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Valor de marca já não mede atenção digital

Empreendedor.com
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Atualidade
8 Jun 2026

O valor financeiro das marcas já não coincide com a atenção digital. Empresas precisam de unir confiança, cultura e negócio.
As marcas mais valiosas do mundo dominam mercados e investidores, mas nem sempre captam a atenção cultural que hoje se decide nas redes sociais.

Durante décadas, o valor de uma marca foi medido sobretudo pela sua capacidade de gerar confiança, proteger margens, vender produtos e criar vantagem competitiva. Em 2026, essa lógica continua válida, mas já não é suficiente. A força financeira de uma marca e a sua capacidade de captar atenção digital deixaram de coincidir.

Segundo a análise “Global Brand Power 2026”, da Tradingpedia, baseada nos rankings da Brand Finance e em contagens de seguidores no Instagram recolhidas em maio de 2026, a Apple continua a ser a marca mais valiosa do mundo, com uma avaliação estimada em 607,6 mil milhões de dólares. Microsoft, Google, Amazon e Nvidia completam o grupo das cinco marcas mais valiosas, num ranking claramente dominado pela tecnologia norte-americana.

A leitura financeira é inequívoca: as grandes marcas tecnológicas continuam a concentrar valor económico. A Brand Finance destaca, em particular, a subida da Nvidia, cujo valor de marca cresceu fortemente num contexto de procura por infraestrutura de inteligência artificial. A empresa tornou-se uma das marcas mais valiosas do mundo porque está no centro da nova economia computacional.

Mas a atenção pública conta outra história. A Apple, apesar de liderar o ranking financeiro, não surge entre as marcas com maior audiência no Instagram. Segundo a Tradingpedia, a marca tinha 36,6 milhões de seguidores na plataforma, muito abaixo de marcas como Nike, National Geographic, Real Madrid, Barcelona ou Champions League.



A diferença entre valor e presença cultural

Esta diferença mostra uma mudança importante para empresas, empreendedores e gestores de marca. Ser valioso não significa necessariamente ser seguido, partilhado ou incorporado na identidade quotidiana dos consumidores.

A Apple pode continuar a ser uma das marcas mais poderosas do mundo porque controla um ecossistema de produtos, serviços, dispositivos e utilizadores. Mas uma marca como a Nike ocupa outro espaço: não vende apenas equipamento desportivo; participa em conversas sobre estilo de vida, corpo, competição, ambição, pertença e cultura visual.

O mesmo acontece com clubes de futebol e instituições desportivas. Real Madrid, Barcelona ou Champions League não são apenas marcas comerciais. São comunidades emocionais globais, com narrativas permanentes, rivalidades, símbolos, jogadores, histórias e momentos partilhados em tempo real. Nas redes sociais, esta dimensão emocional vale tanto como a dimensão financeira.

A Tradingpedia sintetiza esta tensão ao afirmar que as marcas que moldam a vida quotidiana das pessoas nem sempre são as que valem mais dinheiro. A ideia é relevante: o mercado financeiro valoriza escala, rentabilidade, propriedade intelectual, tecnologia e previsibilidade; as redes sociais valorizam identificação, emoção, presença constante e capacidade de gerar conversa.



A IA aumenta o valor, mas não garante proximidade

A entrada da Nvidia no topo das marcas globais é um dos sinais mais claros do peso da inteligência artificial na economia de 2026. A empresa tornou-se central para data centers, modelos de IA, computação avançada e infraestrutura digital. O seu valor de marca acompanha essa importância estratégica.

Mas a Nvidia não é uma marca emocional no mesmo sentido em que o são Nike, Red Bull, clubes de futebol ou marcas de moda. É uma marca essencial para investidores, empresas tecnológicas e decisores industriais, mas menos presente no imaginário quotidiano do consumidor comum.

Este contraste é útil para perceber o novo mapa das marcas. Há marcas que valem muito porque são infraestrutura. Há marcas que captam atenção porque são cultura. E há um pequeno grupo que consegue combinar as duas dimensões.

TikTok, Samsung e Red Bull são exemplos de marcas que, segundo a análise da Tradingpedia, conseguem aproximar valor económico e presença social. A primeira tornou-se uma plataforma cultural global; a segunda mantém escala tecnológica e presença de consumo; a terceira transformou uma bebida energética num universo de desporto, risco, juventude e entretenimento.



O que isto ensina às empresas

Para as empresas, a principal lição é simples: notoriedade financeira e atenção digital não são a mesma coisa. Uma marca pode ser sólida, lucrativa e bem avaliada, mas ter pouca capacidade de gerar comunidade. Do mesmo modo, uma marca pode ter forte presença cultural sem ainda ter capturado todo esse valor em receitas, margens ou avaliação financeira.

Esta distinção é particularmente relevante para PME, startups e marcas em crescimento. Muitas empresas procuram visibilidade nas redes sociais como se a atenção fosse, por si só, sinal de valor. Não é. Seguidores, interações e alcance podem ajudar a construir marca, mas só se estiverem ligados a proposta de valor, confiança, recorrência, produto e modelo de negócio.

O inverso também é verdadeiro. Uma empresa pode ter bons resultados, clientes fiéis e operação robusta, mas tornar-se vulnerável se perder relevância cultural. Num mercado em que a decisão de compra é influenciada por recomendações, comunidades, criadores de conteúdo e conversas digitais, a ausência de presença pública pode limitar crescimento, recrutamento e diferenciação.

O caso da Rhode, marca de skincare fundada por Hailey Bieber e adquirida pela e.l.f. Beauty num negócio avaliado em mil milhões de dólares, ilustra outra dimensão desta mudança. A força da marca não estava apenas no produto ou na celebridade, mas na combinação entre foco, comunidade, procura recorrente, identidade visual e capacidade de escala. A atenção foi convertida em valor porque existia uma estrutura de negócio capaz de a absorver.



A marca como sistema de confiança

O debate sobre marcas em 2026 deve, por isso, ir além da oposição entre “valor” e “seguidores”. Uma marca forte precisa de três dimensões: valor económico, relevância cultural e confiança operacional.

O valor económico mostra se a marca protege receitas e cria vantagem competitiva. A relevância cultural mostra se a marca participa nas conversas, símbolos e hábitos das pessoas. A confiança operacional mostra se a empresa consegue entregar o que promete de forma consistente.

Quando estas três dimensões se alinham, a marca deixa de ser apenas um nome ou um logótipo. Torna-se um sistema de confiança. É isso que permite a algumas empresas cobrar mais, vender melhor, resistir a crises, atrair talento e crescer para novos mercados.

A diferença entre a Apple e a Nike, entre a Nvidia e o Real Madrid, ou entre a infraestrutura da IA e a cultura do desporto, mostra que o poder das marcas deixou de estar concentrado numa única métrica. O futuro pertence às empresas que conseguirem transformar valor em relação, atenção em confiança e comunidade em negócio sustentável.

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