Num mercado de trabalho marcado pela escassez de talento e por níveis elevados de pressão operacional, a automedicação tornou-se uma prática silenciosa mas estrutural no quotidiano profissional em Portugal. Longe de ser apenas uma decisão individual de saúde, a automedicação e produtividade no trabalho surgem cada vez mais interligadas, funcionando como um mecanismo informal para manter desempenho, evitar faltas e responder a exigências organizacionais crescentes.
Dados recentes da Nova SBE, no âmbito da Cátedra BPI | Fundação “la Caixa” em Economia da Saúde, revelam que mais de metade dos portugueses já recorreu à automedicação em algum momento da vida. Esta prática é particularmente prevalente entre adultos jovens, pessoas profissionalmente ativas e trabalhadores por conta própria — precisamente os segmentos mais expostos à pressão do tempo e à dificuldade em interromper a atividade laboral para recorrer ao sistema de saúde.

Automedicação como resposta funcional à pressão do tempo
O estudo mostra que, em cerca de sete em cada dez casos, a automedicação é percecionada como eficaz, permitindo resolver sintomas sem recorrer posteriormente a cuidados de saúde formais. Este dado ajuda a explicar porque razão muitos profissionais optam por “aguentar” e continuar a trabalhar. Na prática, a automedicação funciona como uma estratégia de gestão do tempo: reduz ausências imediatas, evita esperas e mantém compromissos profissionais.
Contudo, esta solução aparente tem custos ocultos. A literatura sobre presenteísmo — estar no trabalho apesar de doença ou mal-estar — indica que a produtividade real diminui, a probabilidade de erro aumenta e o desgaste físico e mental se acumula. O ganho de curto prazo transforma-se, frequentemente, numa perda diferida.

Quando o sistema falha, a empresa absorve o risco
O recurso à automedicação está também associado a barreiras no acesso aos cuidados de saúde primários. A ausência de médico de família e os tempos de espera empurram decisões individuais que transferem o risco para o local de trabalho. O próprio estudo da Nova SBE identifica que quem não tem médico de família se automedica com maior frequência e de forma mais recorrente.
Para as organizações, isto traduz-se num risco de gestão pouco visível: trabalhadores que adiam cuidados tendem a apresentar episódios de doença mais prolongados no futuro, com impacto em absentismo tardio, baixas médicas extensas e rotatividade. A automedicação e produtividade no trabalho passam assim a integrar a equação do capital humano, ainda que raramente sejam tratadas como tal.
Cultura organizacional e a normalização do “não parar”
Há um elemento cultural que o estudo ajuda a revelar. Ambientes profissionais onde a disponibilidade constante é valorizada e onde parar continua a ser, ainda que informalmente, penalizado, criam incentivos claros para a automedicação. A investigação mostra, aliás, que níveis elevados de confiança nesta prática estão associados a piores resultados, sugerindo que o excesso de confiança pode agravar riscos de saúde e desempenho.
Neste contexto, a automedicação deixa de ser apenas uma escolha pessoal e torna-se um indicador indireto da cultura organizacional e do estilo de liderança. Empresas que confundem presença com produtividade acabam por reforçar comportamentos que fragilizam o seu próprio capital humano.

Flexibilidade e bem-estar como vantagem competitiva
Num mercado onde o talento é escasso, algumas organizações começam a reconhecer que flexibilidade, benefícios ajustados às diferentes fases de vida e políticas claras de bem-estar não são custos adicionais, mas instrumentos de retenção e desempenho sustentado. Plataformas de gestão de pessoas, como a Sesame HR, têm sublinhado a importância de modelos de trabalho flexíveis, benefícios personalizáveis e comunicação interna inclusiva como resposta à dificuldade em atrair e manter profissionais qualificados.
Mais do que soluções tecnológicas, está em causa uma mudança de lógica: reduzir a necessidade de “desenrascar” individualmente problemas de saúde para conseguir trabalhar, criando condições para uma gestão mais saudável do tempo, da energia e das expectativas.
Produtividade que se paga mais tarde
A generalização da automedicação no contexto laboral é um sintoma de sistemas sob pressão — do sistema de saúde, mas também das organizações. Ignorar esta realidade pode significar ganhos aparentes no curto prazo, à custa de perdas significativas no médio e longo prazo. Num contexto de escassez de talento, compreender a relação entre automedicação e produtividade no trabalho é essencial para quem gere pessoas, equipas e negócios.
Empresas que leem estes sinais e ajustam a sua cultura e práticas de gestão não estão apenas a promover bem-estar; estão a proteger um dos seus ativos mais críticos: a capacidade de produzir valor de forma sustentável.







