O plano é rever o plano

Foto de 愚木混株 (cdd20) em Unsplash

Já todos vimos esta imagem em muitos filmes: o cowboy a colapsar de sede no deserto e os abutres que aguardam a sua morte para o poder atacar. A culpa de colocar o herói nessa situação costumava ser do vilão. Nunca vi um filme em que o culpado fosse o GPS.

Hoje é bem diferente: em Death Valley – cenário de muitos destes filmes – acontece que o GPS conduza pessoas a situações extremas que, por vezes, acabam em morte. Foi o caso de Alicia Sanchez e do seu filho Carlos em 2009, ou o casal Albert e Rita Chretien, em 2011. Em ambos os casos, o condutor seguiu à risca as indicações dadas pelo aparelho de GPS, que os conduzia por trilhos que eventualmente se tornavam intransitáveis. Como consequência, pessoas perderam a vida.

Abundam outras histórias extremas de seguir o GPS à risca, desde os turistas japoneses que entraram com o carro pelo mar dentro, outra senhora que fez o mesmo num lago ou o senhor inglês que, por pouco, não caiu de um penhasco. Em todos estes casos vemos pessoas que seguiam um plano traçado, com instruções passo a passo, para alcançarem o destino que desejavam.

Nas empresas e no Estado, a este tipo de instruções chamamos orçamento. Cumpri-lo à risca faz sentido na maioria das vezes. Exceto quando não faz.

No turbulento contexto atual, em que pandemias ou guerras se sucedem, e em que o futuro imediato é muito pouco previsível, seguir orçamentos traçados com meses de antecedência pode ser o equivalente a decidir conduzir o carro para o sítio errado.

Recentemente, o Orçamento do Estado foi alvo de discussão na Assembleia da República. Investiram-se milhares de horas na Assembleia, em jornais e debates. Tudo isto para, no final, traçar um plano condutor para os próximos meses, baseado em pressupostos que apenas por coincidência ocorrerão.

Nas empresas, são gastos meses a fazer o orçamento do ano seguinte, e outros tantos a explicar as suas diferenças com a realidade.

Porquê esta dependência dos orçamentos? Creio que a principal razão é que nós, humanos, temos uma necessidade enorme de previsibilidade, e o orçamento dá-nos algum conforto ao circunscrever o futuro num documento. Não ter um orçamento seria, sem dúvida, pior. Seria como caminhar errante, sem destino.

Foto de Soulful Pizza em Pexels

Quais são então as alternativas?

Uma das alternativas seria ter um orçamento que fosse uma árvore de decisões, com marcos mensais ou trimestrais. A cada momento, dependendo dos pressupostos se verificassem ou não, corresponderiam ações diferentes. Além da complexidade, esta solução ignora os “cisnes negros” que, por definição, não são previsíveis.

Outra opção seria definir uma revisão periódica do orçamento, ajustando os objetivos em função do entorno do momento. No espectro oposto de simplicidade, poderia definir apenas alguns dos objetivos principais e delegar em unidades menores da organização as responsabilidades e os meios para os atingir.

Em qualquer destes casos, será importante ir revendo se o caminho que seguimos nos conduz ao destino desejado ou ao precipício. Se, por hipótese, temos orçamentado abrir quatro lojas este ano, mas os resultados das existentes não estão a ser bons, talvez focar esforços nestas e não na abertura de novas, seja mais importante do que cumprir o orçamento.

Recentemente, no distrito de Viseu, o GPS deu-me instruções claras para seguir uma estrada que entrava diretamente numa albufeira. Face à evidência, optei por voltar para trás, mas as instruções persistiam em indicar-me o mesmo calamitoso caminho. Sou um grande utilizador do GPS e sigo-o na maioria das vezes, mas isso não substitui a atenção à estrada, uma estratégia que será sempre correta.

Do mesmo modo, há algumas estratégias que são sempre acertadas, independentemente do que aconteça no mundo. Atentar à contenção de custos e fomentar uma cultura que a perpetue, é uma delas.

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