Ana Ventura Miranda: “Devemos colocar o coração em tudo o que fazemos”

Ana Ventura Miranda no MoMa; foto de Paulo Machado

“RHI – Revolution, Hope, Imagination” é um evento cultural criado por uma portuguesa que emigrou para os Estados Unidos para promover a Arte e a Cultura portuguesa no mundo. Agora, Ana Ventura Miranda retorna a Portugal para organizar, em setembro, um ciclo de conferências e festivais que junta artistas e empresários na promoção da imagem de Portugal no mundo. Em entrevista ao Empreendedor, explicou que é possível conciliar a Arte com um modelo de negócio, para atrair financiamento.

Ana Ventura Miranda iniciou a sua carreira como atriz e produtora. Em 2006 mudou-se para Nova Iorque, onde trabalhou como jornalista para a televisão portuguesa e para a Rádio da ONU, mas também para a Missão Permanente de Portugal junto das Nações Unidas e na emblemática Sonnabend Gallery.

Este contacto com a arte e com a divulgação da marca e cultura de Portugal levaram-na a fundar, em 2011, o Arte Institute, um instituto independente, sem fins lucrativos, para a internacionalização da arte e cultura contemporânea portuguesa. Este papel de promotora das artes valeu-lhe, em 2015 o “Prémio D. Antónia Ferreira” e em 2017 o Prémio da PALCUS na categoria de “Leadership for the Arts”.

Através do instituto Ana Ventura Miranda tem sido responsável pela organização de diversos eventos culturais em todo o mundo, incluindo o NY Portuguese Short Film Festival, a Semana José Saramago em NY, Pessoa in New York, Arte Institute Contemporary Dance at Alvin Ailey ou “Gaiola Dourada no MoMA”, entre vários outros.

Ana Ventura Miranda está em Portugal a promover o RHI, um evento que, ao longo do mês de setembro, debate a Arte e a Cultura nas suas diferentes vertentes, desde a música e cinema, ao teatro e design, nas principais cidades do país.

Ana Ventura Miranda – O RHI é uma forma de partilhar a nossa experiência, adquirida ao longo de oito anos do Arte Institute. Apesar dos nossos investidores serem empresas Portuguesas, somos uma organização sem fins lucrativos Americana e, portanto, tivemos de encontrar um meio caminho para unir o modelo de financiamento cultural Americano e o Europeu.

É essa experiência e são essas ferramentas que queremos transmitir a quem esteja à procura de novas formas de fazer e de financiar. Queremos no fundo reavaliar o que tanto os artistas como as empresas podem trazer para este novo diálogo, partindo da nossa experiência. Mas queremos também continuar a promover a internacionalização da cultura contemporânea Portuguesa, e para isso criámos a plataforma RHI Think que pretendemos tenha um alcance internacional e nos possa ajudar nesse objetivo.

E, como é que a plataforma vai impulsionar essa internacionalização da cultura portuguesa?

– É fundamental criar redes e mais parcerias entre os artistas e agentes culturais de norte a sul de Portugal e pretendemos que o RHI seja o agregador e o motor dessa vontade. Por isso RHI é uma iniciativa, um movimento, de Portugal para o mundo, mas também de Portugal para os Portugueses. Revolucionar as mentalidades e maneira de fazer. Sobretudo gerar esperança, porque sem ela nada se consegue, e imaginação porque, na falta de fundos, é nela que temos de nos apoiar.

Empreendedorismo e Cultura

É possível falar de empreendedorismo na Cultura?

– A cultura pode e deve ser um veículo para a promoção de um país, tanto da sua marca, como das suas empresas. É através do poder inconsciente da arte que se pode “promover” um país e alavancar outras estruturas económicas. Ninguém vai investir num país do qual que não tem qualquer conhecimento.

Por exemplo: temos um Cristo Rei, mas o conhecido é o Cristo Redentor do Brasil. E porquê? Por causa dos filmes, das novelas, da música, da literatura, entre outros. Então, o empreendedorismo tem também um papel nesta divulgação e está muito mais ligado à cultura do que inicialmente pode parecer.

As novas tecnologias, que estão a ser desenvolvidas pelos empreendedores em startups, podem contribuir para essa divulgação cultural?

– Todas as artes têm uma plasticidade infinita e havendo a estratégia e visão certa, os resultados podem ser inspiradores. No entanto, a promoção cultural tem de ser revista para que essas áreas tecnológicas do empreendedorismo possam ser maximizadas e haja um win-win para os dois lados.

Nova Iorque abriu-nos muitas portas em termos da internacionalização da cultura contemporânea nacional

O Arte Institute pode ser considerado um projeto de empreendedorismo?

– O Arte Institute é uma iniciativa da sociedade civil para a internacionalização da cultura portuguesa contemporânea e, de forma inédita, tem-no feito por todo mundo. Em 8 anos já promoveu mais de 800 artistas e esteve presente em 36 países e 85 cidades, fazendo, em 2018, 125 eventos, com um orçamento de 120 mil dólares anuais. É o único projeto português no mundo que, de forma sustentada, tem conseguido promover a cultura contemporânea e a marca “Portugal”, transversalmente em todas as áreas artísticas.

Investir na internacionalização

Porque escolheu Nova Iorque como base para o Arte Institute?

– Acho que foi Nova Iorque que nos escolheu, pela falta de conhecimento do que era Portugal e a sua cultura e contemporaneidade. Foi essa a razão para a criação do Arte Institute.

Ainda bem que assim foi, porque Nova Iorque é uma grande montra para qualquer projeto ou negócio e abriu-nos muitas portas em termos da internacionalização da cultura contemporânea nacional.

Na sua atividade é possível falar num “mercado da lusofonia”?

– Há todo um “mercado da Lusofonia”, e do nosso know-how e experiência, está subaproveitado. O facto de termos a língua Portuguesa em comum torna-nos um mercado muito vasto e com muitos públicos. No entanto, essas nuances da língua, simbolizam também toda uma diversidade de culturas em pelo menos três continentes.

Muitas vezes os problemas deste grande mercado lusófono são partilhados por todos os participantes. Sobre o chapéu da lusofonia, esses desafios poderiam ser ultrapassados havendo uma estratégia comum a todos.

O “possível” ou o “impossível” somos nós que determinamos

Qual é o seu próximo projeto?

– Ampliar o RHI para os países da lusofonia e aumentar a sua rede de parceiros em Portugal. Para o Arte Institute, integrá-lo num espaço em Nova Iorque onde se possa também fazer a promoção da marca e das empresas portuguesas.

Certamente, ao longo do seu percurso encontrou dificuldades. Que mensagem daria aos jovens empreendedores para vencer essas dificuldades?

– Não deixar que ninguém lhes diga que é impossível. O “possível” ou o “impossível” somos nós que determinamos, através da nossa vontade, empenho e muito trabalho. Quem quer impedir que os projetos avancem também se cansa, não podemos é ser nós os primeiros a cansar-nos!

Um conselho muito importante é também rodear-nos de quem tem a mesma paixão e “drive” que nós. E, por fim, colocar sempre o coração em tudo o que fazemos.

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