aluguer entre particulares, no modelo peer-to-peer. A ideia é permitir que pessoas com produtos guardados e pouco utilizados possam disponibilizá-los para aluguer.
Para isso, a startup está a construir mecanismos de segurança inspirados nos processos das empresas parceiras. O objetivo é integrar cauções, contratos de aluguer automatizados com recurso a inteligência artificial e seguros de curto prazo associados a determinados alugueres. A empresa está também a trabalhar com a Indy Seguros, através de uma API para seguro automático em operações específicas.
A dificuldade escondida no back-office
Embora a proposta pareça simples do ponto de vista do utilizador, André Grácio reconhece que a principal dificuldade está na infraestrutura tecnológica. A construção de um marketplace de aluguer exige mais do que um site funcional. Obriga a gerir pagamentos, cauções, cancelamentos, contratos, transferências automáticas e regras operacionais entre clientes e anunciantes.
O maior obstáculo recente foi a integração com uma entidade de pagamentos, através da Stripe. Segundo o cofundador da Empresta Aí, o processo demorou mais do que o previsto e revelou falhas nos testes, tanto do lado da startup como na própria API utilizada.
“Foi quase como construir a Empresta Aí do zero”, afirma André Grácio. A frase mostra a diferença entre criar uma presença digital e montar uma operação capaz de funcionar diariamente com segurança.
Para o empreendedor, as ferramentas atuais permitem desenhar rapidamente a estrutura básica de um site. O desafio está depois na gestão real do back-office. “Qualquer um com inteligência artificial consegue fazer um site em segundos. O problema está na própria gestão depois do back-office”, sublinha.
Esta fase obrigou a equipa a trabalhar em conexões reais, parametrização de cancelamentos, gestão de cauções e fluidez dos pagamentos. O lançamento depende precisamente da capacidade de eliminar essas falhas antes de escalar a operação.
Lisboa como ponto de aceleração
A Empresta Aí nasceu a partir da Guarda, mas encontrou em Lisboa grande parte das condições para acelerar. André Grácio explica que cerca de 80% das empresas parceiras estão concentradas na capital, o que tornou estratégica a participação no Triggers e a proximidade à Casa do Impacto.
O empreendedor reconhece que o interior está a evoluir em matéria de empreendedorismo, mas considera que Lisboa continua a oferecer maior maturidade de ecossistema, mais proximidade a empresas e melhores condições para desenvolver parcerias.
“Para crescermos mais rápido, inevitavelmente, temos de vir para Lisboa”, afirma. No caso da Empresta Aí, essa deslocação não é apenas simbólica. Está ligada à própria estrutura do mercado de aluguer, mais concentrado na capital e nos seus arredores.
Ainda assim, o objetivo não é abandonar o mercado nacional fora dos grandes centros. Pelo contrário, a estratégia passa por consolidar primeiro Portugal e só depois avançar para fora. Para André Grácio, crescer demasiado depressa para o estrangeiro poderia fragilizar um modelo que ainda tem muitas oportunidades por explorar no país.
Amadurecer em Portugal antes de internacionalizar
Nos próximos dois anos, André Grácio quer manter a Empresta Aí focada em Portugal. A prioridade é integrar o maior número possível de empresas de aluguer, amadurecer a operação e tornar o aluguer uma prática mais natural para consumidores e empresas.
“A maior parte destas empresas de aluguer não possui tecnologia própria”, afirma. Muitas continuam a trabalhar com websites tradicionais, pedidos de cotação, orçamentos por e-mail e processos manuais. Para a Empresta Aí, essa realidade representa uma oportunidade: digitalizar um mercado já existente, mas ainda pouco automatizado.
O objetivo é ajudar empresas de aluguer a chegar a mais clientes e, ao mesmo tempo, criar uma experiência mais simples para quem precisa de usar um produto por pouco tempo. A economia circular surge, assim, não apenas como discurso ambiental, mas como modelo de eficiência económica.
A visão de André Grácio é clara: antes de escalar para fora, é preciso aproveitar as oportunidades que ainda existem em Portugal. “Quero que a minha startup amadureça bastante aqui em Portugal”, afirma.
A Empresta Aí está ainda numa fase inicial, mas já validou procura, construiu uma rede de parceiros e identificou os pontos críticos da operação. O seu desafio agora é transformar a intenção de alugar mais e comprar menos numa experiência digital segura, automatizada e suficientemente simples para mudar hábitos de consumo.