Geração Y: o zapping laboral

Jovens tirando selfie

Geração Y é um conceito que se utiliza para definir os jovens nascidos entre o final dos anos 80 e o ano 2000. Tem o nome ‘Y’ por causa dos headphones, ou por ser a ‘geração dos porquês’ (‘Y’ em inglês pronuncia-se ‘why’), embora o mais provável é que o nome resulte apenas do facto de serem os filhos da ‘geração X’ e os pais da ‘geração Z’.

Também conhecidos por ‘geração Internet’, ‘millennials’, ou – em Portugal – por ‘geração rasca’ ou ‘geração à rasca’. A diversidade de nomes (e também de intervalos nos anos que a balizam) apenas revela que este é um fenómeno que só recentemente começou a ser estudado. Mas basta olhar para os nomes que lhe são atribuídos para percebermos que os jovens adultos do início do milénio estão familiarizados com as novas formas de tecnologia, embora tenham dificuldades em conseguir emprego e também comportamentos que os diferenciam pela negativa das gerações anteriores.

Conflitos de gerações

Vale a pena olhar para o que aconteceu nos últimos 50 anos, até porque só vendo à distância conseguimos entender as mudanças nos fenómenos sociais. Os avós da ‘geração Y’ foram os ‘baby boomers’. Eles nasceram no pós-guerra e cresceram num contexto de crescimento económico, em situação de quase pleno emprego, onde tudo era previsível e linear. Um emprego era para toda a vida, desde que se cumprissem as regras estabelecidas e se respeitasse a hierarquia.

A geração seguinte, chamada ‘geração X’, foi confrontada com outra realidade. No ‘maio de 68’ percebeu que as habilitações escolares já não eram uma garantia de progressão social, como acontecera com os seus pais, mas foi a crise do petróleo dos anos 70 que mudou radicalmente a sua forma de olhar para o mundo laboral. Ondas de despedimentos, conflitos sociais e mudanças organizacionais nas empresas criaram uma geração mais reivindicativa e competitiva. A sociedade passou a valorizar a ousadia, a acumulação e riqueza, mas também a liberdade e sensualidade. Aumentou o fosso entre ricos e pobres e a taxa de divórcio. A insegurança no trabalho começou a tornar-se rotina e a necessidade de ganhar cada vez mais dinheiro crescia ao mesmo tempo que o endividamento das famílias.

A ‘geração Y’ foi moldada pelo ambiente que tinha em casa. Quase sempre filhos únicos, cresceram sozinhos – ou criados e mimados pelos avós – e viram os seus pais separarem-se, quer porque dedicavam a maior parte do tempo ao trabalho, ou porque traziam para casa a competição individual. Muitos desses jovens, que hoje têm entre 16 e 35 anos, sentiram no desemprego dos pais a dureza de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, e eles próprios foram empurrados de estágio em estágio até conseguirem um trabalho precário, a ‘recibos verdes’, muitas vezes abaixo do salário mínimo.

Esta realidade não torna a ‘geração Y’ mais competitiva; eles simplesmente não têm as mesmas aspirações dos seus pais. Em primeiro lugar porque ganham substancialmente menos do que ganhavam os jovens das gerações anteriores, e por isso ficam até mais tarde na casa dos pais. Mesmo que venham a constituir família, muitos terão a casa que era dos avós ou uma segunda casa dos pais, acumulada em resultado do divórcio e segundo casamento. Ou seja, as necessidades de endividamento são menores para os ‘Y’ do que foram para as gerações anteriores e isso, associado aos baixos salários que travam a apetência pelo consumo, faz com que os millennials se preocupem menos com dinheiro.

Enquanto os seus pais trabalhavam cada vez mais horas para ganhar mais e progredir na carreira, e os seus avós respeitavam as hierarquias para manter o emprego de toda a vida, os jovens da ‘geração Y’ rejeitam os códigos tradicionais do mundo do trabalho valorizando o seu tempo livre. Eles não querem grandes empresas nem carreiras longas, preferindo, mudar de emprego a cada cinco anos e escolhem trabalhar menos horas, ganhado menos, do que um horário mais carregado, apesar de melhor salário.

É certo que muitas destas ideias resultam da análise de questionários sobre expectativas, uma vez que a ‘geração Y’ só recentemente entrou no mercado de trabalho, e também porque a crise económica tem pressionado para baixo os salários dos novos trabalhadores. Mas se analisarmos o que se passa nas grandes empresas tecnológicas, onde a palavra ‘crise’ tem estado afastada, e que recrutam sobretudo colaboradores desta geração, percebe-se que há mudanças sociológicas relevantes que vão afetar as empresas à medida que os millennials forem engrossando o perfil dos trabalhadores.

Com efeito, em 2025, 75% dos trabalhadores serão da ‘geração Y’, segundo um estudo realizado pela Deloitte. Essa geração, a que já chamaram os ‘nativos digitais’, possui um conhecimento sobre as novas formas de tecnologia e uma capacidade de inovação mais elevada que as anteriores. É também a primeira geração globalizada, com mais acesso à informação do que as gerações anteriores. Hoje, um jovem de um país africano ou do sudoeste asiático tem acesso à mesma informação que um alemão ou norte-americano, independentemente dos seus níveis socioeconómicos, podem partilhar as mesmas aspirações.

Novos Códigos de Valores

Eles usam as diferentes ferramentas tecnológicas de forma natural e espontânea em 80% do seu tempo, para eles a Internet não tem segredos, e as redes sociais também não. Estão permanentemente conectados e absorvem um enorme fluxo de informação, levando-os a questionar tudo constantemente. Isso interfere nos códigos tradicionais das empresas e na organização do trabalho.

Um dos traços comportamentais que unem os membros da ‘geração Y’ é a busca de sentido: ‘o que eu faço é útil?’ ‘Qual é o seu propósito?’ As empresas empenhadas em desenvolvimento sustentável ou com preocupações de responsabilidade social são mais valorizadas do que as que visam apenas o lucro. A equidade é um valor que prezam, cada pessoa deve ser avaliada na mesma base, e valorizam as empresas que além da recompensa material também apostam na motivação intrínseca, ou seja: enriquecimento das suas competências, conhecimentos e habilidades.

A vida profissional, por si só não lhes interessa; para boa parte destas pessoas a distinção tradicional entre trabalho e lazer não é tão rígida quanto antigamente. Eles não querem estar presos a normas. Escolhem os horários flexíveis que lhe permitam uma conciliação entre a vida privada e a profissional. Preferem a multitarefa a uma divisão de trabalho especializada e repetitiva. Gostam de pedir e dar opinião, independentemente das hierarquias, por isso são muito mais produtivos em projetos colaborativos e valorizam uma gestão participativa em vez da tradicional comunicação descendente.

A nova atitude face à autoridade é uma mudança significativa, relativamente às gerações anteriores. Para a ‘geração Y’ as chefias perderam a autoridade conferida pela sua classificação, em contrapartida reconhecem e respeitam a liderança. O que choca hoje os gestores no comportamento dos millennials não é a falta de educação de miúdos mimados, mas o confronto da autoridade do ‘chefe’ com a visão do ‘líder’.

Outra característica distintiva da ‘geração Y’ é a mobilidade. Por muito que uma empresa lhe ofereça, eles não pretendem ficar no mesmo emprego por muito tempo. Não deixa de ser um paradoxo que os jovens que começaram com trabalhos precários e saltando de estágio para estágio, uma vez chegados ao princípio de uma carreira estável garantem que o seu principal objetivo é mudar de emprego nos anos seguintes. Essa necessidade resulta da sua vontade de comunicar e conhecer novas pessoas. Acostumados ao zapping, eles sentem-se atraídos por empresas que permitem a mobilidade interna ou com dimensão internacional. Em alternativa, serão eles a mudar para empresas que demonstrem ter mais ética, ou valores que coincidam com os seus.

À medida que a recuperação económica for fazendo descer a taxa de desemprego, a pressão da nova geração vai fazer-se sentir em todas as áreas de negócio, e não apenas nas tecnológicas. A volatilidade no mercado de trabalho vai acentuar-se, e agora não serão as empresas a ditar essa mudança. Reter os melhores colaboradores, implica receitas criativas, evitando dogmas, até porque é mais fácil mudarmos nós do que mudar o mundo…

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