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Europa perde scaleups antes do IPO

José Mendes
José Mendes
Atualidade
8 Jun 2026

A Europa perde scaleups antes do IPO, quando capital, liderança e procura se deslocam para fora do continente.
A decisão da startup finlandesa Oura de preparar uma entrada em bolsa nos Estados Unidos mostra que a fuga das tecnológicas europeias começa antes do IPO: começa quando capital, liderança e procura se deslocam para fora da Europa.

A Europa não perde as suas tecnológicas apenas no momento em que estas escolhem entrar em bolsa nos Estados Unidos. Perde-as antes, quando as empresas chegam à fase em que precisam de capital de crescimento, clientes globais, liderança experiente, infraestrutura e mercados capazes de as acompanhar.

A frase sintetiza uma das ideias centrais da mais recente newsletter State of European Tech: “A Europa não perde as empresas no momento em que se preparam para entrar em bolsa; perde-as na primeira ronda de crescimento.” O caso da Oura, fabricante finlandesa de anéis inteligentes, ajuda a explicar esta leitura.

Fundada em Oulu, na Finlândia, a Oura tornou-se uma das empresas europeias mais relevantes no setor dos wearables de saúde. Avaliada em cerca de 11 mil milhões de dólares, apresentou pedido confidencial para uma entrada em bolsa nos Estados Unidos. A escolha do mercado norte-americano não é apenas uma decisão financeira de última hora. É o resultado de um deslocamento gradual do centro de gravidade da empresa.

Segundo a análise da Atomico, citada na newsletter, a base de investidores da Oura começou a inclinar-se para os Estados Unidos desde as primeiras rondas de crescimento. Em 2026, a maioria da equipa e grande parte da liderança executiva já se encontravam no mercado norte-americano. Software, design e vendas estavam sobretudo concentrados na Bay Area, enquanto a componente europeia mantinha maior peso na área de hardware, com competências relevantes em Oulu.

Este padrão é mais importante do que o local do IPO. Quando uma empresa europeia chega à bolsa com capital, clientes, liderança e mercado já deslocados para os Estados Unidos, a Europa perdeu muito antes a fase mais valiosa da escala.



O défice de capital de crescimento

A dificuldade europeia não está na criação de startups. O continente tem universidades fortes, talento técnico, centros de investigação, programas públicos de apoio e ecossistemas empreendedores maduros em várias cidades. O problema surge quando as empresas deixam de precisar apenas de validação tecnológica e passam a necessitar de rondas de crescimento capazes de financiar expansão global.

A newsletter State of European Tech estima que a tecnologia europeia precisa de um bilião de dólares na próxima década apenas para manter o ritmo histórico de crescimento. Para igualar os Estados Unidos em financiamento enquanto percentagem do PIB, seriam necessários mais de dois biliões de dólares. Mesmo que estes números devam ser lidos como estimativas de enquadramento, a mensagem é clara: a Europa continua subcapitalizada na fase em que as empresas mais promissoras precisam de escalar.

Foi precisamente para responder a esta lacuna que o European Innovation Council avançou com o Scaleup Europe Fund, uma iniciativa com dimensão prevista superior a 5 mil milhões de euros. O fundo pretende apoiar scaleups europeias de deep tech e mobilizar capital institucional para empresas com potencial de crescimento global.
A iniciativa é relevante, mas o desafio é maior do que um fundo. A Europa precisa de investidores locais com capacidade para acompanhar rondas tardias, fundos de pensões e seguradoras mais presentes no capital de risco, mercados de capitais mais profundos e compradores industriais dispostos a contratar tecnologia europeia em fases críticas de crescimento.



Capital já não chega

O Reino Unido parece ter percebido que capital, isoladamente, já não resolve o problema. A iniciativa britânica de IA soberana, de 500 milhões de libras, combina financiamento com acesso a supercomputadores, apoio regulatório, atração de talento e contratação pública. A lógica é simples: para escalar empresas de inteligência artificial, não basta investir dinheiro; é preciso garantir computação, clientes, enquadramento regulatório e capacidade de atrair equipas de investigação e desenvolvimento.

Esta abordagem é particularmente relevante para a Europa continental. Em setores como inteligência artificial, semicondutores, defesa, energia, biotecnologia ou espaço, a escala depende de uma combinação complexa de financiamento, infraestrutura e procura. Uma startup de IA precisa de capital, mas também de acesso a capacidade computacional. Uma empresa de defesa ou espaço precisa de capital, mas também de contratos públicos e validação institucional. Uma empresa de energia limpa precisa de financiamento, mas também de redes, licenciamento, compradores e estabilidade regulatória.

A nova competição tecnológica joga-se, por isso, em ecossistemas completos. Os Estados Unidos continuam a ter uma vantagem difícil de replicar: capital abundante, mercado interno profundo, grandes clientes tecnológicos, universidades, talento internacional, defesa, computação e mercados de capitais integrados. A Europa tem muitos destes elementos, mas raramente os articula com a mesma velocidade.



A soberania tecnológica decide-se na escala

Nos últimos anos, a Europa tem falado cada vez mais de soberania tecnológica. A expressão aparece associada à inteligência artificial, à cloud, aos semicondutores, à energia, à defesa e aos dados. Mas a soberania tecnológica não se mede apenas pelo número de startups criadas, nem pela qualidade da investigação científica. Mede-se pela capacidade de transformar empresas promissoras em líderes globais que continuem ancoradas na Europa.

A Mistral AI tornou-se um símbolo desta ambição na inteligência artificial. A empresa francesa procura afirmar-se como uma alternativa europeia num mercado dominado por empresas norte-americanas, apostando em modelos, clientes industriais e infraestrutura computacional. Mas o próprio caso Mistral mostra a dimensão do desafio: competir em IA exige rondas de capital muito elevadas, acesso a chips, data centers, energia, talento global e clientes empresariais com escala.

O mesmo raciocínio aplica-se à Oura. A empresa nasceu na Europa, mas o seu crescimento global foi sendo progressivamente suportado por capital e mercado norte-americanos. Quando chega o momento de listar a empresa, a escolha dos Estados Unidos parece quase natural. O IPO é apenas a confirmação de um caminho anterior.



O que isto ensina aos empreendedores europeus

Para os empreendedores, a lição é direta. Construir uma empresa global a partir da Europa exige pensar cedo na estrutura de capital, no mercado-alvo, na localização da liderança, na proximidade aos clientes e no acesso a infraestrutura crítica. A escolha entre crescer na Europa ou deslocar o centro de gravidade para os Estados Unidos raramente acontece de uma só vez. É uma sequência de decisões pequenas, tomadas em rondas de financiamento, contratações, parcerias comerciais e abertura de escritórios.

Para os decisores europeus, a lição é mais exigente. Não basta financiar investigação, lançar programas públicos ou celebrar unicórnios. É preciso criar condições para que as empresas atravessem a fase de crescimento sem terem de transferir para fora da Europa os centros de decisão, capital e procura.

O Scaleup Europe Fund é um passo importante, mas terá de funcionar como catalisador de uma mudança mais ampla. A Europa precisa de transformar poupança institucional em investimento produtivo, reduzir a fragmentação dos mercados de capitais, usar a contratação pública como instrumento estratégico e criar ambientes regulatórios que acelerem, em vez de atrasarem, a adoção de tecnologia europeia.



O risco de financiar a origem e perder a escala

A Europa tem sido eficaz a formar talento, financiar investigação e incubar empresas. Mas continua a arriscar financiar a origem e perder a escala. Esse é o problema central.
Quando uma startup nasce na Europa, mas encontra nos Estados Unidos o capital de crescimento, os clientes estratégicos, a liderança comercial, os mercados de capitais e a narrativa de expansão, a criação de valor desloca-se. A empresa pode manter raízes europeias, centros técnicos ou equipas de engenharia no continente, mas a captura económica mais relevante passa a acontecer noutro lugar.

A próxima década será decisiva. A inteligência artificial, a defesa, a energia limpa, o espaço, a saúde digital e os semicondutores vão exigir investimentos de dimensão inédita. Se a Europa quiser competir nestas áreas, terá de deixar de tratar as scaleups como startups maiores. São outro tipo de empresa, com outras necessidades, outros riscos e outro impacto estratégico.

A Europa não perde scaleups porque lhe falte talento. Perde-as quando não lhes oferece capital, procura, infraestrutura e ambição suficientes para crescerem sem mudar de centro de gravidade. É nessa fase, muito antes do IPO, que se decide o futuro tecnológico europeu.

José Mendes
José Mendes
Jornalista e formador. Sou um entusiasta das relações humanas e interesso-me particularmente por questões de liderança e problemáticas organizacionais.
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Empresário Americano
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